RESUMO
Nos anais da relojoaria do século XX, o Universal Genève Cabriolet de 1928 permanece como uma das inovações mais engenhosas e, paradoxalmente, mais subestimadas. Lançado no auge da era Art Déco, este relógio não era apenas um exercício de estilo, mas uma solução brilhante para um problema prático: a fragilidade dos cristais de relógio de pulso. Concebido para o 'gentleman sportsman'—o indivíduo ativo que praticava polo, golfe ou simplesmente desfrutava da velocidade dos novos automóveis—o Cabriolet oferecia uma proteção sem precedentes. A sua filosofia de design era de uma elegância funcional, onde a forma seguia a necessidade. A caixa interna, contendo o mostrador e o movimento, podia ser virada em 180 graus dentro de uma estrutura externa, expondo um fundo de caixa sólido e robusto para absorver os impactos do dia a dia ou de uma partida desportiva. Este conceito pioneiro posicionou a Universal Genève na vanguarda da engenharia de caixas. A sua importância histórica é imensa, pois estabeleceu o princípio da caixa reversível três anos antes de o conceito ser popularizado em massa por outra lendária marca suíça. O Cabriolet é, portanto, mais do que um relógio; é um artefacto que representa um momento de pura invenção, um testemunho da capacidade da Universal Genève de prever as necessidades do homem moderno e um capítulo fundamental, embora muitas vezes esquecido, na história do relógio desportivo de luxo.
HISTÓRIA
A história do Universal Genève Cabriolet é uma lição sobre o ritmo da inovação e o poder do legado. Nascido nos efervescentes 'Anos Loucos' de 1928, um período em que o relógio de pulso suplantava definitivamente o relógio de bolso, o Cabriolet surgiu como uma resposta visionária a uma necessidade latente. À medida que os estilos de vida se tornavam mais ativos, a fragilidade do cristal do relógio tornou-se uma preocupação premente. Foi neste contexto que Louis-Alexandre Didisheim, um diretor da Perret & Berthoud SA (a empresa que detinha a Universal Genève), concebeu uma solução radical. A 3 de dezembro de 1928, ele registou a patente suíça CH 132 843 para uma 'boîte de montre à retournement' — uma caixa de relógio reversível. Esta invenção não foi uma resposta a um pedido específico, mas sim uma demonstração proativa de engenho técnico.
O design era uma obra-prima da estética Art Déco e da engenharia mecânica. A caixa retangular, elegante e delgada, abrigava um mecanismo que permitia que o coração do relógio — o mostrador e o movimento — girasse completamente sobre si mesmo, protegendo o seu delicado rosto de vidro e expondo um fundo de metal sólido. Era a fusão perfeita de um relógio de luxo com a durabilidade de uma ferramenta. O Cabriolet foi um dos primeiros verdadeiros 'relógios desportivos', projetado para transitar sem esforço do salão de baile para o campo de polo.
O ponto mais crucial da sua história é a sua primazia. O Cabriolet chegou ao mercado três anos antes do Jaeger-LeCoultre Reverso, que foi patenteado em 1931 e viria a tornar-se o arquétipo do relógio reversível. Enquanto o Reverso beneficiava de uma narrativa de origem mais romantizada e de um marketing excecional que o cimentou na consciência cultural, o Cabriolet da Universal Genève foi o verdadeiro pioneiro conceptual. No entanto, o seu sucesso comercial foi limitado. A Universal Genève, sempre a inovar, rapidamente voltou a sua atenção para outra área em que se tornaria mestre: o cronógrafo, com o lançamento dos modelos Compur e, mais tarde, os icónicos Tri-Compax. Como resultado, o Cabriolet não teve múltiplas gerações ou evoluções; permaneceu um brilhante, mas breve, capítulo na história da marca. O seu impacto na indústria, no entanto, é inegável. Ele provou que soluções mecânicas complexas para a proteção do relógio eram viáveis e desejáveis, abrindo caminho para futuros designs. Para os colecionadores de hoje, encontrar um Cabriolet original é como descobrir um manuscrito perdido: representa a génese de uma ideia que mudaria a relojoaria para sempre, um testemunho silencioso de uma inovação que estava simplesmente à frente do seu tempo.
CURIOSIDADES
A patente suíça (CH 132 843) para a caixa reversível foi registada por Louis-Alexandre Didisheim em nome da Perret & Berthoud SA, a empresa-mãe da Universal Genève, a 3 de Dezembro de 1928.
Este design antecipa em três anos o famoso Jaeger-LeCoultre Reverso, cujo mecanismo foi patenteado em 1931, tornando o Cabriolet o verdadeiro pioneiro do conceito de proteção do vidro através de uma caixa rotativa.
O nome 'Cabriolet' é uma analogia ao teto rebatível de um automóvel conversível, refletindo o movimento de 'abrir e fechar' da caixa do relógio de forma elegante.
Ao contrário do Reverso, que desliza para fora do seu suporte antes de virar, o mecanismo do Cabriolet normalmente envolve a caixa interna a girar sobre um eixo fixo dentro da sua moldura externa, muitas vezes com um sistema de dobradiças.
O relógio foi concebido para os 'gentlemen sportsmen' da era do Jazz, que praticavam desportos como o polo, golfe e ténis, necessitando de um relógio elegante mas robusto.
Devido à sua produção limitada e ao sucesso comercial avassalador do seu sucessor conceptual, o Cabriolet é hoje uma peça extremamente rara e um 'santo graal' para colecionadores dedicados da Universal Genève e historiadores do design de caixas.