RESUMO
O King Seiko Quartz referência 0853-8005, lançado em 1975, representa um dos momentos mais cruciais e paradoxais na história da horologia japonesa. Este modelo não é apenas um relógio; é um artefato de transição que captura o exato instante em que a lendária rivalidade interna da Seiko colidiu com a revolução tecnológica que ela mesma instigou. Situado no 'marco final da era vintage', este relógio personifica a tentativa da fábrica Daini Seikosha de traduzir a linguagem visual da 'Gramática do Design' — caracterizada por facetas planas e polimento espelhado — para a nova plataforma de quartzo. Enquanto a maioria dos relógios de quartzo da época buscava designs futuristas, o 0853-8005 manteve a elegância sóbria e a insígnia 'KS' aplicada no mostrador, um símbolo de prestígio anteriormente reservado aos calibres mecânicos de alta frequência. Equipado com o robusto calibre 0853, este modelo oferecia uma precisão inatingível pelos seus antecessores mecânicos, mantendo o nível de acabamento de luxo. Ele marca o canto do cisne da linhagem King Seiko clássica antes de sua descontinuação e subsequente substituição pelas linhas 'King Quartz' e 'Grand Quartz', tornando-se um testemunho tangível da supremacia técnica e da crise de identidade que redefiniu a indústria suíça e japonesa em meados da década de 1970.
HISTÓRIA
A história do King Seiko 0853-8005 é a crônica de uma revolução silenciosa dentro dos corredores da Daini Seikosha. Para compreender a gravidade deste modelo de 1975, é necessário contextualizar o ambiente da época. Desde a década de 1960, a Seiko operava sob uma estratégia de 'rivalidade interna' entre duas fábricas: Suwa Seikosha (criadora do Grand Seiko) e Daini Seikosha (criadora do King Seiko). Esta competição impulsionou a inovação mecânica a níveis estratosféricos. No entanto, o lançamento do Seiko Astron em 1969 mudou o campo de batalha para sempre. Em 1975, a tecnologia de quartzo já não era apenas uma novidade; era o futuro inevitável e o novo padrão de luxo.
O modelo 0853-8005 surge neste vórtice histórico. A Daini Seikosha, famosa pelos seus movimentos mecânicos e designs angulares, precisava adaptar a sua linha de prestígio, a King Seiko, para a era da bateria. O resultado foi um híbrido fascinante de filosofia antiga e tecnologia nova. Ao contrário das séries posteriores que adotariam nomes puramente eletrônicos, este modelo manteve orgulhosamente o logotipo 'KS' aplicado no mostrador e a coroa assinada, características que gritavam tradição. A caixa do 0853-8005 é um estudo de caso da adaptação da 'Gramática do Design' de Taro Tanaka. As arestas são nítidas, as superfícies são polidas para refletir a luz sem distorção, mas o perfil foi ajustado para acomodar a eletrônica e a prática tampa de bateria traseira.
O movimento 0853 não era um quartzo descartável de produção em massa; era uma máquina 'over-engineered', construída com placas de metal e engrenagens robustas, projetada para ser reparável e durar gerações, tal como os seus irmãos mecânicos. No entanto, o lançamento deste relógio foi agridoce. Ele representou o auge da qualidade de construção da King Seiko, mas também sinalizou o seu fim. À medida que a 'Crise do Quartzo' se aprofundava, a Seiko reestruturou as suas linhas de luxo. A distinção entre King Seiko e Grand Seiko tornou-se turva sob a nova hierarquia do quartzo (Superior, Grand Quartz, King Quartz). O 0853-8005 foi, portanto, um dos últimos portadores da tocha original 'KS'. Pouco tempo após o seu ciclo de produção, a marca King Seiko foi efetivamente colocada em dormência, só retornando décadas mais tarde como uma reedição nostálgica. Para o historiador horológico, o 0853-8005 de 1975 é a ponte definitiva: o último suspiro da nobreza vintage antes da hegemonia digital.
CURIOSIDADES
1. O Logotipo Raro: Este é um dos poucos modelos a exibir o logotipo clássico 'KS' aplicado em relevo num mostrador de quartzo, uma combinação que desapareceu nos modelos 'King Quartz' posteriores.
2. A Tampa de Bateria (Battery Hatch): O fundo da caixa possui uma pequena escotilha dedicada para a troca da bateria, permitindo a manutenção pelo usuário sem expor o movimento, uma característica premium da época.
3. Construção Robusta: O calibre 0853 é construído quase inteiramente em metal, com rubis nos pivôs das engrenagens, contrastando com os movimentos de plástico selados de décadas posteriores.
4. Texturas Exóticas: Muitas variações do 8005 apresentam mostradores texturizados que lembram papel Washi ou esteiras de Tatami, extremamente valorizados por colecionadores atuais.
5. O Símbolo Daini: No mostrador, logo acima das 6 horas, encontra-se o símbolo do raio estilizado, a marca registrada da fábrica Daini Seikosha.
6. Preço na Época: Em 1975, este relógio custava significativamente mais do que a maioria dos relógios mecânicos automáticos da Seiko, posicionando-se como um item de luxo tecnológico.
7. Segundos Mortos: O ponteiro de segundos move-se em saltos precisos de um segundo, uma característica que, na época, era vista como um sinal de precisão superior em comparação ao deslizamento dos mecânicos.