RESUMO
Lançado em 2023 como parte integrante das celebrações do 110º aniversário do primeiro relógio de pulso do Japão (o Laurel de 1913), o King Seiko SPB365 é uma obra-prima de simbolismo cultural e precisão técnica. Esta referência específica, limitada a apenas 1.200 exemplares globalmente, destaca-se não apenas pela sua reintrodução da lendária silhueta KSK de 1965, mas principalmente pelo seu mostrador hipnótico. O design apresenta o padrão japonês tradicional 'Kikkoumon' (casco de tartaruga), uma referência direta e poética ao bairro de Kameido em Tóquio, local onde a antiga fábrica da Daini Seikosha — o berço da King Seiko — operava. Com um mostrador em gradiente cobre-marrom que joga com a luz de forma tridimensional, o relógio captura a essência da longevidade e prosperidade. Equipado com o calibre 6R31, uma variação sem data do robusto 6R35, o SPB365 mantém uma simetria imaculada no mostrador, respeitando a estética minimalista mas angular que definiu a 'Gramática do Design' da Seiko em meados do século XX. É uma peça que transcende a funcionalidade para se tornar um artefato de narrativa histórica.
HISTÓRIA
A história do King Seiko SPB365 é inseparável da intensa rivalidade interna que impulsionou a Seiko à supremacia horológica global na década de 1960. Durante essa era dourada, a Seiko operava com duas subsidiárias concorrentes: a Suwa Seikosha (criadora do Grand Seiko) e a Daini Seikosha. Foi nos ateliês da Daini, situados no bairro de Kameido, em Tóquio, que a linha King Seiko nasceu como uma resposta de alta precisão e design vanguardista aos seus rivais de Suwa.
O SPB365, especificamente, é uma reinterpretação moderna do King Seiko KSK de 1965 (série 44-9990), o segundo modelo da linha e o primeiro a definir verdadeiramente o caráter visual da marca com as suas garras angulares e superfícies planas polidas espelhadas. No entanto, o que eleva o SPB365 além de uma simples reedição é a sua profundidade narrativa ligada ao aniversário de 110 anos da relojoaria Seiko.
O elemento central desta narrativa é o padrão 'Kikkoumon'. Em japonês, 'Kameido' significa literalmente 'Poço da Tartaruga'. O bairro é famoso pelo santuário Kameido Tenjin, conhecido pelas suas pontes arqueadas e lagoas repletas de tartarugas. Na cultura japonesa, a tartaruga é um símbolo celestial de longevidade, sabedoria e boa sorte. Os designers da Seiko utilizaram este motivo hexagonal para criar um mostrador de complexidade impressionante: cada hexágono no mostrador do SPB365 consiste numa placa inserida num nível mais profundo do que a área circundante, criando uma textura que muda drasticamente dependendo do ângulo de incidência da luz.
A escolha do calibre 6R31 para este modelo foi uma decisão estética deliberada. Ao remover a complicação de data (presente no calibre base 6R35), a Seiko preservou a integridade do padrão geométrico e a simetria perfeita do mostrador, evocando a pureza dos relógios manuais dos anos 60, mas com a conveniência de um movimento automático moderno com 70 horas de reserva de marcha.
Lançado num momento crucial de renascimento da marca King Seiko, que retornou ao catálogo regular em 2022 após décadas de inatividade, o SPB365 serve como uma ponte temporal. Ele une a engenharia robusta da Daini Seikosha de 1965 com as técnicas modernas de fabricação e acabamento de 2023, celebrando não apenas 110 anos de história, mas especificamente o espírito indomável e a identidade local do bairro que deu origem ao 'Rei'.
CURIOSIDADES
1. O índice das 12 horas possui uma textura piramidal distinta (knurling) que replica o padrão usado nos isqueiros de luxo da década de 1960 e garante uma legibilidade superior sob luz direta.
2. A pulseira de couro adicional incluída no conjunto provém de curtumes certificados pelo LWG (Leather Working Group), destacando o compromisso moderno da Seiko com a sustentabilidade, algo impensável na era original do modelo.
3. O termo 'KSK' no modelo original de 1965, no qual este relógio se baseia, significava 'King Seiko Kisei-Tsuki', indicando a presença de uma função de parada de segundos (hacking), uma inovação técnica importante na época.
4. O fecho da pulseira de aço ostenta o relevo 'King Seiko' com a fonte gótica original, um detalhe purista muitas vezes esquecido em reedições modernas.
5. O padrão Kikkoumon não é apenas impresso; é prensado com profundidade real no mostrador, exigindo um ferramental de alta precisão para manter a nitidez dos vértices hexagonais.
6. Apesar da aparência vintage fiel, a caixa foi ligeiramente redimensionada e reforçada para oferecer 100 metros de resistência à água, contra a resistência muito limitada (ou inexistente) dos modelos originais dos anos 60.