RESUMO
Em 1917, num mundo redefinido pela Grande Guerra, a Universal Genève (então conhecida como Universal Watch) apresentou uma inovação que alteraria para sempre a cronometragem pessoal: o seu primeiro cronógrafo de pulso. Este relógio não foi apenas um novo produto; foi uma declaração de vanguarda tecnológica e um elo crucial na evolução da relojoaria. Posicionado no topo do mercado, este instrumento de precisão visava uma clientela emergente que exigia funcionalidade portátil — oficiais militares, aviadores pioneiros, médicos e desportistas que já não podiam depender da inconveniência de um relógio de bolso. A sua filosofia de design era eminentemente funcional, uma fusão entre a robustez e a legibilidade dos cronógrafos de bolso e a nova ergonomia do relógio de pulso. Asas de arame soldadas a uma caixa grande e redonda e um mostrador de esmalte de alta clareza eram testemunhos desta transição. A sua importância horológica é imensa; representa um dos primeiros exemplos comercialmente viáveis de um cronógrafo concebido para o pulso, estabelecendo as bases para o domínio da Universal Genève neste campo nas décadas seguintes. Este modelo não é apenas um relógio, é um artefacto que encapsula a passagem de uma era, o nascimento do relógio-ferramenta moderno e o primeiro capítulo da lendária saga dos cronógrafos da marca.
HISTÓRIA
O ano de 1917 marcou um ponto de inflexão na história da relojoaria, impulsionado pelas exigências pragmáticas da Primeira Guerra Mundial. O campo de batalha e os céus da Europa demonstraram a inadequação do relógio de bolso para uma cronometragem rápida e acessível. Foi neste cenário de necessidade e inovação que a Universal Watch, uma empresa já reputada pelos seus complicados relógios de bolso, apresentou ao mundo o seu primeiro cronógrafo de pulso, uma peça que viria a definir o seu legado. Este modelo não surgiu do vácuo; foi a evolução natural da sua mestria em movimentos de cronógrafo, nomeadamente calibres de 17 linhas robustos e fiáveis. A genialidade não esteve na criação de um movimento totalmente novo, mas na sua adaptação visionária a uma nova forma. A caixa, grande para os padrões da época, mas necessária para albergar o imponente movimento, foi equipada com asas de arame soldadas, permitindo que fosse firmemente presa ao pulso com uma correia de couro. O design era uma ponte entre dois mundos. O mostrador de esmalte, com os seus numerais arábicos pintados e ponteiros de aço azulado, era uma herança direta da estética dos relógios de bolso, valorizando a legibilidade acima de tudo. Contudo, a sua função era revolucionária. O sistema de cronógrafo monopusher, com o botão de arranque, paragem e reset engenhosamente integrado na coroa, era uma solução elegante e intuitiva para a época, anterior ao sistema de dois botões que se tornaria padrão anos mais tarde. Este cronógrafo de 1917 não foi produzido em massa nem teve múltiplas 'gerações' como os modelos posteriores. Era um produto de nicho, quase experimental, para os primeiros adotantes da tecnologia. Não existem referências numeradas conhecidas como as que vemos hoje; a identificação baseia-se na sua arquitetura única: o movimento de 17 linhas, a caixa de transição e o empurrador coaxial. O seu impacto foi profundo. Internamente, provou que a Universal possuía a capacidade técnica para liderar a nova era do relógio de pulso. Externamente, posicionou a marca como uma das pioneiras na categoria de cronógrafos de pulso, um campo que viria a dominar a partir dos anos 30 com o lançamento das icónicas famílias Compur e Compax. Este primeiro cronógrafo foi a semente da qual floresceu a reputação da Universal Genève como 'a casa do cronógrafo'. Hoje, encontrar um exemplar de 1917 é encontrar uma peça de museu, um testemunho tangível do momento exato em que o relógio passou de um acessório de bolso a uma ferramenta indispensável no pulso.
CURIOSIDADES
O empurrador coaxial na coroa, uma marca dos primeiros cronógrafos monopusher, era uma solução tecnicamente complexa, mas ergonomicamente brilhante, que mantinha a silhueta da caixa limpa.
Embora não haja provas de que tenha sido um relógio de dotação oficial, o seu desenvolvimento foi diretamente influenciado pelas necessidades dos oficiais de artilharia e dos primeiros pilotos da Primeira Guerra Mundial, que precisavam de cronometrar eventos com as mãos livres.
Na altura do seu lançamento em 1917, a empresa era oficialmente designada como 'Universal Watch'. A marca 'Universal Genève' só foi registada em 1937, para capitalizar a associação com a famosa cidade relojoeira.
O termo '17 linhas' refere-se ao diâmetro do movimento (uma 'linha' equivale a 2.2558 mm), indicando que se tratava de um calibre de relógio de bolso grande e robusto, adaptado para o pulso, garantindo precisão e durabilidade.
Este modelo é considerado o ancestral direto da célebre família de cronógrafos 'Compax', introduzida nos anos 30, que solidificou a Universal Genève como uma das manufaturas de cronógrafos mais importantes do século XX.
Os mostradores eram feitos de esmalte 'grand feu', um processo de vitrificação que os torna extremamente duráveis e imunes ao envelhecimento e descoloração, razão pela qual os exemplares sobreviventes mantêm frequentemente um aspeto imaculado.
Devido à sua idade e ao contexto da sua produção, estes relógios são de uma raridade extrema. As suas aparições em leilão são eventos notáveis, sendo cobiçados pelos colecionadores mais sérios como marcos da história da relojoaria.