RESUMO
Lançada em meados da década de 1960, especificamente consolidada no catálogo de 1965, a coleção Certina New Art representa um ponto de inflexão estético audacioso para a manufatura de Grenchen. Enquanto a marca gozava de fama mundial pela robustez indestrutível da sua linha 'DS' (Double Security) lançada em 1959, o modelo New Art surgiu para preencher uma lacuna vital: a necessidade de um relógio de vestir (dress watch) que combinasse a confiabilidade técnica da Certina com uma elegância vanguardista. O New Art distingue-se imediatamente pela sua arquitetura de caixa inovadora, caracterizada por asas ocultas ou semi-integradas, que permitem que a bracelete flua diretamente para a caixa sem a interrupção visual das hastes tradicionais. Esta abordagem de design resultou numa silhueta perfeitamente circular e limpa, alinhada com o modernismo da época. Sob o mostrador, frequentemente de acabamento 'sunburst' minimalista e índices aplicados finos, batiam os lendários calibres de manufatura da série 25-65 (automático) ou 25-66 (manual), amplamente considerados por relojoeiros e historiadores como alguns dos movimentos mais robustos e bem construídos da indústria suíça no século XX. O New Art não foi apenas um exercício de estilo; foi a afirmação da Certina de que a durabilidade mecânica poderia coexistir com a sofisticação 'ultra-clean', definindo o padrão para o relógio de executivo da década de 1960.
HISTÓRIA
Para compreender a verdadeira magnitude do Certina New Art de 1965, é imperativo contextualizar a posição da Certina na hierarquia relojoeira da época. Na década de 1960, a Certina não era uma marca 'de entrada' como pode ser percebida sob a égide do Swatch Group moderno; era uma manufatura independente, produzindo movimentos in-house de qualidade rivalizando, e por vezes superando, concorrentes diretos como a Omega (linha Seamaster não-diver) e a Longines. Após o sucesso estrondoso do conceito DS em 1959, que focava na resistência a choques e isolamento do movimento, a marca necessitava diversificar.
O modelo New Art foi a resposta sofisticada à procura crescente por relógios mais finos e esteticamente 'limpos', distanciando-se do visual utilitário e das caixas robustas da linha desportiva. O ano de 1965 marcou o apogeu desta linha. A filosofia de design do New Art baseava-se na eliminação do supérfluo. A decisão de ocultar as asas por baixo da caixa foi uma jogada de mestre de engenharia e design. Visualmente, o relógio apresentava-se como um círculo perfeito no pulso, uma forma geométrica pura que antecipava a tendência dos designs integrados que explodiria na década de 1970 com Genta, mas mantendo a classe conservadora dos anos 60.
No coração do New Art residia a sua verdadeira alma: a engenharia mecânica. A maioria destes modelos de 1965 estava equipada com a série de calibres 25-651. Este movimento automático é, até hoje, venerado por relojoeiros experientes. Era um mecanismo 'over-engineered' (sobre-projetado), apresentando componentes espessos e robustos, um sistema de regulação preciso e uma eficiência de corda notável. Ao contrário de muitas marcas que usavam calibres genéricos da Ébauches SA, a Certina orgulhava-se da sua independência vertical.
A linha New Art também serviu como plataforma para a experimentação de materiais. Enquanto as versões em aço eram populares entre os profissionais liberais, as versões em ouro 18k tornaram-se presentes de reforma e celebração de estatuto na Europa Central e na Escandinávia, onde a marca tinha uma força de mercado excecional. O modelo não procurava ser um relógio de mergulho nem um cronógrafo de corrida; procurava ser o companheiro diário definitivo do homem moderno — discreto sob o punho da camisa, mas mecanicamente infalível.
Hoje, o Certina New Art de 1965 é celebrado por colecionadores 'in-the-know' como um 'value proposition' imbatível no mercado vintage. Representa o último suspiro da 'Velha Certina' antes da Crise do Quartzo e das consolidações corporativas alterarem para sempre o panorama da relojoaria suíça. Ele encapsula um momento no tempo onde a forma seguia a função, mas a função era executada com uma beleza artística inegável.
CURIOSIDADES
1. O nome 'New Art' é frequentemente interpretado erroneamente como uma referência direta ao movimento Art Nouveau, mas na realidade referia-se à 'Nova Arte' do design industrial moderno e minimalista da década de 1960.
2. Apesar da sua aparência delicada e de 'dress watch', muitos modelos New Art partilhavam componentes internos do movimento com a linha DS, conferindo-lhes uma durabilidade interna surpreendente para a categoria.
3. A Volvo, fabricante de automóveis sueca, encomendou versões especiais de relógios Certina na década de 1960 para presentear funcionários por mérito; muitos destes eram modelos baseados na arquitetura do New Art ou Blue Ribbon.
4. O design de asas ocultas exige braceletes com extremidades retas, o que facilita muito a troca de braceletes hoje em dia, ao contrário dos designs integrados proprietários dos anos 70.
5. O Calibre 25-651 utilizado no New Art tinha uma frequência de 19.800 A/h, uma taxa incomum e de transição entre os lentos 18.000 e os rápidos 21.600/28.800, oferecendo um equilíbrio único entre precisão e desgaste reduzido das peças.
6. Existem versões extremamente raras do New Art com mostradores texturizados em linho ('Linen Dials'), que são altamente cobiçadas em leilões atuais.
7. A caixa monobloco ou de design fechado de alguns modelos New Art tornava a manutenção um desafio para relojoeiros inexperientes, exigindo a remoção do vidro para acesso ao movimento (top-loader), embora a maioria desta linha em 1965 ainda usasse fundo de pressão.