RESUMO
Lançada em um momento crucial da horologia, a série King Seiko 56KS (especificamente as referências de 1969 equipadas com os calibres 5625 e 5626) representa a fusão definitiva entre a elegância do 'Grammar of Design' de Taro Tanaka e a automação de alta precisão. Este modelo marca uma transição histórica para a Daini Seikosha, afastando-se dos movimentos de corda manual (como o 44KS e 45KS) para abraçar a conveniência moderna de um calibre automático fino e robusto. O contexto de 1969 é vital: enquanto a Seiko apresentava o primeiro relógio de quartzo ao mundo, a linha King Seiko atingia seu apogeu mecânico. O que distingue esta iteração específica não é apenas o movimento de 28.800 bph (Hi-Beat para os padrões da época), mas a engenharia de sua caixa. Muitas versões deste ano, notadamente as referências 7000, apresentavam uma construção monobloco (abertura pelo vidro) para garantir maior resistência à água e rigidez estrutural. A característica mais técnica e fascinante, contudo, é o parafuso de regulação externo localizado entre as garras (lugs) inferiores. Isso permitia que relojoeiros realizassem o ajuste fino da taxa de marcha do relógio sem a necessidade de abrir a caixa selada, uma inovação rara que demonstrava a obsessão da Seiko pela cronometria prática em um ambiente de produção em massa de luxo.
HISTÓRIA
A história do King Seiko 56KS é, em sua essência, a narrativa do auge da rivalidade interna da Seiko e o prelúdio do fim da era dourada da relojoaria mecânica japonesa clássica. Para entender o modelo de 1969, é necessário compreender o contexto da 'Daini Seikosha' (fábrica de Kameido) versus a 'Suwa Seikosha'. Tradicionalmente, a Suwa produzia a linha Grand Seiko, considerada o topo da pirâmide, enquanto a Daini produzia a King Seiko. No entanto, no final dos anos 60, as linhas se tornaram tênues em termos de qualidade e precisão.
O lançamento da série 56KS foi uma resposta estratégica à necessidade de um relógio automático que fosse fino o suficiente para ser elegante, mas robusto e preciso o suficiente para obter a certificação de Cronômetro. Antes do 56KS, a King Seiko era famosa por seus movimentos manuais de baixa e alta frequência (44KS e 45KS). A introdução dos calibres 5625 (apenas data) e 5626 (dia e data) trouxe a automação 'Hi-Beat' de 28.800 bph para as massas. Embora tecnicamente um design derivado da Suwa, foi a Daini quem industrializou e definiu a identidade do 56KS.
O ano de 1969 é crítico para este modelo. Foi neste período que a Seiko experimentou soluções de engenharia radicais para resolver problemas de manutenção e durabilidade. O resultado foi a famosa caixa monobloco (aberta apenas pela frente, removendo o vidro). Esta construção eliminava o fundo rosqueado, ponto comum de entrada de umidade. Contudo, uma caixa monobloco apresentava um pesadelo logístico para a regulação cronométrica: para ajustar a precisão, o relojoeiro teria que desmontar o relógio inteiro pelo vidro.
A solução da Daini foi genial e é a marca registrada da variante de 1969 descrita: a instalação de um parafuso de ajuste externo, discretamente posicionado entre as garras inferiores. Girar este parafuso movia uma alavanca interna que agia diretamente sobre o regulador do balanço. Isso permitia que a precisão fosse ajustada enquanto o movimento permanecia selado e protegido dentro da caixa.
Esteticamente, o modelo seguia estritamente a 'Gramática do Design' estabelecida por Taro Tanaka: superfícies planas polidas com a técnica Zaratsu, arestas vivas e ausência de distorção visual. O 56KS foi classificado em diferentes graus, desde modelos padrão até versões 'Chronometer' e 'Superior Chronometer' (muitas vezes excedendo os padrões suíços do COSC). Infelizmente, a crise do quartzo nos anos 70 levou à descontinuação dessas maravilhas mecânicas, tornando o 56KS de 1969 com ajuste externo um artefato raro de uma era onde a engenharia mecânica tentava desesperadamente, e brilhantemente, atingir a perfeição antes da revolução eletrônica.
CURIOSIDADES
1. O 'Tendão de Aquiles': O calibre 5626 é notório por uma falha de design específica – a engrenagem de ajuste rápido (quickset) do dia/data era feita de plástico para evitar danos em caso de operação incorreta, mas com o tempo, esse plástico resseca e quebra, tornando o ajuste rápido inoperante na maioria dos exemplares não restaurados.
2. O Parafuso Secreto: O parafuso entre as garras nas versões monobloco de 1969 não prende a caixa; ele é exclusivamente para regulação da marcha. Muitos relojoeiros inexperientes tentam desparafusá-lo pensando ser um mecanismo de abertura, danificando o sistema.
3. O Medalhão de Ouro: As versões de 1969 ainda ostentavam o medalhão 'KS' de ouro maciço no fundo da caixa (mesmo nas monobloco). Em anos posteriores (início dos anos 70), para cortar custos, a Seiko substituiu o medalhão por uma gravação simples no aço.
4. Hi-Beat 'Moderno': Embora chamado de Hi-Beat, o 56KS operava a 28.800 bph. Na época, a Seiko também produzia movimentos de 36.000 bph (como o 45KS), mas o 28.800 provou ser o equilíbrio ideal entre precisão e durabilidade, tornando-se o padrão da indústria décadas depois.
5. Diversidade de Certificação: O 56KS foi um dos poucos modelos a ser vendido com três níveis distintos de certificação no mostrador durante sua vida útil: sem certificação, 'Chronometer Officially Certified' e o raríssimo 'Superior Chronometer'.