RESUMO
O Hamilton W10 de 1973 representa um capítulo fundamental na história da relojoaria militar, marcando a transição da Hamilton de um gigante americano para uma potência suíça sob a égide da SSIH. Concebido não como um acessório de luxo, mas como uma ferramenta de precisão para o pessoal do Exército Britânico, este relógio de campo foi a resposta direta às rigorosas especificações do Ministério da Defesa (MoD). A sua filosofia de design é de uma pureza funcional absoluta: legibilidade inquestionável, robustez extrema e fiabilidade mecânica. A distinta caixa monobloco em formato 'tonneau' não foi uma escolha estética, mas uma solução de engenharia para aumentar a resistência à água e aos choques, eliminando a junta de um fundo de caixa aparafusado. Posicionado para substituir os relógios Smiths W10, de fabrico britânico, o Hamilton estabeleceu um novo padrão que seria seguido por outras marcas, nomeadamente a CWC. A sua importância transcende a sua função original; o W10 de 1973 é hoje celebrado como um dos mais autênticos e bem executados 'field watches' da história, um arquétipo cujo ADN é visível em inúmeros relógios de inspiração militar contemporâneos. Para os colecionadores, não é apenas um relógio, mas um artefacto histórico, uma testemunha silenciosa das operações militares dos anos 70 e um símbolo da engenharia focada no propósito.
HISTÓRIA
A história do Hamilton W10 de 1973 está intrinsecamente ligada às necessidades do Ministério da Defesa Britânico (MoD) no pós-guerra. Após décadas a utilizar relógios de diversos fornecedores sob especificações como a famosa 'W.W.W.' (Watch. Wrist. Waterproof.), o MoD procurou modernizar e padronizar o seu equipamento no final dos anos 60 e início dos 70. O relógio de serviço geral (General Service) da época era o Smiths W10, um robusto exemplar da relojoaria britânica. No entanto, com o declínio da Smiths como fornecedor, o MoD abriu um novo contrato, e a Hamilton, agora uma empresa de propriedade suíça (parte do grupo SSIH, precursor do Swatch Group), estava perfeitamente posicionada para o vencer. O resultado foi o Hamilton W10, introduzido em 1973.
Este modelo representou uma evolução técnica significativa. A sua característica mais marcante era a caixa 'tonneau' de uma só peça, uma inovação que melhorava drasticamente a durabilidade e a resistência à entrada de pó e humidade, ao eliminar o ponto fraco de um fundo de caixa tradicional. O acesso ao movimento, o fiável Calibre 649 de corda manual (baseado no ETA 2750), era feito pela parte frontal, removendo o vidro acrílico com uma ferramenta especial. Este movimento foi escolhido pela sua robustez e, crucialmente, pela sua função de 'hacking seconds', um requisito indispensável do MoD que permitia aos soldados sincronizar os seus relógios com precisão para missões coordenadas.
O design do mostrador era um exercício de clareza militar. Fundo preto mate, numerais arábicos brancos e nítidos, uma escala de minutos proeminente e a seta larga 'Broad Arrow', o símbolo tradicional da propriedade do governo britânico. O uso de Trítio como material luminescente, denotado pelo 'T' circulado, garantia a legibilidade em condições de pouca luz. As asas da caixa não usavam pinos de mola, mas sim barras fixas e soldadas, garantindo que o relógio nunca se separaria acidentalmente da sua pulseira de nylon NATO.
O contrato da Hamilton para fornecer estes relógios durou de 1973 a 1976. Embora o código 'W10' designasse a emissão para o Exército Britânico, variantes idênticas foram produzidas para outros ramos, como o '6BB' para a Royal Air Force (RAF). Após 1976, a Cabot Watch Company (CWC) assumiu o contrato, produzindo um relógio quase idêntico, o que solidificou este design como o padrão definitivo da época. O impacto do Hamilton W10 foi profundo; não só serviu fielmente as forças britânicas, como também cimentou o arquétipo do 'field watch' moderno. A sua pureza de design e construção focada no propósito continuam a influenciar relojoeiros e a cativar colecionadores, que o veem como um dos últimos grandes relógios militares mecânicos antes da revolução do quartzo mudar para sempre o cenário da relojoaria de dotação.
CURIOSIDADES
O termo 'Fab Four' refere-se aos quatro principais fornecedores de relógios para o MoD com a especificação W10: Smiths (o predecessor), Hamilton, CWC e, mais tarde, Precista. O Hamilton de 73 é uma peça central deste grupo.
As marcações no fundo da caixa são um código que conta a história do relógio. Por exemplo, 'W10/6645-99-961-4045 / [Issue Number]/73' significa: W10 (Army), 6645 (código NATO para relógio), 99 (código do país, Reino Unido), 961-4045 (número do item), seguido pelo número de série da emissão e o ano (1973).
A caixa monobloco, embora robusta, torna a manutenção mais complexa, exigindo uma ferramenta de garra para comprimir e levantar o vidro acrílico para aceder ao movimento.
A função de 'hacking' do calibre 649 não era um luxo, mas uma necessidade tática. A frase 'hack your watches' ou 'synchronize watches' era um comando real para garantir que as operações fossem cronometradas ao segundo.
Apesar de ser uma ferramenta militar, o seu design limpo e tamanho modesto de 36mm tornam-no extremamente versátil e popular no mercado vintage atual, sendo um ponto de entrada perfeito para a coleção de relógios militares.
Este contrato foi um dos últimos grandes fornecimentos de relógios puramente mecânicos para o MoD. No início dos anos 80, o quartzo tornou-se dominante, com modelos como o CWC G10 a substituírem os seus antecessores mecânicos.
Não existem 'celebridades' famosas associadas ao uso deste relógio; os seus verdadeiros heróis são os milhares de soldados britânicos anónimos que confiaram nele no terreno, o que confere ao W10 uma autenticidade inigualável.