RESUMO
O Certina DS-2 Super PH500M não é apenas um relógio; é um artefato histórico que cristaliza o auge da 'corrida para o fundo do mar' no final da década de 1960. Lançado num período em que a exploração oceânica rivalizava com a conquista espacial, este modelo foi escolhido para equipar os aquanautas do projeto Tektite I em 1969, um experimento ambicioso conduzido conjuntamente pela Marinha dos EUA, pela NASA e pelo Departamento do Interior. Diferenciando-se dos seus contemporâneos, como o Rolex Submariner ou o Omega Seamaster, o Super PH500M foi projetado estritamente como uma ferramenta de sobrevivência profissional, e não como um item de luxo. A sua arquitetura robusta incorpora o famoso conceito DS (Double Security) da Certina, elevando a resistência à água para uns impressionantes 500 metros (50 ATM), um feito notável para a época. O seu design é imediatamente reconhecível pelo mostrador de alta visibilidade (frequentemente laranja ou preto) e, mais crucialmente, pelo seu bisel poligonal de 14 facetas com um mecanismo de segurança inovador que exige pressão vertical para ser girado, prevenindo ajustes acidentais fatais durante mergulhos de saturação. Este relógio representa a fusão perfeita entre a durabilidade suíça e a exploração científica, servindo como testemunha silenciosa da capacidade humana de habitar o fundo do oceano.
HISTÓRIA
A história do Certina DS-2 Super PH500M é intrínseca à era de ouro do mergulho profissional e à busca incessante da Certina pela invulnerabilidade mecânica. Para compreender este modelo, deve-se primeiro olhar para 1959, quando a Certina lançou o conceito DS (Double Security). Numa época em que a fragilidade dos relógios mecânicos era o calcanhar de Aquiles para os exploradores, o sistema DS introduziu um movimento flutuante, suspenso dentro da caixa por um anel elástico de absorção de choque, além de vedações reforçadas. Uma década depois, em 1968-1969, a tecnologia de mergulho evoluiu do mergulho recreativo SCUBA para o mergulho de saturação e habitats subaquáticos, exigindo instrumentos de um calibre superior.
Foi neste cenário que nasceu a linha DS-2, e no topo da pirâmide alimentar desta coleção estava o Super PH500M. Enquanto o modelo PH200M era destinado ao mergulhador amador e profissional ligeiro, o PH500M foi construído como um tanque subaquático. O seu design foi uma resposta direta aos perigos reais do mergulho profundo. O bisel, por exemplo, não era apenas rotativo; a Certina desenvolveu um mecanismo de segurança onde o anel externo tinha de ser pressionado contra a caixa para ser desbloqueado e girado. Esta funcionalidade era vital: um deslocamento acidental do bisel poderia levar um mergulhador a calcular mal o seu tempo de descompressão, resultando em doença descompressiva ou morte.
O momento de consagração do modelo ocorreu em 1969, durante o projeto Tektite I. O experimento, realizado em Great Lameshur Bay, nas Ilhas Virgens, envolveu quatro cientistas aquanautas vivendo num habitat subaquático a 15 metros de profundidade durante 60 dias ininterruptos. O objetivo era testar a fisiologia humana, o comportamento em isolamento (de interesse da NASA para futuras missões espaciais) e a saturação de nitrogênio. A General Electric, a Marinha dos EUA e a NASA supervisionaram o projeto. Os aquanautas precisavam de relógios que suportassem não apenas a pressão da água, mas a vida cotidiana num ambiente hiperbárico úmido e salino. Após uma bateria rigorosa de testes de avaliação, onde vários relógios de marcas de prestígio foram avaliados quanto à precisão, legibilidade e robustez, o Certina DS-2 Super PH500M obteve as pontuações mais altas, sendo selecionado para uso oficial pela equipe.
Durante a missão, o relógio provou ser infalível. O calibre 25-651, um movimento 'in-house' robusto conhecido pela sua confiabilidade, manteve a precisão cronométrica apesar dos choques térmicos e físicos. O sucesso no Tektite I cimentou a reputação da Certina entre a comunidade de mergulho profissional, colocando-a lado a lado com gigantes como a Rolex (Sea-Dweller) e a Omega (Ploprof). O PH500M tornou-se, assim, um ícone cultuado não pelo marketing de luxo, mas pela sua validação no campo de batalha científico, representando um capítulo onde a horologia serviu diretamente à expansão das fronteiras humanas.
CURIOSIDADES
1. O sistema de bisel do PH500M foi uma maravilha de engenharia: o seu design de 14 lados (tetradecágono) foi escolhido especificamente porque era mais fácil de agarrar com luvas de neoprene grossas do que um bisel serrilhado comum, além do mecanismo de segurança 'push-to-turn'.
2. Durante os testes da NASA e da Marinha para o Tektite I, o Certina Super PH500M recebeu uma classificação 'Excellent' em todas as categorias críticas, superando vários concorrentes suíços que custavam o dobro do preço na época.
3. O mostrador laranja, presente em muitas versões deste modelo e na reedição moderna, foi escolhido com base em estudos de física ótica da época que sugeriam melhor contraste em águas turvas ou profundidades médias, embora o vermelho/laranja seja a primeira cor a desaparecer no espectro de absorção da água.
4. O fundo da caixa apresenta a famosa tartaruga da Certina em relevo. Este símbolo foi adotado pela marca para representar longevidade e a carapaça dura (resistência) do conceito DS.
5. O experimento Tektite I durou 60 dias, o que na época foi um recorde mundial para mergulho de saturação por uma única equipe, e os relógios Certina nunca precisaram de manutenção durante todo o período submerso.
6. A Certina lançou uma reedição fiel deste modelo em 2020 (referência C037.407.17.280.10), mantendo o design vintage e a colaboração com a VDST (Associação Alemã de Mergulhadores), provando a intemporalidade do design de 1969.