RESUMO
O IWC Portofino Hand-Wound, referência 5251, lançado em 1984, representa um marco iconoclasta na história da horologia moderna. Introduzido num período dominado pela "Crise do Quartzo" e pela preferência por relógios de pulso de dimensões reduzidas e perfis ultrafinos, o Ref. 5251 desafiou as convenções com a sua caixa maciça de 46 mm em ouro amarelo 18k. Este modelo não foi apenas o progenitor da elegante coleção Portofino, mas também uma declaração audaz da International Watch Company Schaffhausen sobre a perenidade da alta relojoaria mecânica. Conhecido carinhosamente pelos colecionadores como 'Spiegelei' (alemão para 'ovo frito') ou 'Giant Portofino', a sua arquitetura singular deriva diretamente da integração de um movimento de relógio de bolso Lépine numa caixa de pulso. A genialidade técnica reside na utilização do Calibre 9521, um movimento ultrafino originalmente concebido para relógios de bolso, que foi girado em 90 graus para adaptar a coroa à posição das 3 horas. Esta configuração resultou numa simetria dialética perfeita, com os pequenos segundos posicionados às 9 horas e a complicação da fase da lua às 3 horas, criando um equilíbrio visual que se tornou lendário. O 5251 é, portanto, um híbrido raro: um relógio de pulso com o coração e as dimensões de um relógio de bolso, preservando a elegância clássica numa escala monumental para a sua época.
HISTÓRIA
A história do IWC Portofino Ref. 5251 é intrínseca à resistência da relojoaria mecânica suíça durante os seus anos mais turbulentos. No início da década de 1980, enquanto a indústria sucumbia à precisão barata do quartzo, a IWC, sob a direção de Günter Blümlein e com o génio técnico de Kurt Klaus, procurava reafirmar o valor do artesanato tradicional. A génese deste modelo específico é muitas vezes atribuída a uma colaboração criativa entre o lendário relojoeiro chefe Kurt Klaus e o designer Hanno Burtscher.
A ideia central era audaciosa, senão arriscada: adaptar o venerável Calibre 95 — um movimento de relógio de bolso Lépine ultrafino que a IWC produzia desde a década de 1920 — para o uso no pulso. O Calibre 95 era uma obra-prima de apenas 3,2 mm de espessura, conhecida pela sua robustez e elegância arquitetónica. No entanto, a sua natureza 'Lépine' significava que, num relógio de bolso, a coroa estaria às 12 horas e os segundos às 6 horas. Para converter isto num relógio de pulso convencional (coroa às 3 horas), o movimento teve de ser rodado 90 graus. Esta rotação deslocou o submostrador de segundos para a posição das 9 horas. Para equilibrar esteticamente o mostrador, Klaus incorporou uma complicação de fase da lua na posição diametralmente oposta, às 3 horas. O resultado foi uma simetria horizontal perfeita, raramente vista em cronógrafos ou relógios de calendário da época.
O nome 'Portofino' foi escolhido para evocar o 'dolce far niente' e o estilo de vida luxuoso e descontraído da aldeia piscatória italiana frequentada pelo jet-set internacional. Contudo, o tamanho era o verdadeiro ponto de discórdia. Com 46 mm, o relógio era gigantesco para os padrões de 1984, onde os relógios masculinos de vestido raramente excediam os 34-36 mm. A luneta (bezel) do 5251 era incrivelmente fina, o que fazia o mostrador branco parecer ainda maior. Esta vasta extensão de branco, cercada por uma fina borda de ouro amarelo, deu origem à alcunha alemã 'Spiegelei' (Ovo Frito).
Longe de ser rejeitado, o 5251 tornou-se um clássico de culto instantâneo entre os conhecedores, antecipando a tendência de relógios grandes que dominaria a indústria duas décadas depois. Ele provou que um relógio grande poderia ser refinado e não apenas desportivo. O modelo permaneceu em produção limitada até meados da década de 1990, servindo como a âncora histórica para toda a família Portofino, que se tornaria uma das linhas mais bem-sucedidas e duradouras da IWC. O Ref. 5251 não é apenas um relógio; é um monumento à transição da IWC de fabricante de ferramentas utilitárias para uma 'Maison' de luxo focada na herança horológica.
CURIOSIDADES
- A alcunha 'Spiegelei' (Ovo Frito) deve-se à semelhança visual provocada pela caixa de ouro abaulada com um mostrador branco proeminente e uma luneta quase inexistente.
- O movimento Calibre 9521 utilizado é tecnicamente um movimento de relógio de bolso 'Lépine', o que dita a configuração horizontal incomum dos submostradores quando a coroa é posicionada às 3 horas.
- Apesar do seu diâmetro de 46 mm, o relógio é surpreendentemente fino (aprox. 10.5 mm) devido à arquitetura 'extra-flat' do calibre base, que tem raízes em projetos de 1927.
- O disco da fase da lua no Ref. 5251 é extremamente preciso para a época e foi cortado em ouro ou latão dourado, muitas vezes com um fundo azul profundo para imitar o céu noturno.
- Estima-se que a produção total do Ref. 5251 tenha sido muito baixa, na ordem das poucas centenas de unidades por ano, tornando-o altamente colecionável hoje.
- O design do mostrador, com algarismos romanos finos e ponteiros Breguet, foi inspirado diretamente nos relógios de bolso IWC do século XIX, ignorando as tendências de design dos anos 80.
- O vidro original é acrílico (plexiglass), o que confere um calor vintage e distorções laterais características que os colecionadores puristas valorizam sobre as substituições modernas de safira.