RESUMO
No alvorecer do século XX, a Elgin National Watch Company, titã da manufatura americana, lançou o que seria considerado sua magnum opus no segmento de cronometria ferroviária: o movimento Veritas. Este relógio não era apenas um instrumento de medição do tempo; era uma resposta direta e superlativa aos rigorosos padrões de segurança ferroviária estabelecidos após desastres causados por falhas de cronometragem. O modelo de 1900, epitomizado pelo lendário Grade 214, representava o pináculo da engenharia mecânica da época. Projetado para suportar as vibrações brutais das locomotivas a vapor enquanto mantinha uma precisão de segundos por semana, o Veritas foi equipado com 23 rubis, a maioria engastada em chatons de ouro elevados, e ajustado meticulosamente em cinco posições, além de temperatura e isocronismo. O que distinguia o Veritas não era apenas sua mecânica robusta, ancorada pelo famoso 'Motor Barrel' da Elgin, mas também seu acabamento estético inigualável. As placas de níquel eram adornadas com um damaskeening (damasquinagem) profundo e complexo, criando um jogo de luz que rivalizava com a alta relojoaria suíça. Para o historiador horológico, o Elgin Veritas de 1900 é a materialização física da confiança industrial americana, um instrumento onde a 'Verdade' (tradução do latim Veritas) não era apenas um nome, mas uma garantia de segurança para milhões de passageiros.
HISTÓRIA
A história do Elgin Veritas está intrinsecamente ligada à evolução da segurança no transporte americano. Após a trágica colisão de trens em Kipton, Ohio, em 1891, causada pelo relógio de um engenheiro que parou por quatro minutos, o Comissário Geral de Tempo das Ferrovias, Webb C. Ball, instituiu padrões draconianos para os relógios usados pelos funcionários ferroviários. No final da década de 1890, a corrida para produzir o relógio 'Railroad Grade' definitivo estava em pleno andamento entre a Waltham, a Hamilton e a Elgin.
Em 1900, a Elgin respondeu com autoridade através da introdução da linha Veritas. O nome, derivado do latim para 'Verdade', foi uma escolha de marketing deliberada para sinalizar honestidade inabalável na cronometragem. O Grade 214, o primeiro a carregar este nome ilustre, foi construído sobre a robusta arquitetura de 'Size 18', o tamanho padrão para relógios ferroviários masculinos da época. O que tornava o Veritas tecnicamente superior era a implementação do 'Elgin Motor Barrel'. Diferente dos tambores de corda convencionais, onde a quebra da mola principal poderia liberar uma energia destrutiva capaz de cisalhar os dentes das rodas e pinhões, o Motor Barrel da Elgin foi projetado para conter essa energia e proteger o trem de engrenagens vital, uma característica de segurança essencial para a confiabilidade a longo prazo.
O lançamento do Veritas (Grade 214) marcou o auge da Elgin. Com 23 rubis — um número considerado extravagante e reservado apenas para a elite dos cronômetros — o movimento reduzia o atrito a níveis quase imperceptíveis. Os ajustes em cinco posições garantiam que, quer o relógio estivesse no bolso do colete do condutor, pendurado na cabine da locomotiva ou deixado sobre uma mesa à noite, a variação de tempo seria mínima. A Elgin não poupou despesas no acabamento; o damaskeening do Veritas é frequentemente citado por especialistas como um dos mais belos já produzidos em massa, apresentando padrões geométricos e texturas que capturavam a luz de maneira hipnótica. O nome 'Veritas' era frequentemente gravado em ouro nas pontes, solidificando seu status de luxo.
Ao longo das décadas seguintes, o nome Veritas continuou em grades subsequentes (como o 376 e 453), mas o modelo original da virada do século permanece o mais cobiçado. Ele simboliza o momento em que a relojoaria americana atingiu a paridade técnica, e em alguns aspectos a superioridade, sobre os mestres europeus no campo da cronometria industrial portátil.
CURIOSIDADES
1. O nome 'Veritas' significa 'Verdade' em latim, escolhido para enfatizar que o relógio nunca mentiria sobre o horário.
2. O 'Motor Barrel' da Elgin é uma maravilha da engenharia: ao contrário do tambor 'Going Barrel' comum, o eixo do tambor gira enquanto dá corda, mas o tambor gira enquanto o relógio funciona, isolando a força destrutiva de uma mola quebrada.
3. O Grade 214 foi produzido em quantidades limitadas comparado aos modelos mais básicos da Elgin, tornando-o extremamente raro hoje em condições originais.
4. Para ser aprovado como 'Railroad Grade', o Veritas tinha que manter uma precisão de mais ou menos 30 segundos por semana.
5. Os parafusos no balanço do Veritas eram frequentemente feitos de ouro ou platina para ajuste preciso de peso e temperatura.
6. O mostrador 'Double Sunk' (fundo duplo) era uma exigência prática, permitindo que o ponteiro dos segundos ficasse em um nível rebaixado para evitar que colidisse com o ponteiro de horas.
7. A inscrição 'Veritas' no movimento é frequentemente encontrada em uma fonte gótica distintiva, que se tornou um ícone visual para colecionadores da marca.