RESUMO
O Waltham Type A-17, introduzido por volta de 1950 sob a especificação militar MIL-W-6433, representa um ponto de inflexão crucial na horologia militar americana, servindo como a ponte tecnológica entre os relógios da Segunda Guerra Mundial e a era moderna da aviação a jato. Projetado como o sucessor direto e aprimorado do lendário A-11 (o 'relógio que venceu a guerra'), o A-17 foi desenvolvido para atender às exigências crescentes da recém-formada Força Aérea dos Estados Unidos (USAF). Enquanto mantinha a robustez de seu antecessor, o A-17 introduziu melhorias vitais para a navegação aérea, notavelmente o mostrador auxiliar de 24 horas impresso no anel interno, facilitando a leitura imediata do horário militar 'Zulu', essencial para operações globais e coordenadas. Equipado com o movimento de corda manual Waltham Calibre 6/0-D de 17 rubis, este relógio apresentava a função de 'hacking' (parada de segundos), permitindo a sincronização precisa até o segundo entre os membros da tripulação antes das surtidas. Com sua caixa parkerizada resistente à corrosão e visibilidade noturna garantida por rádio (Radium-226), o Waltham A-17 tornou-se o instrumento de pulso definitivo para os pilotos durante a Guerra da Coreia, simbolizando a união entre a produção em massa industrial americana e a precisão cronométrica necessária em combate.
HISTÓRIA
A história do Waltham Type A-17 é intrínseca à evolução da força aérea militar dos Estados Unidos no pós-guerra. Após a Segunda Guerra Mundial, a aviação militar passou por uma transformação radical com o advento dos caças a jato e a consolidação da USAF como um ramo independente em 1947. O antigo padrão, o Type A-11, embora robusto e confiável, precisava de atualizações para acompanhar as novas doutrinas de combate e navegação de longo alcance. Em resposta, o Departamento de Defesa emitiu a especificação MIL-W-6433 em março de 1950, dando origem ao A-17.
Historicamente, o Waltham A-17 é significativo porque foi implantado maciçamente no início da Guerra da Coreia (1950-1953). Diferente dos combates de baixa altitude da Segunda Guerra, a Guerra da Coreia viu combates aéreos em altitudes elevadas e missões noturnas complexas, onde a legibilidade e a precisão eram questões de vida ou morte. A Waltham, uma das gigantes da relojoaria americana baseada em Massachusetts, estava enfrentando turbulências financeiras no início da década de 1950, mas sua capacidade de produzir movimentos de precisão em escala industrial garantiu-lhe contratos vitais.
O coração do A-17 era o movimento calibre 6/0-D. Este mecanismo era uma evolução dos movimentos 6/0 anteriores (como o 6/0-'42'), mas atualizado com 17 rubis — um aumento em relação aos 15 ou 16 rubis comuns nos modelos A-11 — proporcionando maior longevidade e menor atrito nas engrenagens críticas. A característica mais tática do modelo era o mecanismo de 'hacking'. Ao puxar a coroa, o balanço parava completamente, congelando o ponteiro dos segundos. Isso permitia que esquadrões inteiros sincronizassem seus relógios com um sinal de tempo mestre, garantindo que manobras coordenadas ocorressem no segundo exato.
Visualmente, o A-17 definiu a estética do relógio de piloto ('flieger') americano por décadas. A adição da escala de 24 horas no mostrador interno não foi um mero detalhe estético; foi uma necessidade operacional para o uso do tempo militar sem ambiguidade. Os ponteiros, carregados com tinta à base de rádio, brilhavam intensamente em cockpits escuros, embora hoje representem um perigo radiológico para colecionadores descuidados.
O legado do Waltham A-17 estendeu-se muito além da Coreia. Ele estabeleceu o padrão de design que influenciaria as especificações posteriores, como a MIL-W-3818A e a GG-W-113 usada no Vietnã. Para o historiador horológico, o Waltham A-17 de 1950 é o canto do cisne da grande relojoaria militar americana tradicional antes que a indústria doméstica entrasse em colapso e a tecnologia de quartzo eventualmente tomasse o lugar dos movimentos mecânicos nos anos 70 e 80.
CURIOSIDADES
1. Radioatividade Histórica: O material luminescente original usado nos ponteiros e números do A-17 é o Rádio-226. Se medido com um contador Geiger hoje, um exemplar original de 1950 ainda emitirá níveis significativos de radiação, exigindo cautela no manuseio e armazenamento.
2. O 'Hack' da Vitória: O termo 'hacking' para a parada de segundos popularizou-se massivamente com este modelo e seus antecessores. A cena clássica de filmes de guerra onde o comandante diz 'Acertem seus relógios' (Synchronize watches) dependia inteiramente dessa funcionalidade mecânica.
3. Tamanho Enganoso: Com apenas cerca de 31mm de diâmetro, o A-17 é considerado minúsculo para os padrões masculinos atuais. No entanto, em 1950, era considerado um tamanho funcional e robusto, desenhado para não prender nos equipamentos do cockpit ou nas mangas do uniforme de voo.
4. Acabamento Parkerizado: A caixa cinza-fosca não era uma escolha estética, mas técnica. O processo de parkerização (fosfatização) aumentava a resistência à corrosão e eliminava reflexos de luz que poderiam denunciar a posição do piloto a inimigos.
5. Diferença para o A-11: A maneira mais rápida de distinguir um A-17 de um A-11 num 'mercado de pulgas' é a pista de 24 horas. O A-11 geralmente possui apenas a escala de 12 horas, enquanto o A-17 possui a numeração interna de 13-24.
6. Crise da Waltham: Durante a produção deste modelo, a Waltham Watch Co. já estava em graves dificuldades financeiras, tendo declarado falência em 1949 e sendo reorganizada. O A-17 foi um dos últimos grandes suspiros de produção militar de alta qualidade da empresa antes de seu declínio final.
7. A Pulseira Original: Originalmente, estes relógios não vinham com couro de luxo, mas sim com pulseiras de peça única em lona de algodão verde-oliva ou nylon (precursoras das NATO straps), projetadas para manter o relógio no pulso mesmo se um pino de mola falhasse.