RESUMO
O IWC Mark XI (frequentemente grafado como Mark 11) é amplamente considerado pelos historiadores da horologia como um dos relógios militares mais importantes e rigorosamente construídos do século XX. Introduzido em 1948, este modelo foi desenvolvido em resposta direta à especificação 6B/346 do Ministério da Defesa Britânico (MoD), exigindo um instrumento de navegação de alta precisão capaz de resistir aos ambientes hostis das cabines de aeronaves modernas. A inovação central do Mark XI residia na sua capacidade de neutralizar a interferência magnética gerada pelos crescentes equipamentos de radar e aviónica, uma proeza alcançada através de uma caixa interna de ferro macio (gaiola de Faraday) e um mostrador de ferro espesso. No coração deste relógio encontra-se o Calibre 89, um movimento de corda manual venerado pela sua robustez arquitetónica e estabilidade cronométrica, desenhado pelo lendário diretor técnico da IWC, Albert Pellaton. Ao contrário dos seus predecessores da série 'Dirty Dozen' (W.W.W.), o Mark XI não era apenas um relógio de campo, mas um instrumento de precisão astronómica, testado anualmente pelo Observatório Real de Greenwich para garantir a conformidade com padrões rigorosos. A sua produção estendeu-se por três décadas, servindo não apenas a Royal Air Force (RAF), mas também outras forças da Commonwealth e a aviação civil (BOAC), estabelecendo o design definitivo para o relógio de piloto moderno.
HISTÓRIA
A génese do IWC Mark XI remonta ao período imediato do pós-guerra, num momento em que a aviação militar transitava para a era do jato. As especificações anteriores para relógios de piloto, como as do Mark X (parte dos 'Dirty Dozen'), tornaram-se obsoletas devido à introdução de sistemas de radar e rádios de alta potência nos cockpits, que geravam campos magnéticos intensos capazes de magnetizar a espiral do balanço de um relógio mecânico, comprometendo fatalmente a navegação aérea. Em resposta, o Ministério da Defesa Britânico emitiu a especificação 6B/346, exigindo um relógio de pulso de navegação que fosse impermeável, antimagnético e capaz de manter a precisão de um cronómetro marítimo sob condições extremas de temperatura e altitude.
Embora a Jaeger-LeCoultre (JLC) também tenha produzido uma versão do Mark XI sob a mesma especificação, o modelo da IWC distinguiu-se pela sua longevidade e robustez superior. A chave para o sucesso do IWC Mark XI foi a incorporação do Calibre 89. Desenvolvido em 1946 por Albert Pellaton, este movimento não foi adaptado de calibres existentes, mas criado de raiz para ser o motor manual mais durável e preciso possível. O Calibre 89 apresentava segundos centrais indiretos (acionados por uma roda adicional) e uma função de 'hacking' (paragem de segundos), essencial para que os esquadrões pudessem sincronizar os relógios antes das missões. O design de Pellaton priorizou pontes espessas e uma montagem lógica que facilitava a manutenção.
A proteção antimagnética era assegurada por uma caixa interna de ferro macio que envolvia o movimento, atuando como uma gaiola de Faraday para desviar o fluxo magnético. Além disso, o vidro acrílico foi especificamente desenhado para ser retido mecanicamente pela caixa, impedindo que este saltasse fora em caso de descompressão explosiva da cabine em grandes altitudes.
O IWC Mark XI entrou em serviço em 1948/1949 e permaneceu como dotação oficial da RAF até o início dos anos 1980, uma longevidade extraordinária para um equipamento militar mecânico. Durante o seu serviço, os mostradores evoluíram. As primeiras versões continham material luminescente à base de Rádio. No início dos anos 1960, devido aos riscos de radiação, o MoD procedeu à substituição destes mostradores por versões com Trítio, marcados com um 'T' circulado característico logo acima da marca das 6 horas. O Mark XI também serviu na Royal Australian Air Force (RAAF), na Royal New Zealand Air Force (RNZAF) e na South African Air Force (SAAF), além de ser utilizado por pilotos civis da BOAC (British Overseas Airways Corporation). Foi finalmente retirado de serviço com a ascensão dos cronógrafos de quartzo da Seiko, mas o seu legado perdura como o antepassado direto de toda a linha 'Pilot’s Watch' moderna da IWC, especificamente a série Mark XII e subsequentes.
CURIOSIDADES
1. O símbolo 'Broad Arrow' (uma seta virada para cima) presente no mostrador e no fundo da caixa é a marca tradicional que denota propriedade do governo britânico (Coroa).
2. Ao contrário de muitos relógios militares que eram descartáveis, os Mark XI eram considerados instrumentos de precisão valiosos; eram submetidos a testes de recertificação anuais e, se reprovados, eram enviados de volta à IWC para reajuste completo.
3. A IWC não foi a única fornecedora sob a especificação 6B/346; a Jaeger-LeCoultre também forneceu um Mark 11, mas o modelo da JLC foi retirado de serviço muito mais cedo (1953) devido à falta de um sistema de absorção de choque eficaz no balanço, tornando o IWC o único sobrevivente a longo prazo.
4. O vidro do Mark XI não é apenas encaixado sob pressão; é fixado de dentro para fora ou roscado de forma a que uma queda súbita de pressão externa (como numa cabine despressurizada a 30.000 pés) não faça o cristal 'saltar' para fora do relógio.
5. O Calibre 89 é frequentemente citado por relojoeiros como um dos melhores movimentos de corda manual de três ponteiros alguma vez produzidos, capaz de manter a precisão dentro dos parâmetros COSC décadas após a sua fabricação.
6. Existem variações raras de mostradores 'brancos' ou de 'serviço' que não possuem a assinatura completa, mas o mostrador clássico militar é sempre preto mate para evitar reflexos no cockpit.
7. O termo 'Mark XI' segue a nomenclatura militar britânica para equipamentos; a IWC apenas reviveu comercialmente a linhagem com o 'Mark XII' em 1993, solidificando o estatuto de culto do modelo original.