RESUMO
Em 1963, no auge da era dourada dos cronógrafos desportivos, a Universal Genève apresentou a referência 885103, uma peça que viria a tornar-se um ícone entre os colecionadores. Este modelo, em sua configuração de lançamento MK I, não era apenas mais um relógio, mas uma declaração de excelência técnica e estética. Posicionado como um instrumento de precisão para profissionais, especialmente no mundo do automobilismo, o Compax 885103 combinava a robustez de um cronógrafo de ferramenta com a elegância refinada que definia a marca. A sua filosofia de design era um estudo de contrastes harmoniosos: a legibilidade desportiva de um mostrador 'panda invertido' era enquadrada pela sofisticação de uma caixa com 'twisted lugs' e ponteiros Dauphine. O seu público-alvo eram os conhecedores que exigiam o melhor, tanto em performance quanto em estilo. A significância deste modelo transcende a sua própria beleza; ao adotar o lendário calibre Valjoux 72, a Universal Genève alinhou-se com os maiores nomes da relojoaria, como a Rolex. Mais importante, esta referência específica, com os seus detalhes únicos de MK I, serviu como a base direta para o que mais tarde seria apelidado de 'Evil Nina', tornando-o não apenas um relógio historicamente importante, mas a génese de um verdadeiro 'grail watch' no panteão da relojoaria vintage.
HISTÓRIA
A referência Compax 885103 surge num momento crucial da história da Universal Genève e da relojoaria em geral. Em 1963, a competição por cronógrafos desportivos de pulso estava no seu auge, com marcas como Heuer e Rolex a definir o mercado. A Universal Genève, já reverenciada pela sua mestria em complicações e design ultra-fino, decidiu modernizar a sua icónica linha Compax, que existia desde a década de 1930. A decisão mais significativa foi a transição dos seus calibres de manufatura (como o Martel/UG 285) para o Valjoux 72, um movimento de terceiros, mas considerado por muitos como o melhor calibre de cronógrafo de corda manual da sua época. Esta mudança estratégica não só garantiu uma fiabilidade à prova de bala, mas também posicionou o Compax diretamente contra o seu concorrente mais famoso, o Rolex Daytona, que também utilizava o mesmo motor.
O modelo de lançamento de 1963, hoje classificado pelos colecionadores como MK I, é a mais pura expressão desta nova visão. O seu design é uma aula de proporção e detalhe. A caixa de 36mm com 'twisted lugs', fabricada pela prestigiada Huguenin Frères (que também produzia caixas para o Omega Speedmaster), confere ao relógio uma presença escultural no pulso, equilibrando perfeitamente a elegância e a desportividade. O que distingue inequivocamente este MK I das iterações posteriores é uma combinação de detalhes subtis mas cruciais. O mais notável é o logotipo 'U' da Universal Genève, que é uma peça de metal aplicada e polida, conferindo uma profundidade e qualidade que se perderia nas versões subsequentes com logotipos pintados. Adicionalmente, os ponteiros de horas e minutos em aço polido, uma mistura entre os estilos Dauphine e Agulha, são específicos desta primeira série, oferecendo uma legibilidade e um brilho distintos.
Esta referência é, fundamentalmente, a precursora da 885103/01, a variante que viria a ganhar o apelido de 'Evil Nina'. O 'Evil Nina' é essencialmente um MK II, que introduziu ponteiros bastão mais simples e o já mencionado logotipo pintado. Assim, o MK I de 1963 representa a forma original e, para muitos puristas, a mais refinada desta lendária linhagem. O seu mostrador 'panda invertido', provavelmente fabricado pela Singer (a mesma casa que produziu os mostradores 'exóticos' para o Rolex 'Paul Newman' Daytona), é um exemplo de design gráfico perfeito, com sub-mostradores brancos nítidos contra um fundo preto profundo, garantindo máxima legibilidade. O seu impacto foi imenso, solidificando a reputação da Universal Genève como mestre do design de cronógrafos e criando um modelo que, décadas mais tarde, se tornaria um dos mais cobiçados e estudados no mercado de relógios vintage, um verdadeiro testemunho da sua perfeição intemporal.
CURIOSIDADES
O Apelido de Origem: Embora não seja o 'Evil Nina' propriamente dito, os colecionadores referem-se frequentemente a este modelo como o 'Proto-Evil Nina' ou 'O Evil Nina Original', reconhecendo-o como a base exata para o seu sucessor mais famoso.
O Motor Partilhado: O seu calibre Valjoux 72 é o mesmo movimento que equipava as primeiras referências do Rolex Daytona, incluindo o icónico 'Paul Newman', oferecendo aos colecionadores uma peça com um pedigree mecânico de elite a uma fração do preço histórico do seu primo da Rolex.
Pedigree da Caixa: A caixa com 'twisted lugs' foi fabricada pela Huguenin Frères, um dos fabricantes de caixas mais respeitados da Suíça, responsável por caixas icónicas como a do Omega Speedmaster 'Moonwatch' e do Patek Philippe Nautilus.
O Detalhe do Logotipo Aplicado: O logotipo 'U' aplicado em metal é a principal característica de identificação do MK I. Esta construção mais cara e detalhada foi simplificada para um logotipo pintado em versões posteriores (MK II em diante), tornando os exemplares MK I significativamente mais raros e desejáveis.
A Conexão com o Automobilismo: A família de relógios Compax, incluindo este modelo e os seus parentes 'Nina Rindt' (o panda branco) e 'Evil Nina', está intrinsecamente ligada à era dourada da Fórmula 1, sendo os relógios de eleição de pilotos e aficionados pelo desporto motorizado.
O Fornecedor do Mostrador: Os mostradores eram muito provavelmente produzidos pela Singer, a famosa empresa que também fabricava os lendários mostradores 'exóticos' para a Rolex, o que explica a semelhança na qualidade de impressão e na estética geral do design.
Valorização no Mercado: Exemplares bem preservados do MK I 885103 são extremamente raros e alcançam prémios significativos em leilões, pois representam a mais pura e antiga forma de um dos designs de cronógrafos mais célebres do século XX.