RESUMO
Nascido de uma encomenda real em 1932, o Pasha de Cartier representa um capítulo fundamental na história da relojoaria, sendo a primeira incursão séria da Maison na criação de um relógio resistente à água. Concebido para Thami El Glaoui, o Paxá de Marrakech, que desejava um relógio de ouro que pudesse acompanhá-lo em seus mergulhos diários, este modelo foi uma proeza técnica e estilística para a sua época. A sua filosofia de design, embora enraizada na funcionalidade, nunca abandonou a elegância intrínseca da Cartier. A solução encontrada – uma tampa de coroa aparafusada e presa por uma corrente – não só garantiu a estanqueidade como também se tornou a sua mais icónica assinatura visual. Muito antes da categoria de 'relógio desportivo de luxo' se consolidar, o Pasha original já personificava essa dualidade, combinando um metal precioso com uma robustez pensada para a ação. A sua importância transcende a peça única original; ela plantou a semente para o renascimento de 1985, quando o génio de Gérald Genta transformou esta lenda de arquivo numa coleção comercial de sucesso estrondoso. O Pasha é, portanto, mais do que um relógio; é um testemunho da capacidade da Cartier de inovar sob medida, criando designs que são simultaneamente funcionais, vanguardistas e eternamente elegantes, destinados a uma clientela que não vê fronteiras entre o luxo e a aventura.
HISTÓRIA
A génese do Pasha de Cartier é uma das mais célebres lendas da relojoaria, um conto que entrelaça realeza, inovação e design visionário. A história começa em 1932, quando Thami El Glaoui, o influente e abastado Paxá de Marrakech, fez um pedido singular a Louis Cartier. Figura de poder e apreciador do luxo, o Paxá desejava um relógio que não só refletisse o seu status, mas que também fosse robusto o suficiente para o acompanhar em seus banhos e natação. Naquela era, a resistência à água era um desafio técnico complexo, recentemente popularizado pelo Rolex Oyster de 1926. A Cartier, conhecida primariamente pelas suas criações de formato elegante como o Tank e o Santos, aceitou o desafio.
A solução desenvolvida pela Maison foi tão engenhosa quanto esteticamente audaciosa. Em vez de integrar a vedação diretamente na coroa, os engenheiros da Cartier criaram um sistema de 'coroa cantil' (canteen crown). Consistia numa tampa aparafusada que cobria a coroa de corda, selando-a hermeticamente contra a caixa. Para evitar a perda desta pequena mas crucial componente, ela foi presa ao corpo do relógio por uma delicada corrente, um detalhe que se tornaria a assinatura indelével do modelo. O relógio em si rompeu com a tradição da Cartier ao adotar uma caixa redonda, uma escolha pragmática para melhorar a vedação e que, ao mesmo tempo, conferia-lhe um ar desportivo e moderno. Esta peça única, feita em ouro, permaneceu como uma curiosidade histórica nos arquivos da marca por mais de cinco décadas, um protótipo de luxo funcional que estava muito à frente do seu tempo.
O verdadeiro lançamento comercial e a transformação do Pasha em ícone global ocorreram em 1985. Sob a liderança de Alain-Dominique Perrin, a Cartier decidiu revisitar esta história e criar uma nova linha de produtos. Para esta tarefa monumental, contrataram o lendário designer Gérald Genta, já famoso pelo Royal Oak e pelo Nautilus. Genta pegou nos elementos essenciais do original de 1932 – a caixa redonda, a coroa com corrente e os encaixes de pulseira 'Vendôme' – e reimaginou-os para o espírito extravagante dos anos 80. Ele introduziu o distintivo motivo 'quadrado no círculo' no mostrador, os quatro grandes numerais árabes e uma estética ousada e unissexo que capturou instantaneamente o imaginário coletivo. O sucesso foi imediato. Desde então, a coleção evoluiu com inúmeras variações, como o Pasha C em aço, o Pasha Seatimer de mergulho e, mais recentemente, o relançamento de 2020, que introduziu calibres de manufatura e inovações como os sistemas de troca rápida de pulseira QuickSwitch. No entanto, cada um destes relógios modernos carrega no seu ADN o espírito daquela peça pioneira de 1932, um relógio nascido do desejo de um Paxá de unir a elegância da Place Vendôme com a liberdade das águas de Marrakech.
CURIOSIDADES
A Lenda do Paxá: A encomenda original partiu de Thami El Glaoui, o Paxá de Marrakech, um dos homens mais ricos e poderosos do seu tempo, que necessitava de um relógio de ouro que pudesse usar na sua piscina.
Reinterpretação por Genta: A forma moderna e icónica do Pasha, lançada em 1985, foi desenhada pelo célebre Gérald Genta, a mesma mente por trás do Audemars Piguet Royal Oak e do Patek Philippe Nautilus.
A Grade Protetora: A peça original de 1932, e algumas reinterpretações posteriores, apresentavam uma grade metálica protetora sobre o cristal, um elemento de design funcional que evocava relógios militares e reforçava a sua natureza robusta.
Um Pioneiro do Luxo Desportivo: Embora fosse uma peça única, o relógio de 1932 é considerado por historiadores como um dos primeiríssimos exemplos de um relógio desportivo de luxo, combinando metal precioso com funcionalidade à prova de água décadas antes da categoria se popularizar.
O Círculo e o Quadrado: Um elemento de design chave introduzido por Genta na versão de 1985 é o 'quadrado no círculo' no mostrador, um jogo geométrico que se tornou uma assinatura visual da coleção.
Ícone dos Anos 80: Após o seu relançamento em 1985, o Pasha tornou-se um símbolo de status e estilo, adornando os pulsos de celebridades e ícones da moda como Sammy Davis Jr. e Valentino Garavani.
O Elo Oculto da Coroa: Na versão moderna, sob a tampa da coroa, há um pequeno espaço que pode ser gravado com iniciais, um detalhe discreto e personalizável conhecido pelos entusiastas da marca.