RESUMO
Lançado em 1971, no crepúsculo da era dourada da relojoaria mecânica japonesa e à beira da revolução do quartzo, o King Seiko 52KS Special representa o auge da engenharia da fábrica Daini Seikosha. Este modelo não é apenas um relógio; é uma declaração de desafio técnico e perfeição estética. Equipado com os calibres automáticos 5245 (data) e 5246 (dia/data), o 52KS foi classificado como 'Special' pela Seiko, uma designação reservada para movimentos ajustados a padrões de cronometria excepcionalmente rigorosos, rivalizando e, em alguns aspectos, superando os contemporâneos da Grand Seiko produzidos pela rival interna Suwa Seikosha.
Com uma frequência de 28.800 vibrações por hora, o movimento foi projetado com uma robustez e compacidade que transcenderam seu tempo. Diferente de seu 'irmão' Suwa (o 56KS), o 52KS evitou falhas de design comuns, como engrenagens de plástico no calendário, optando por uma construção inteiramente metálica e durável. Sua importância histórica é amplificada pelo fato de que este calibre não desapareceu na crise do quartzo; ele hibernou. Nos anos 90, quando a Seiko buscou reviver sua alta relojoaria mecânica, foi aos projetos do 52KS que recorreram para criar a renomada família de movimentos 4S, provando que a engenharia de 1971 era, de fato, atemporal. O 52KS Special é, portanto, a ponte vital entre o passado clássico e o renascimento moderno da Seiko.
HISTÓRIA
A história do King Seiko 52KS Special, introduzido em 1971, é inseparável da intensa e produtiva rivalidade interna da corporação Seiko. Durante as décadas de 1960 e 1970, a Seiko operava com duas subsidiárias de manufatura principais: a Suwa Seikosha e a Daini Seikosha. Esta competição interna foi fomentada deliberadamente para acelerar a inovação e a busca pela precisão. Enquanto a Suwa era frequentemente associada à linha Grand Seiko (o topo da pirâmide), a Daini produzia a linha King Seiko, que teoricamente ocupava o segundo lugar. No entanto, com o lançamento da série 52KS, a Daini Seikosha não apenas alcançou a Suwa, mas produziu um movimento que muitos historiadores consideram tecnicamente superior ao equivalente da Suwa na época, o calibre 56.
O ano de 1971 foi crucial. A Seiko já havia lançado o Astron em 1969, iniciando a revolução do quartzo que ameaçava tornar os movimentos mecânicos obsoletos. Neste cenário de incerteza existencial para a relojoaria tradicional, os engenheiros da Daini decidiram criar o que seria sua 'magnum opus' mecânica final. O resultado foi a série de calibres 52 (5245 e 5246). Ao contrário dos movimentos anteriores focados puramente em bater recordes de frequência (como os calibres de 36.000 bph), a série 52 focou em um equilíbrio perfeito entre alta precisão, durabilidade a longo prazo e espessura reduzida.
A designação 'Special' no mostrador do 52KS não era mero marketing. Ela indicava que o relógio havia sido submetido a um ajuste fino de fábrica superior ao padrão 'A' da King Seiko, alcançando o padrão 'AA' ou equivalente a Cronômetro. Estes relógios apresentavam microrreguladores no balanço, permitindo um ajuste de precisão extremamente minucioso. O design externo seguia estritamente a 'Gramática do Design' de Taro Tanaka, com superfícies planas polidas espelhadas e arestas vivas que brincavam com a luz, conferindo ao relógio uma presença luxuosa e moderna.
Infelizmente, a produção do 52KS foi de curta duração, encerrando-se por volta de 1975/1976, vítima da dominância avassaladora do quartzo. As ferramentas e diagramas foram arquivados e a linha de produção mecânica de alta qualidade da Daini foi silenciada. O 52KS parecia destinado a ser uma nota de rodapé, o último suspiro de uma era.
Contudo, a história do modelo teve uma reviravolta surpreendente duas décadas depois. No início dos anos 1990, com o ressurgimento do interesse por relógios mecânicos, a Seiko precisava de um movimento robusto e de alta qualidade para preencher a lacuna entre seus calibres básicos (7S26) e os ultra-luxuosos. Em vez de projetar algo do zero, os engenheiros redescobriram a excelência da série 52 da Daini. O calibre foi ressuscitado, modernizado minimamente e relançado como a famosa série 4S (4S15, 4S35, etc.), que equipou os prestigiados modelos 'Red Alpinist' e os primeiros modelos Credor modernos. Assim, o 52KS Special de 1971 não é apenas um relógio vintage; é o doador genético da renascença mecânica da Seiko, validando a visão dos engenheiros da Daini que, mesmo diante da obsolescência iminente, recusaram-se a comprometer a qualidade.
CURIOSIDADES
1. Mecanismo de Data Instantânea: Ao contrário da maioria dos movimentos da época que arrastavam a troca da data, o 52KS possui um mecanismo de 'salto' que troca a data precisamente à meia-noite, uma complexidade geralmente reservada à alta relojoaria suíça.
2. O 'Pai' do 4S15: O movimento 5246 é a base arquitetônica direta do cultuado movimento Seiko 4S15 dos anos 90. Muitas peças são, inclusive, intercambiáveis entre um movimento de 1971 e um de 1995.
3. Ajuste Fino Externo: Algumas caixas monobloco do 52KS (como a 5246-6000) possuíam um pequeno parafuso entre as alças que permitia ao relojoeiro ajustar a precisão do movimento sem precisar abrir a caixa do relógio.
4. Superioridade sobre o 56KS: Enquanto o rival 56KS da Suwa sofria com uma engrenagem de plástico no sistema de câmbio rápido do calendário que quebrava com facilidade, o 52KS da Daini utilizava componentes inteiramente metálicos, tornando-o muito mais colecionável e durável hoje.
5. O Último Cronômetro Oficial: Embora a designação 'Chronometer' tenha sido banida em relógios não-suíços por pressão da COSC no início dos anos 70, alguns 52KS Special superavam os requisitos da COSC, sendo certificados internamente pela Seiko com padrões ainda mais rígidos.
6. Variações 'Vanac': O calibre 52 também equipou a excêntrica linha 'KS Vanac' dos anos 70, que apresentava designs psicodélicos, cristais lapidados e mostradores coloridos, escondendo um motor de alta precisão sob uma estética disco.
7. Micro-regulador: O movimento 'Special' vinha equipado com um sistema de micro-regulador no balanço, uma característica técnica que facilitava ajustes de precisão micrométrica, algo raro em relógios produzidos em série na época.