RESUMO
No apogeu da Guerra Fria, quando a proeza técnica era um campo de batalha ideológico, a Primeira Fábrica de Relógios de Moscovo (1MWF) apresentou uma obra-prima de elegância e engenharia: o Vympel. Lançado em 1961, este relógio não era uma ferramenta militar nem um instrumento para cosmonautas; era uma declaração de sofisticação. Posicionado como o principal relógio de cerimónia da União Soviética, o Vympel destinava-se a uma elite de diplomatas, oficiais de alto escalão e intelectuais. A sua filosofia de design era de um minimalismo requintado, focado inteiramente na sua característica mais notável: uma espessura extraordinariamente reduzida. Esta proeza foi alcançada através do lendário calibre 2209, um movimento mecânico com apenas 2.9mm de altura. A importância do Vympel transcende a sua estética. Representou a capacidade da indústria relojoeira soviética de competir ao mais alto nível com os seus homólogos suíços, que dominavam o mercado de relógios ultra-finos. A sua validação internacional, com a conquista da Medalha de Ouro na Feira de Leipzig, foi um momento de imenso orgulho nacional e uma prova irrefutável da sua excelência. Este modelo foi o precursor direto e a base para o famoso 'Poljot de Luxe', solidificando o seu lugar como um pilar fundamental na história da relojoaria russa e um objeto de desejo para colecionadores que apreciam a intersecção da história, design e inovação mecânica.
HISTÓRIA
A história do Vympel (??????, que significa 'Galhardete' ou 'Bandeira') está intrinsecamente ligada à ambição da União Soviética de demonstrar a sua superioridade tecnológica e cultural no cenário mundial. No início da década de 1960, enquanto a corrida espacial capturava a imaginação do mundo, a Primeira Fábrica de Relógios de Moscovo foi incumbida de um desafio mais subtil, mas não menos complexo: criar um relógio de cerimónia que rivalizasse com os melhores exemplos da relojoaria suíça. O objetivo era produzir um relógio de uma elegância e finura sem precedentes para os padrões soviéticos, um símbolo de prestígio para a nomenclatura do país.
O coração deste projeto era o desenvolvimento de um movimento radicalmente novo. Os engenheiros da 1MWF conseguiram uma proeza notável com a criação do calibre 2209. Com um diâmetro de 22mm e uma altura de apenas 2.9mm, este movimento de 23 rubis era uma maravilha da micro-mecânica, comparável a calibres lendários como o Piaget 9P. O seu design dispensava a ponte de centro, integrando a roda de centro diretamente na platina principal, permitindo um perfil excecionalmente baixo. Lançado em 1961, o relógio que albergava este movimento foi batizado de 'Vympel', um nome que evocava vitória e distinção.
O design do relógio era a personificação da contenção e do bom gosto. A sua caixa de 35mm, tipicamente banhada a ouro, tinha proporções clássicas e asas finas e elegantes. Os mostradores, geralmente com um acabamento 'sunburst' prateado ou champanhe, apresentavam índices aplicados e ponteiros finos que reforçavam a sua vocação formal. A ausência de uma janela de data ou de um ponteiro de segundos (em muitas versões iniciais) contribuía para uma pureza estética que era totalmente deliberada.
O momento decisivo para o Vympel chegou em 1963, na Feira Internacional de Comércio de Leipzig, na Alemanha Oriental. Este evento era uma importante plataforma de exibição para o Bloco de Leste, e apresentar produtos de classe mundial era uma prioridade. O Vympel foi submetido a avaliação e, pela sua extraordinária finura e qualidade de engenharia, foi galardoado com a prestigiada Medalha de Ouro. Esta vitória foi um triunfo propagandístico e técnico, provando que a URSS podia competir e vencer no domínio da alta relojoaria.
Pouco depois deste sucesso, e na esteira do voo histórico de Yuri Gagarin, o Kremlin decretou que toda a produção de classe superior da Primeira Fábrica de Relógios de Moscovo seria consolidada sob uma nova marca: 'Poljot' (?????), que significa 'Voo'. O aclamado Vympel foi um dos primeiros modelos a passar por esta transição. O nome 'Vympel' foi gradualmente eliminado e o relógio foi rebatizado como 'Poljot de Luxe'. Embora o nome tenha mudado, o ADN do relógio permaneceu o mesmo, e o calibre 2209 continuou a ser produzido por quase duas décadas, equipando milhões de relógios Poljot, Luch (da fábrica de Minsk) e Sekonda (para exportação). Para os colecionadores, os modelos originais com a marca 'Vympel' em cirílico no mostrador são os mais cobiçados, representando o ponto de origem puro de um dos designs mais icónicos e duradouros da história relojoeira soviética.
CURIOSIDADES
O nome 'Vympel' (??????) traduz-se como 'Galhardete' ou 'Bandeira de Sinalização', um termo náutico que denota honra e distinção.
A consagração internacional do modelo ocorreu em 1963, quando ganhou a Medalha de Ouro na Feira de Comércio de Leipzig, um dos mais importantes eventos comerciais entre o Oriente e o Ocidente durante a Guerra Fria.
Os modelos iniciais, e mais raros, apresentam a marca '??????' escrita em cirílico. Versões posteriores para o mercado doméstico e para exportação usaram a transliteração latina 'Vympel' antes da mudança definitiva para 'Poljot'.
O calibre 2209 foi tão bem-sucedido que a sua produção foi partilhada com a Fábrica de Relógios de Minsk, que o utilizou nos seus próprios relógios ultra-finos da marca 'Luch'.
Devido à sua elegância e prestígio, o Vympel era o relógio de eleição oferecido como presente a dignitários e heróis da União Soviética, tornando-se um símbolo de status e reconhecimento oficial.
No mercado de exportação do Reino Unido, a versão rebatizada como 'Poljot de Luxe' foi vendida sob a marca 'Sekonda', tornando-se um dos relógios mecânicos mais vendidos e populares no país durante as décadas de 1970 e 1980.
Colecionadores referem-se frequentemente a este relógio simplesmente como 'o 2209', destacando que a sua verdadeira identidade e valor residem no seu excecional movimento.