RESUMO
O Elgin 'Pershing', lançado no fervor de 1918, não é apenas um instrumento de cronometragem; é um artefato fundamental na transição sociológica e horológica do relógio de bolso para o relógio de pulso. Antes da Primeira Guerra Mundial, o relógio de pulso era considerado um acessório afeminado, reservado às damas da alta sociedade. A brutalidade da guerra de trincheiras mudou esse paradigma, exigindo que o tempo estivesse acessível num relance para coordenar bombardeios de artilharia e avanços de infantaria. A Elgin National Watch Company, gigante industrial americana da época, respondeu a essa necessidade tática com o modelo 'Pershing'. Nomeado em homenagem ao General John J. 'Black Jack' Pershing, comandante das Forças Expedicionárias Americanas, este relógio foi projetado especificamente para o combate. Sua característica mais marcante — o 'Dial Militar' preto com algarismos árabes em negrito preenchidos com pasta de rádio luminescente — foi uma inovação destinada a minimizar o reflexo sob a luz de sinalizadores inimigos, mantendo a legibilidade absoluta na escuridão das trincheiras. Ao associar a peça à figura estoica do General Pershing, a Elgin não apenas equipou os soldados, mas legitimou o uso do relógio de pulso para o homem civil no pós-guerra, transformando uma ferramenta militar em um padrão de masculinidade e utilidade moderna.
HISTÓRIA
A história do Elgin 'Pershing' é indissociável da mecanização da guerra moderna. Até 1914, a guerra era frequentemente travada com manobras visíveis e ordens de cavalaria. No entanto, o impasse da Frente Ocidental na Primeira Guerra Mundial introduziu a 'barragem rastejante' (creeping barrage), onde a artilharia disparava logo à frente da infantaria que avançava. Um erro de segundos resultava em fogo amigo catastrófico. O relógio de bolso, que exigia o uso de uma das mãos para ser consultado e guardado, tornou-se obsoleto e perigoso nesse cenário.
A entrada dos Estados Unidos na guerra em 1917 acelerou a produção doméstica de 'Trench Watches' (relógios de trincheira). A Elgin, sediada em Illinois e operando a maior fábrica de relógios do mundo na época, pivotou sua produção massiva para apoiar o esforço de guerra. Embora existissem relógios de pulso adaptados anteriormente, o 'Pershing' representou uma das primeiras tentativas de marketing coeso e design intencional para o mercado de massa militar americano.
O nome do modelo foi uma jogada de mestre em branding. O General John J. Pershing era a personificação da força militar americana. Ao batizar o relógio com seu nome, a Elgin combateu o estigma de fragilidade associado aos 'wristlets' europeus. O relógio apresentava um mostrador preto — uma raridade na época, onde o esmalte branco era o padrão. A escolha pelo preto não foi estética, mas tática: reduzia o brilho que poderia atrair snipers e aumentava o contraste com os números de rádio brilhantes para leitura noturna.
Tecnicamente, a Elgin utilizou seus movimentos de tamanho 3/0s, que eram robustos o suficiente para resistir a choques moderados, mas pequenos o bastante para caber no pulso. Diferente dos relógios suíços que já avançavam na impermeabilização (como os primórdios da caixa Oyster), o Pershing americano dependia da robustez simples de caixas de níquel ou prata com tampas de pressão ou rosca simples. As asas de arame fixas exigiam pulseiras de couro abertas ou de peça única, precursoras das pulseiras NATO modernas.
O legado do Elgin Pershing transcendeu o Armistício de 1918. Quando os 'Doughboys' (soldados americanos) retornaram para casa usando seus relógios, eles não os tiraram. O relógio havia provado seu valor sob fogo. O Pershing, portanto, é o elo perdido que solidificou a aceitação do relógio de pulso nos Estados Unidos, pavimentando o caminho para a era de ouro da relojoaria americana nas décadas de 1920 e 1930.
CURIOSIDADES
1. O Perigo do Rádio: A luminescência verde brilhante do mostrador do Pershing era feita de Rádio-226. As operárias da fábrica que pintavam estes mostradores, conhecidas como 'Radium Girls', sofreram envenenamento por radiação devastador por afiarem os pincéis com os lábios, um dos maiores escândalos de saúde ocupacional da história.
2. Shrapnel Guards: Muitos relógios Elgin Pershing eram equipados com grades de metal sobre o vidro, chamadas de 'shrapnel guards' (protetores contra estilhaços), para proteger o frágil cristal mineral dos detritos das explosões nas trincheiras.
3. O Mostrador Preto Invertido: Antes do Pershing, 99% dos relógios tinham mostradores brancos. A Elgin comercializou o mostrador preto como uma especificação 'científica' para evitar a fadiga ocular e reflexos indesejados.
4. A Pulseira Kitchener: O relógio era frequentemente vendido com uma pulseira larga de couro que isolava a caixa de metal da pele do soldado (evitando queimaduras de frio ou calor extremo) e protegia o fundo da caixa contra a transpiração corrosiva.
5. O General Usava?: Embora nomeado em sua homenagem e usado em publicidade massiva ('O relógio do General Pershing'), existem debates históricos se o próprio Pershing usava um Elgin de 3/0s ou se preferia relógios de bolso de oficiais superiores ou marcas suíças de luxo presenteadas.
6. Star Dial Case: Muitas caixas usadas para o Pershing eram fabricadas pela 'Star Watch Case Company', e a presença de marcações militares oficiais (como 'Ordnance Dept') na traseira é rara nos modelos comerciais 'Pershing', sendo mais comum em relógios emitidos pelo governo no final da guerra ou na Segunda Guerra.
7. Valor Histórico: Hoje, encontrar um Elgin Pershing com o mostrador preto original em bom estado é difícil, pois o Rádio frequentemente queimava o verniz do mostrador ao longo de 100 anos, deixando 'sombras' de queimadura ao redor dos ponteiros.