RESUMO
Lançado no auge da era dourada dos relógios de mergulho, em 1970, o Certina DS-2 Super PH1000M representa o zênite da engenharia suíça robusta da época. Projetado como uma ferramenta de sobrevivência intransigente, este modelo não foi apenas um acessório, mas um instrumento científico vital. Famoso pela sua caixa em forma de "tonneau" (barril) maciça e pela sua espessura imponente, o relógio foi construído para suportar as pressões esmagadoras de 1000 metros de profundidade, um feito técnico extraordinário para a época. A sua notoriedade foi cimentada pela participação no programa Tektite II, um experimento ambicioso conduzido pela NASA, pela Marinha dos EUA e pelo Departamento do Interior, onde cientistas viveram submersos num habitat subaquático nas Ilhas Virgens. Equipado com o lendário sistema DS (Double Security) da Certina, que isolava o movimento de choques através de um anel de montagem elástico, e impulsionado pelo robusto calibre "in-house" 25-651, o Super PH1000M é hoje reverenciado por colecionadores como um dos "grails" dos relógios de mergulho vintage, combinando estética funcional brutalista com pedigree histórico comprovado.
HISTÓRIA
A história do Certina DS-2 Super PH1000M é intrínseca à corrida pela conquista do fundo do mar que definiu a horologia nas décadas de 1960 e 1970. Em 1959, a Certina revolucionou o mercado com o conceito DS (Double Security), que suspendia o movimento do relógio dentro da caixa usando um anel elástico de borracha sintética, criando uma resistência a choques sem precedentes. Após o sucesso do DS-1 e dos mergulhadores PH200M e PH500M, a marca de Grenchen buscou ultrapassar os limites físicos da estanqueidade.
O resultado, apresentado em 1970, foi o Super PH1000M. Ao contrário de seus predecessores, este modelo foi desenhado especificamente para mergulho de saturação e exploração científica. A caixa não era apenas um recipiente, mas um escudo; a sua forma de almofada sem asas (lugs) externas minimizava o risco de prender em equipamentos de mergulho ou corais. A engenharia era puramente funcional: para atingir 100 bars de pressão, o cristal mineral tinha de ser extraordinariamente espesso e o fundo da caixa reforçado.
O momento de consagração do modelo ocorreu com o projeto Tektite II (1970). Após o sucesso do Tektite I, a General Electric (que patrocinava o habitat subaquático) equipou os aquanautas com relógios Certina Super PH1000M. Durante várias semanas, cientistas viveram no fundo da Great Lameshur Bay, nas Ilhas Virgens, monitorando a saúde dos recifes e o comportamento humano em isolamento. O relógio provou ser infalível, resistindo não apenas à pressão da água, mas às mudanças de pressão atmosférica dentro do habitat e aos rigores do trabalho físico subaquático.
Além do Tektite, o modelo foi utilizado pela Marinha Real Australiana (RAN - Royal Australian Navy), que emitiu estes relógios para as suas unidades de mergulhadores de elite (Clearance Divers). Os exemplares com marcações NSN (NATO Stock Number) no fundo da caixa são hoje raríssimos e altamente valorizados. O Super PH1000M permaneceu em produção até meados dos anos 70, sendo eventualmente descontinuado durante a Crise do Quartzo. No entanto, o seu legado perdura como um testemunho da época em que a Certina era uma verdadeira 'Manufacture', capaz de produzir calibres robustos e caixas que rivalizavam com a Rolex e a Omega em especificações técnicas extremas.
CURIOSIDADES
• A tartaruga no fundo: O verso da caixa ostenta a famosa gravação em relevo de uma tartaruga marinha, símbolo da longevidade e resistência à água da linha DS, um detalhe icônico para colecionadores.
• Conexão com a General Electric: Os relógios fornecidos para a missão Tektite II foram um resultado direto da colaboração com a GE, que procurava um relógio que superasse as especificações padrão da época para garantir a segurança dos aquanautas.
• Variações de Mostrador: O modelo foi produzido com mostradores pretos clássicos e laranjas vibrantes. A versão laranja era teoricamente para melhor legibilidade em águas turvas, mas curiosamente, o espectro de luz vermelha/laranja é o primeiro a desaparecer na profundidade.
• O Calibre 25-651: Este movimento é considerado um dos "tratores" da indústria suíça. A sua construção era tão robusta que relojoeiros relatam encontrar exemplares que nunca foram revisados em 40 anos e ainda mantêm uma amplitude aceitável.
• Reedição Recente: Devido ao status de culto deste modelo, a Certina lançou uma reedição moderna (STC e Heritage) nos anos 2020, mas o original de 1970 continua a ser o objeto de desejo devido às suas proporções "monstruosas" e pátina de trítio.
• Raridade RAN: Estima-se que pouquíssimos exemplares emitidos pela Marinha Australiana (RAN) tenham sobrevivido ao serviço ativo, tornando-os significativamente mais valiosos que as versões civis.