RESUMO
Lançado em 1967, o Certina DS PH200M, especificamente a referência 5801 117, representa um divisor de águas na história da relojoaria de mergulho suíça. Este modelo não foi apenas mais um relógio resistente à água na profícua década de 1960; foi a inauguração da célebre linha 'Pression Hydrostatique' (PH), que viria a definir a competência técnica da Certina em ambientes subaquáticos extremos. Construído sobre os alicerces do sistema DS (Double Security) patenteado em 1959, o PH200M elevou a robustez a um nível profissional, oferecendo uma resistência à água de 200 metros, uma proeza significativa para a época. O coração desta máquina é o venerado calibre in-house 25-651, um movimento automático conhecido pela sua durabilidade 'trator' e precisão. Esteticamente, o relógio definiu códigos visuais que perduram até hoje: um mostrador preto profundo com o característico 'crosshair' (fio de mira) vermelho, ponteiros de espada de alta legibilidade e um bisel rotativo com inserção de alumínio protegido por acrílico. Mais do que um instrumento de tempo, o PH200M de 1967 foi o precursor direto e necessário para os 'monstros' das profundezas que se seguiram, o PH500M e o PH1000M, servindo como banco de ensaio para tecnologias de vedação e absorção de choque que seriam utilizadas em missões como a Tektite e Sealab. Para o colecionador moderno, a referência 5801 117 é a expressão mais pura da era dourada da Certina, combinando engenharia mecânica honesta com um design utilitário intemporal.
HISTÓRIA
A história do Certina DS PH200M, referência 5801 117, deve ser analisada sob a ótica da corrida tecnológica subaquática da década de 1960. Enquanto marcas como Rolex e Omega disputavam a atenção de mergulhadores profissionais com o Submariner e o Seamaster, a Certina, uma manufatura de Grenchen com uma reputação sólida, operava sob uma filosofia distinta: a invulnerabilidade mecânica. Em 1959, a marca introduziu o conceito DS (Double Security), que suspendia todo o movimento dentro da caixa utilizando um anel elástico de absorção de choque, além de criar um espaço de ar entre o mostrador e a caixa. Isso permitia que o movimento 'flutuasse', protegendo-o de impactos violentos que paralisariam outros relógios.
Em 1967, a Certina decidiu aplicar esta tecnologia especificamente para o mergulho de saturação e exploração profunda, dando origem à série PH ('Pression Hydrostatique'). O modelo inaugural, referência 5801 117, foi desenhado sem concessões. A caixa, ligeiramente sobredimensionada para a época (40mm), apresentava um perfil robusto, muitas vezes referido como 'turtle-back' devido à sua ergonomia e fundo reforçado. Diferente de muitos concorrentes que confiavam apenas na espessura do vidro e nas juntas da coroa, a Certina confiava na arquitetura interna do DS para garantir que, mesmo sob a pressão de 20 atmosferas, o calibre 25-651 continuasse a bater com precisão cronométrica.
O calibre 25-651 é, por si só, um capítulo à parte. Considerado um dos melhores movimentos automáticos produzidos em massa na Suíça antes da Crise do Quartzo, era robusto, de fácil manutenção e extremamente fiável. A combinação deste motor com a caixa PH criou um instrumento que rapidamente ganhou o favor de mergulhadores desportivos e profissionais na Europa. O mostrador com o 'crosshair' vermelho não era apenas estético; facilitava a leitura rápida dos quadrantes de tempo em condições de baixa luminosidade, uma necessidade vital para a descompressão.
Historicamente, a importância do 5801 117 reside no fato de ter pavimentado o caminho para os projetos experimentais da Certina. O sucesso deste modelo permitiu o financiamento e o desenvolvimento do PH500M e do PH1000M, relógios que participariam nas experiências Tektite da NASA e da Marinha dos EUA. Sem o sucesso comercial e técnico da referência 5801 117 em 1967, a Certina provavelmente não teria alcançado o estatuto de lenda do mergulho que detém hoje. O modelo foi descontinuado na década de 1970, tornando-se uma peça de culto, até que a marca, reconhecendo o seu valor histórico, lançou uma reedição fiel em 2018. No entanto, para o purista e historiador, o modelo de 1967 permanece insuperável em charme, pátina e importância histórica.
CURIOSIDADES
1. O acrónimo 'PH' no nome do modelo significa 'Pression Hydrostatique' (Pressão Hidrostática), uma nomenclatura científica que a Certina adotou para enfatizar a seriedade técnica da peça em oposição a nomes mais comerciais de concorrentes.
2. Uma característica única e contra-intuitiva do sistema DS original neste modelo é que a coroa muitas vezes não era roscada. A vedação era garantida por O-rings duplos internos e pela pressão da água empurrando o vidro contra a junta, um feito de engenharia notável.
3. O fundo da caixa apresenta o famoso logótipo da tartaruga em relevo, símbolo de longevidade e robustez aquática, que se tornou a assinatura da linha DS.
4. O calibre 25-651 utilizado neste relógio possuía um sistema de absorção de choque 'Incabloc' que, combinado com o anel de borracha sintética do sistema DS, tornava o relógio virtualmente imune a quedas de até 6 metros (segundo testes da época).
5. A referência 5801 117 é frequentemente confundida com reedições modernas, mas pode ser identificada pelo uso de trítio nos índices (que envelhece para uma cor creme/amarela) e pelo vidro de hesalite (acrílico) original, que confere uma distorção quente ao mostrador que a safira moderna não consegue replicar.
6. Este modelo serviu de base para testes de campo que levariam a Certina a colaborar com o projeto Tektite I em 1969, embora os modelos usados nessa missão específica fossem as evoluções (PH500M/1000M).
7. A luneta (bisel) original era uma peça complexa para a época, feita de alumínio mas coberta por uma camada espessa de proteção, dando-lhe uma profundidade visual semelhante à baquelite.