RESUMO
O Calibre 2-66, e a linha 'Shadow' que ele impulsionou, representa um pináculo da relojoaria de meados do século XX, posicionando a Universal Genève na vanguarda da inovação técnica e da elegância. Lançado em 1965, este movimento não era apenas um componente, mas a própria alma de uma nova filosofia de design. O seu público-alvo era o indivíduo sofisticado e moderno, que procurava um relógio de luxo que aliasse a conveniência de um calibre automático à discrição e ao requinte de um relógio de cerimónia ultra-fino. A filosofia por trás do Calibre 2-66 e da série Shadow, desenhada pelo lendário Gérald Genta, era a da pureza funcional e da beleza minimalista. Cada elemento, desde a espessura recorde de 2,5 mm do movimento até às linhas depuradas da caixa, foi concebido para alcançar uma harmonia perfeita. A sua importância para a horologia é imensa; não só resolveu os problemas de eficiência de corda que afetavam a primeira geração de micro-rotores, como também estabeleceu um novo recorde mundial para o relógio automático mais fino da sua época. Este feito técnico solidificou a reputação da Universal Genève como uma verdadeira 'manufacture' capaz de competir, e até superar, gigantes como a Piaget no campo da relojoaria ultra-fina, deixando um legado de inovação que continua a ser estudado e admirado por colecionadores e historiadores até hoje.
HISTÓRIA
A história do Calibre 2-66 é uma narrativa de ambição, refinamento técnico e colaboração genial. Em meados da década de 1960, o campo de batalha da alta relojoaria era a busca incessante pela magreza. A Universal Genève já havia chocado o mundo em 1955 com o Calibre 215, o primeiro movimento 'Microtor', que integrava de forma revolucionária a massa oscilante no mesmo plano das pontes, em vez de a sobrepor. Contudo, apesar de genial, o Calibre 215 e os seus sucessores imediatos, como o 218, sofriam de uma eficiência de corda por vezes insuficiente e tinham uma espessura que, embora impressionante para a época, seria em breve desafiada. A Piaget, com o seu Calibre 12P de 1960 (com 2,3 mm), tinha estabelecido um novo e formidável padrão.
A resposta da Universal Genève foi o Calibre 2-66, lançado por volta de 1965. Este não foi uma mera atualização, mas uma reengenharia completa. Para merecer o epíteto 'Super Microtor', os engenheiros da UG focaram-se em resolver o calcanhar de Aquiles do seu antecessor: a inércia. Utilizando materiais de densidade superior para o pequeno rotor, como ouro maciço de 24k ou mesmo platina, e otimizando o sistema de engrenagens, conseguiram aumentar drasticamente a eficiência da corda. Simultaneamente, redesenharam toda a arquitetura do movimento para alcançar uma espessura extraordinária de apenas 2,5 mm. Este feito técnico permitiu à Universal Genève reclamar o título do relógio automático mais fino do mundo.
Contudo, um movimento excecional exige uma caixa à sua altura. Foi aqui que entrou em cena o lendário designer de relógios Gérald Genta. A Universal Genève contratou-o para desenhar a caixa que albergaria esta maravilha mecânica. O resultado foi a linha 'Shadow'. Os modelos 'Golden Shadow' (em ouro) e 'White Shadow' (em aço) eram a personificação da elegância minimalista de Genta. As caixas eram incrivelmente finas, com asas integradas e um perfil que parecia fluir em torno do pulso. O design era tão puro e revolucionário quanto o movimento que continha. A combinação da proeza técnica da UG com a visão estética de Genta criou um ícone instantâneo. Ao longo dos anos, a família 'Shadow' expandiu-se para incluir variações com data (utilizando o Calibre 2-67, ligeiramente mais espesso) e diferentes formatos de caixa, como quadrado ou 'tonneau', mas sempre mantendo o ADN ultra-fino. O impacto do Calibre 2-66 foi profundo, cimentando o estatuto da Universal Genève como uma das mais inovadoras e capazes 'manufactures' do seu tempo, marcando um pico criativo e técnico antes da tempestade da crise do quartzo.
CURIOSIDADES
O design da icónica linha 'Shadow', que foi construída em torno do Calibre 2-66, foi uma das primeiras obras de Gérald Genta, o mesmo génio que mais tarde desenharia o Audemars Piguet Royal Oak e o Patek Philippe Nautilus.
Na sua época, o Universal Genève Golden Shadow deteve o recorde do Guinness para o relógio de pulso automático mais fino do mundo, com uma espessura total de caixa inferior a 6mm.
O nome 'Super Microtor' não era apenas marketing; referia-se às melhorias técnicas cruciais, principalmente ao uso de um rotor de maior densidade (ouro ou platina) para aumentar a inércia e a eficiência da corda em comparação com o Microtor original.
Muitos dos primeiros modelos 'Shadow' não apresentavam o nome do modelo no mostrador, exibindo apenas 'Universal Genève' e 'Automatic', um detalhe apreciado por colecionadores que procuram as versões mais puras.
Dentro da comunidade de colecionadores, estes relógios são frequentemente apelidados de 'Genta Shadows', reconhecendo a importância do seu lendário designer tanto quanto a do seu movimento recordista.
O Calibre 2-66 e as suas variantes foram produzidos durante um período relativamente longo, testemunhando a robustez e o sucesso do seu design, mesmo durante o início da era do quartzo.