RESUMO
O IWC Portugieser Referência 325, lançado em 1939, representa um dos paradigmas mais significativos da horologia do século XX, desafiando as convenções estéticas e técnicas da sua era. Concebido em resposta a uma solicitação específica de dois importadores portugueses, Rodrigues e Teixeira, que exigiam relógios de pulso com a precisão de um cronômetro de marinha, este modelo é uma anomalia histórica devido às suas dimensões superlativas para a época (41.5mm) em comparação com o padrão prevalecente de 33-35mm. A solução técnica da IWC foi alojar o Calibre 74, um movimento 'savonnette' de relógio de bolso, numa caixa de pulso, permitindo uma regulação de precisão inatingível pelos movimentos compactos contemporâneos. Com o seu design austero, influenciado pelo funcionalismo Bauhaus, e a sua construção robusta, a Referência 325 estabeleceu o arquétipo para o relógio de grandes dimensões moderno, embora tenha permanecido uma raridade de produção extremamente limitada durante décadas.
HISTÓRIA
A génese do IWC Portugieser Referência 325 remonta ao final da década de 1930, um período em que a moda masculina ditava relógios de pulso pequenos, discretos e frequentemente retangulares (estilo Art Deco). Neste contexto, a encomenda vinda de Lisboa e do Porto, intermediada pelos grossistas Rodrigues e Teixeira, apresentava um desafio técnico considerável: criar um relógio de pulso de aço inoxidável com a precisão de um cronômetro de marinha. A IWC, sediada em Schaffhausen, concluiu que os movimentos de pulso existentes eram demasiado pequenos para garantir a inércia do balanço necessária para tal estabilidade cronométrica.
A solução engenharia foi adaptar o Calibre 74, um movimento de relógio de bolso do tipo 'savonnette'. A distinção 'savonnette' é crucial: nestes movimentos, a coroa de corda está posicionada às 3 horas e o sub-mostrador de segundos às 6 horas (quando orientados para o pulso), ao contrário dos movimentos 'Lépine' (open-face), que teriam os segundos às 9 horas se a coroa estivesse às 3. Esta configuração permitiu uma transição ergonômica perfeita para o pulso sem a necessidade de reengenharia complexa do trem de engrenagens.
O primeiro lote de relógios foi entregue em 1939. O resultado foi um relógio de 41.5mm, considerado 'grotescamente' grande para os padrões da época, onde o excesso de tamanho não era uma escolha de estilo, mas uma necessidade técnica ditada pelo tamanho do calibre. A produção da Referência 325 foi esporádica e extremamente baixa. Estima-se que, até ao final da sua produção (que mais tarde incorporou o Calibre 98 e o 982), menos de 700 unidades foram fabricadas ao longo de quatro décadas. O modelo permaneceu na obscuridade, conhecido apenas por colecionadores astutos, até ser ressuscitado e oficialmente batizado como 'Portugieser' no 125º aniversário da IWC em 1993, tornando-se desde então o pilar da identidade da marca.
CURIOSIDADES
- A produção total da Referência 325 original é estimada em apenas 693 unidades (algumas fontes citam 304 com o Calibre 74 original).
- O relógio não era comercializado como 'Portugieser' em 1939; este nome só foi oficialmente adotado pela IWC em 1993 para o relançamento da linha (Ref. 5441).
- A escolha do Calibre 74 foi determinante: por ser um movimento 'Hunter' (caçador), permitiu que a coroa ficasse às 3h e os pequenos segundos às 6h, criando a simetria vertical clássica.
- Existem três variações principais de mostrador na história da Ref. 325, sendo a primeira a mais clássica com algarismos árabes e ponteiros 'feuille'.
- A maioria das caixas originais de 1939 não eram assinadas pela IWC no exterior, e muitas foram produzidas por fabricantes de caixas contratados devido à dimensão incomum.
- O tamanho de 41.5mm em 1939 seria o equivalente a usar um relógio de 55mm ou 60mm nos dias de hoje, uma verdadeira aberração estilística justificada apenas pela exigência de performance.
- Os importadores Rodrigues e Teixeira visitaram a fábrica em Schaffhausen pessoalmente para insistir nas especificações de 'precisão de observatório'.