RESUMO
O Universal Genève Polerouter III de 1972 representa um capítulo fascinante e ousado na história da marca, marcando uma ruptura dramática com o seu passado. Nascido no auge da crise do quartzo e da revolução do design liderada por Gérald Genta com os seus relógios desportivos de luxo integrados, o Polerouter III foi a resposta da Universal Genève às novas tendências estéticas e tecnológicas da década de 1970. Distanciando-se do icónico design de asas torcidas do seu antecessor, este modelo abraçou uma estética geométrica e angular, com uma caixa e bracelete que formam um todo coeso e escultural. O seu público-alvo já não eram os pilotos da SAS que cruzavam o Pólo Norte, mas sim o consumidor moderno e consciente do estilo que procurava um relógio que fosse simultaneamente uma afirmação de vanguarda e um instrumento de precisão. Impulsionado pelos primeiros e inovadores calibres de quartzo, como o lendário Beta 21, o Polerouter III não era apenas uma evolução estilística; era um testemunho da tentativa da Universal Genève de navegar e competir na nova era da relojoaria eletrónica. A sua importância reside precisamente nesta corajosa, embora em última análise transitória, tentativa de redefinir um dos seus nomes mais lendários para um mundo em rápida mudança.
HISTÓRIA
A história do Polerouter III é a história de uma adaptação radical em tempos de crise. Lançado por volta de 1972, o modelo surgiu num dos períodos mais tumultuosos da relojoaria suíça. O lendário Polerouter original, desenhado por um jovem Gérald Genta nos anos 50 para a companhia aérea SAS, era um ícone de elegância funcional, famoso pelo seu inovador movimento de micro-rotor e pela sua caixa de asas torcidas ('lyre lugs'). No entanto, no início dos anos 70, o cenário era completamente diferente. A tecnologia de quartzo, mais precisa e barata, ameaçava aniquilar a relojoaria mecânica tradicional. Simultaneamente, o design relojoeiro estava a passar por uma revolução, afastando-se das caixas redondas clássicas em favor de formas mais arrojadas, geométricas e, crucialmente, de designs com braceletes integradas - uma tendência que o próprio Genta iria cimentar com o Audemars Piguet Royal Oak em 1972.
Neste contexto, a Universal Genève tomou a decisão corajosa de reinventar o seu modelo mais famoso. O Polerouter III abandonou quase todas as características do seu antecessor. O design de Genta foi substituído por uma variedade de caixas em forma de 'tonneau', almofada ou octogonais, típicas da época, que fluíam de forma orgânica para uma bracelete de aço integrada. A alma do relógio também foi transformada. Em vez dos célebres calibres de micro-rotor, os primeiros e mais significativos modelos do Polerouter III foram equipados com o calibre UG 1-74 'Uniquartz'. Este movimento não era um calibre de quartzo qualquer; era a versão da Universal Genève do lendário Beta 21. Este foi o primeiro movimento de quartzo suíço a ser produzido em massa, resultado de um consórcio de elite que incluía marcas como Patek Philippe, Rolex e Omega. Ao adotar esta tecnologia de ponta, a Universal Genève posicionou o Polerouter III na vanguarda da inovação, numa tentativa de provar que a perícia suíça podia liderar também na era eletrónica.
Ao longo da década de 70, a linha Polerouter continuou a evoluir sob esta nova filosofia. Surgiram múltiplas referências com diferentes mostradores e pequenas variações de caixa, algumas até regressando a movimentos automáticos, criando um portfólio por vezes confuso que reflete a incerteza da indústria na época. No entanto, são as versões de quartzo, especialmente as equipadas com o Beta 21, que são hoje mais procuradas pelos colecionadores. Elas representam um momento histórico preciso: o ponto de viragem em que uma marca histórica apostou o seu futuro numa tecnologia disruptiva. O Polerouter III nunca alcançou o estatuto de ícone do seu antecessor, e a própria Universal Genève viria a sofrer imensamente com a crise do quartzo. Contudo, o modelo permanece como um artefacto fascinante, um testemunho do design dos anos 70 e um marco na história da relojoaria de quartzo, oferecendo aos entusiastas modernos uma porta de entrada acessível para a estética da bracelete integrada e para a história dos pioneiros movimentos de quartzo suíços.
CURIOSIDADES
O calibre Beta 21, usado nos primeiros Polerouter III, foi um projeto colaborativo de 20 marcas suíças para combater a concorrência de quartzo japonesa. A Universal Genève estava no mesmo grupo de desenvolvimento que gigantes como Patek Philippe, Rolex e IWC.
Apesar do nome 'Polerouter', o modelo III não tem qualquer ligação funcional com a aviação ou exploração polar; foi uma decisão de marketing para alavancar um dos nomes mais bem-sucedidos da marca.
Uma das características mais peculiares do movimento Beta 21 é o seu ponteiro de segundos, que se move de forma suave e contínua ('sweeping seconds'), muito semelhante a um relógio mecânico, em vez do tique-taque de um segundo por passo típico dos movimentos de quartzo modernos.
O Polerouter III não foi desenhado por Gérald Genta. Esta é uma fonte comum de confusão, pois Genta popularizou a estética da bracelete integrada na mesma época. O design do Polerouter III foi uma criação interna da Universal Genève, inspirada nas tendências da década.
O nome 'Uniquartz', visível no mostrador de muitos destes modelos, era a marca registada da Universal Genève para os seus movimentos de quartzo de primeira geração.
Devido à sua história de transição e design menos icónico em comparação com o original, o Polerouter III representa um valor significativamente mais acessível no mercado vintage, tornando-o um alvo para colecionadores que procuram a estética dos anos 70 e a história do quartzo inicial.