RESUMO
No alvorecer da década de 1970, um período de efervescência criativa e convulsão tecnológica na indústria relojoeira, a Orient Watch Company apresentou uma das suas propostas mais audaciosas: o Nonscratch. Lançado como uma declaração de durabilidade absoluta, este relógio não era um instrumento de mergulho nem um cronógrafo de aviação; era um manifesto de engenharia de materiais destinado ao consumidor quotidiano que valorizava a permanência e a resiliência. A sua filosofia de design era clara e intransigente: criar um relógio cuja aparência fosse imune à passagem do tempo e aos rigores do uso diário. O seu público-alvo era o profissional moderno, que desejava um relógio elegante e tecnologicamente avançado, capaz de manter o seu brilho pristine ano após ano. Posicionado como uma alternativa inovadora aos relógios de aço tradicionais e como um concorrente direto do Rado Diastar, o Orient Nonscratch destacou-se pela sua caixa vanguardista feita de carboneto de tungsténio, um material quase tão duro como o diamante. Esta escolha não foi meramente estética, mas sim uma proeza técnica que sinalizava a capacidade da Orient de inovar para além dos movimentos mecânicos. O Nonscratch é, portanto, uma peça fundamental na história da relojoaria japonesa, representando um momento crucial em que a inovação em materiais se tornou um campo de batalha tão importante quanto a precisão cronométrica, antecipando a era dos relógios de cerâmica e outros materiais exóticos.
HISTÓRIA
A história do Orient Nonscratch é uma crónica da ambição e inovação japonesas durante um dos períodos mais transformadores da relojoaria. Lançado em 1970, o modelo surgiu num cenário de intensa competição. A Rado, uma marca suíça, já havia chocado o mundo em 1962 com o Diastar, o primeiro relógio à prova de riscos, utilizando os mesmos princípios de uma caixa de 'metal duro'. A Orient, sempre atenta às tendências e determinada a demonstrar a sua própria proeza tecnológica, respondeu com o Nonscratch, um nome que não deixava margem para dúvidas sobre a sua principal proposta de valor. O contexto de 1970 é crucial: a 'crise do quartzo' estava iminente, e as marcas japonesas, lideradas pela Seiko, já mostravam ao mundo a sua capacidade de produzir relógios precisos e acessíveis em massa. No entanto, a Orient optou por competir também no campo da durabilidade e dos materiais exóticos. O uso do carboneto de tungsténio ('choko-gokin' em japonês) foi uma jogada de mestre. Este compósito cerâmico-metálico, com uma dureza próxima de 9 na escala de Mohs, era excecionalmente difícil de riscar, mas também de produzir. A sua maquinação exigia ferramentas com ponta de diamante e processos de sinterização complexos, o que elevava o custo de produção e posicionava o Nonscratch como um item premium dentro do catálogo da Orient. O design do Nonscratch era inconfundivelmente filho da sua época. As formas da caixa eram ousadas, variando entre ovais, 'tonneau' e retangulares com cantos suavizados, todas beneficiando do brilho perpétuo e quase líquido do tungsténio polido. Esta estética futurista era complementada por mostradores vibrantes e cristais facetados que brincavam com a luz, criando um espetáculo visual no pulso. A Orient lançou o Nonscratch no mesmo ano que outro modelo icónico e arrojado, o Jaguar Focus, famoso pelos seus mostradores extravagantes. Esta ofensiva dupla em 1970 demonstra a explosão de criatividade da marca, que não tinha receio de explorar designs extremos e inovações materiais simultaneamente. Ao longo da década de 1970, o Nonscratch viu diversas variações de mostradores e pequenas alterações na forma da caixa, mas a sua essência permaneceu a mesma. Não evoluiu em 'gerações' como um diver ou um cronógrafo, pois o seu conceito era singular e perfeitamente realizado desde o início. O seu impacto foi significativo. Embora não tenha alcançado o volume de vendas de modelos como o King Diver, o Nonscratch solidificou a reputação da Orient como uma marca inovadora e corajosa. Para os colecionadores de hoje, representa um fascinante capítulo da 'guerra dos materiais' dos anos 70 e um testemunho da era em que o design japonês era sinónimo de futurismo e audácia. Encontrar um exemplar em bom estado é um desafio, pois embora a caixa seja resistente a riscos, o carboneto de tungsténio é quebradiço e pode estalar ou partir-se com um impacto forte, um paradoxo que apenas aumenta o seu apelo entre os conhecedores.
CURIOSIDADES
Apelido Comum: Entre colecionadores, é frequentemente referido pelo seu material, 'Metal Duro' (Hard Metal), um aceno direto à sua construção inovadora.
Paradoxo do Material: Apesar de ser quase impossível de riscar (dureza de ~9 na escala de Mohs), o carboneto de tungsténio é um material quebradiço. Ao contrário do aço que amolga, uma queda forte pode fazer com que a caixa estale ou se parta.
Desafio de Produção: A maquinação da caixa de tungsténio exigia ferramentas com ponta de diamante e um processo de fabrico muito mais lento e caro do que o do aço, tornando-o um produto tecnologicamente avançado para a época.
Lançamento Estratégico: O facto de ter sido lançado em 1970, o mesmo ano do igualmente extravagante Orient Jaguar Focus, sugere uma estratégia deliberada da Orient para demonstrar a sua versatilidade e domínio tanto em design arrojado como em engenharia de materiais.
Marketing Direto: O nome 'Nonscratch' (Não risca) é um exemplo de marketing japonês extremamente literal e eficaz, focando-se diretamente no principal benefício do produto, sem rodeios ou floreados poéticos.
Variações de Mostrador: A linha Nonscratch foi produzida com uma vasta gama de cores de mostrador, incluindo tons de verde, azul, cinzento e bordô, muitas vezes com acabamentos degradê ou 'sunburst', tornando a caça a diferentes variantes um objetivo para colecionadores.
Fundo em Aço: O fundo da caixa era sempre feito de aço inoxidável, pois o carboneto de tungsténio é demasiado duro e quebradiço para ser rosqueado de forma fiável como um fundo de caixa exige.