RESUMO
No panteão da Alta Relojoaria, poucos mecanismos evocam tanta reverência técnica e pureza estética quanto o Calibre 145 da LeCoultre, lançado em 1907. Este não foi apenas um relógio de bolso; foi uma declaração de supremacia manufatureira que definiu o ethos da marca para o século seguinte. Nascido da colaboração seminal entre o relojoeiro parisiense Edmond Jaeger e o gigante manufatureiro suíço Jacques-David LeCoultre, o Calibre 145 foi concebido para um público de elite que valorizava a discrição aristocrática acima da opulência ostensiva. Na Era Eduardiana, onde a elegância era medida pela sutileza, um relógio de bolso que desaparecia no colete era o auge do refinamento. Com uma espessura inconcebível de apenas 1,38 mm, o Calibre 145 não servia apenas para marcar o tempo, mas para desafiar as leis da física e da resistência dos materiais. Ele estabeleceu a Jaeger-LeCoultre (então operando como entidades parceiras) como a autoridade incontestável em relojoaria ultraplana, uma linhagem que hoje se reflete na coleção Master Ultra Thin. Posicionado no vértice do mercado de colecionadores, o Calibre 145 encarna a filosofia de que a verdadeira complicação não reside apenas em adicionar funções, mas em subtrair volume sem sacrificar a precisão, tornando-se uma peça fundamental para qualquer historiador horológico sério.
HISTÓRIA
A gênese do Calibre 145 remonta a um desafio lançado em 1903 por Edmond Jaeger, relojoeiro da Marinha Francesa estabelecido em Paris. Jaeger buscava um fabricante suíço capaz de produzir os movimentos ultraplanos que ele havia projetado, mas que exigiam uma precisão de engenharia que poucos possuíam. Jacques-David LeCoultre, neto do fundador da manufatura em Le Sentier, aceitou o desafio, pedalando 20 quilômetros de bicicleta para telefonar a Paris e fechar o acordo. O resultado dessa união de mentes foi o lançamento, em 1907, do Calibre 145, um marco que deteria o recorde de movimento mais fino do mundo em sua categoria por gerações.
Para atingir a espessura de 1,38 mm, LeCoultre teve que repensar a arquitetura tradicional do relógio. A tolerância de erro era inexistente; qualquer desvio microscópico faria com que as peças tocassem o mostrador ou o fundo da caixa, parando o mecanismo. O movimento era frequentemente alojado em caixas denominadas 'Couteau' (faca), caracterizadas por uma borda extremamente afiada que criava uma ilusão de ótica, fazendo o relógio parecer ainda mais fino do que já era, semelhante a uma moeda de ouro.
Embora lançado na primeira década do século XX, a excelência técnica do Calibre 145 era tal que ele permaneceu em produção limitada até meados da década de 1960. Durante este longo período, ele viu a transição estética do Art Nouveau para o Art Déco e, posteriormente, para o Modernismo de meados do século, mantendo-se sempre relevante como o auge do relógio de gala (Dress Watch). Não houve 'gerações' marcadas por mudanças drásticas no mecanismo, pois a perfeição já havia sido atingida em 1907; as variações ocorriam quase exclusivamente nos mostradores e nas caixas, muitas vezes produzidas por joalheiros renomados sob encomenda.
O impacto deste modelo na indústria foi sísmico. Ele solidificou a fusão oficial das marcas em 'Jaeger-LeCoultre' em 1937 e estabeleceu a reputação da 'Grande Maison' como a fornecedora preferencial de movimentos para outras casas de luxo, incluindo a Cartier e a Patek Philippe. O Calibre 145 não é apenas um relógio antigo; é o avô espiritual de todos os relógios ultraplanos modernos, provando que a elegância suprema reside na eliminação do supérfluo.
CURIOSIDADES
O Calibre 145 manteve o recorde de movimento de relógio de bolso mais fino do mundo (1,38 mm) por quase um século, um feito de longevidade técnica raríssimo na indústria.
A produção total foi extremamente restrita devido à dificuldade de fabricação: estima-se que apenas cerca de 400 movimentos Calibre 145 foram produzidos entre 1907 e a década de 1960.
Muitos destes movimentos foram vendidos para a Cartier e alojados em caixas requintadas fabricadas pela famosa casa 'Verger Frères', sendo vendidos como relógios Cartier com corações LeCoultre.
O apelido 'Couteau' (Faca) refere-se especificamente ao perfil da caixa usada para abrigar este movimento, que era tão fina nas bordas que poderia, teoricamente, ser usada para abrir uma carta.
Devido à sua espessura microscópica, os relojoeiros da época relatavam que o simples ato de apertar um parafuso com força excessiva poderia deformar a platina base, inutilizando o movimento para sempre.
Em leilões modernos, exemplares bem preservados do Calibre 145, especialmente aqueles com assinaturas duplas (Jaeger-LeCoultre e Cartier), atingem valores exorbitantes, sendo considerados 'Grails' da era dos relógios de bolso.