RESUMO
Em meados da década de 1980, a indústria relojoeira suíça ainda se recuperava do choque da Crise do Quartzo. Foi neste cenário de disrupção e reinvenção que a Universal Genève, uma marca com um legado de complicações de cronógrafo e designs icónicos como o Polerouter, apresentou a sua visão para o futuro: o Country Club de quartzo. Este modelo não era uma continuação dos seus antecessores mecânicos, mas sim uma resposta direta e pragmática à tendência avassaladora dos relógios desportivos de luxo com bracelete integrada, popularizada por ícones como o Audemars Piguet Royal Oak. Posicionado como uma alternativa 'Sports Chic' mais acessível, o Country Club de 1984 visava um público moderno que valorizava o design de vanguarda, a precisão do quartzo e a elegância descomprometida. A sua filosofia de design abraçava a magreza e a fiabilidade da tecnologia de quartzo, encapsulando-a numa caixa angular e fluida que se fundia perfeitamente com a bracelete. A sua importância reside menos na inovação mecânica e mais no seu papel como um artefacto cultural e empresarial; representa a luta pela sobrevivência e a capacidade de adaptação de uma grande 'maison', demonstrando como a estética da alta relojoaria podia ser democratizada e reinterpretada para uma nova era, sacrificando a tradição mecânica em prol da relevância comercial e estilística.
HISTÓRIA
A história do Universal Genève Country Club dos anos 80 é uma narrativa de adaptação e resposta ao mercado. O nome 'Country Club' não era novo para a marca; já adornava relógios de luxo elegantes e automáticos nas décadas de 1950 e 1960. No entanto, o modelo lançado em 1984 representou uma reinvenção radical, uma apropriação de um nome respeitado para um produto que falava a linguagem de uma nova geração. O contexto do seu lançamento é crucial: a relojoaria suíça tinha sido devastada pela precisão e acessibilidade dos movimentos de quartzo japoneses. Simultaneamente, um novo paradigma de design emergira, liderado pela genialidade de Gérald Genta, com o relógio desportivo de luxo em aço e com bracelete integrada a tornar-se o auge do estilo. A Universal Genève, enfrentando uma encruzilhada, optou por abraçar ambas as tendências. O Country Club de 1984 abandonou os aclamados calibres Microtor da casa em favor de um coração de quartzo fiável e fino, permitindo um perfil de caixa extremamente esguio, que era altamente desejável na época. O design foi a sua principal proposta de valor. Embora não tenha sido desenhado por Genta, a sua influência é inegável. As caixas assumiam formas angulares, frequentemente octogonais ou em formato 'tonneau', com biséis proeminentes e uma transição impecável para uma bracelete de elos complexos e articulados. O acabamento era meticuloso, alternando superfícies escovadas e polidas para captar a luz, uma técnica de design retirada diretamente do manual dos seus concorrentes de alta gama. Ao longo da sua produção nos anos 80 e início dos 90, surgiram inúmeras variações. Referências como a série 554.120 mostram a diversidade de mostradores – desde os minimalistas prateados até aos texturizados 'tapisserie' – e de configurações de materiais, com o aço e ouro (dois tons) a ser particularmente popular, refletindo a estética opulenta da década. O impacto deste modelo na herança da Universal Genève é complexo. Para os puristas, simboliza um período em que a marca se afastou da sua excelência mecânica. Para os historiadores, contudo, é um estudo de caso fascinante sobre estratégia de negócios e sensibilidade ao design. Estes modelos permitiram à Universal Genève manter-se relevante e operacional durante os anos mais difíceis da indústria. Hoje, o Country Club de quartzo é apreciado por uma nova geração de colecionadores como um ponto de entrada acessível e estiloso no mundo da relojoaria vintage, oferecendo o cobiçado visual de bracelete integrada de uma marca histórica por uma fração do preço dos seus contemporâneos mecânicos.
CURIOSIDADES
O Renascimento de um Nome: O nome 'Country Club' foi estrategicamente reaproveitado de uma linha de relógios de luxo clássicos da Universal Genève dos anos 50, emprestando o seu prestígio a um produto de quartzo completamente moderno.\nA Influência 'Genta-esque': Embora não tenha sido desenhado por Gérald Genta, o seu ADN estético é uma homenagem direta e uma resposta comercial aos seus designs de bracelete integrada, tornando-o um exemplo fascinante de 'design de tendência' da época.\nSímbolo de Sobrevivência: Este modelo é um dos melhores exemplos de como marcas suíças de prestígio se adaptaram para sobreviver à Crise do Quartzo, abraçando a tecnologia que ameaçava a sua existência e combinando-a com a sua perícia em design.\nO Bilhete Dourado para o Vintage: Atualmente, estes modelos de quartzo representam um dos pontos de entrada mais acessíveis para se possuir um relógio vintage de uma marca histórica com o visual 'sports chic' que define o mercado atual.\nO Domínio dos Dois Tons: Uma percentagem significativa da produção destes relógios foi em aço e plaqué de ouro, capturando perfeitamente a estética de luxo e opulência que dominou a moda e o design dos anos 80.\nHerói Anónimo: Diferente dos seus irmãos mecânicos famosos como o Polerouter ou o Compax, o Country Club de quartzo não possui associações célebres documentadas, tornando-o uma escolha discreta para conhecedores do design da época.\nPrecisão Suíça, Coração Moderno: Os movimentos de quartzo utilizados, embora não fossem de fabrico próprio, eram frequentemente ebauches suíços de alta qualidade da ETA, garantindo a fiabilidade e precisão que o consumidor daquela década exigia.