RESUMO
O Cartier Tank, lançado comercialmente em 1919, representa um dos momentos mais transformadores na história da relojoaria. Concebido durante os anos sombrios da Primeira Guerra Mundial, o seu design não foi um mero exercício estético, mas uma reinterpretação radical do que um relógio de pulso poderia ser. A sua inspiração, a vista aérea dos tanques Renault FT-17, rompeu com as formas redondas herdadas dos relógios de bolso, propondo uma geometria pura e uma integração arquitetónica entre a caixa e a pulseira. Este relógio não se destinava a um nicho específico como a aviação ou o mergulho; foi criado como o derradeiro relógio de vestir para o cavalheiro e a dama modernos, um símbolo de sofisticação e vanguarda. A sua filosofia de design reside na clareza, com um mostrador legível e uma forma que privilegia a harmonia sobre a ornamentação. A inovação das 'brancards' – as hastes laterais que servem de asas e encaixes da pulseira – criou uma silhueta contínua e elegante que se ajusta perfeitamente ao pulso. O Tank transcendeu a sua função de cronometrista para se tornar um ícone cultural e um pilar do movimento Art Déco, solidificando o relógio de pulso como um acessório de estilo indispensável e demonstrando o génio de Louis Cartier em fundir funcionalidade, arte e história num objeto atemporal.
HISTÓRIA
A génese do Cartier Tank é uma lenda da relojoaria, nascida da visão de Louis Cartier em 1917. Em plena Primeira Guerra Mundial, Cartier inspirou-se nas linhas dos novos tanques Renault FT-17, cuja vista aérea apresentava um design revolucionário: duas secções laterais (as lagartas) a flanquear um compartimento central (a torre). Esta imagem de poder e geometria deu origem ao conceito do Tank. As lagartas transformaram-se nas 'brancards', as icónicas barras verticais que formam os lados da caixa e se estendem para se tornarem nos encaixes da pulseira. A torre tornou-se a caixa quadrada onde residem o mostrador e o movimento. Esta integração foi uma proeza de design, eliminando a prática comum da época de simplesmente soldar asas rudimentares a caixas de relógios de bolso adaptadas. O resultado foi uma forma coesa, elegante e ergonomicamente superior.
Os primeiros protótipos foram criados em 1917, e a história conta que um deles foi presenteado ao General americano John J. Pershing em 1918 como símbolo da vitória aliada. O lançamento comercial ocorreu em 1919, com uma produção extremamente limitada de apenas seis exemplares, tornando os modelos originais artefactos de uma raridade quase mítica. O design do Tank foi um sucesso imediato, capturando perfeitamente o espírito do tempo. As suas linhas limpas, a sua simetria e a sua elegância funcional alinhavam-se com a emergente estética Art Déco, que rejeitava a opulência ornamental da Belle Époque em favor da geometria e da modernidade. O relógio tornou-se rapidamente o favorito de aristocratas, artistas e intelectuais.
Este modelo original, hoje retroativamente apelidado de 'Tank Normale' pelos colecionadores para o distinguir das suas inúmeras sucessoras, estabeleceu o ADN de toda uma dinastia de relógios. A sua caixa quase quadrada, o mostrador com numerais romanos, a escala de minutos 'chemin de fer' e a coroa com uma safira cabochão tornaram-se assinaturas da Cartier. Embora o design tenha evoluído para variações como o alongado Cintrée (1921), o assimétrico Asymétrique (1936), e mais tarde o Française e o Américaine, todos eles partilham a mesma filosofia fundamental estabelecida em 1919. O impacto do Tank original na indústria foi profundo; provou que um relógio de pulso podia ser simultaneamente uma ferramenta funcional e um objeto de design de alta costura, cimentando o estatuto da Cartier não apenas como joalheiro, mas como um relojoeiro visionário cujo legado perdura inalterado há mais de um século.
CURIOSIDADES
O primeiro protótipo foi oferecido ao General John J. Pershing, comandante das Forças Expedicionárias Americanas, em 1918, um ano antes do seu lançamento comercial.
O ator Rudolph Valentino insistiu em usar o seu próprio Tank no filme 'O Filho do Sheik' (1926), contra a vontade do estúdio, sendo um dos primeiros e mais importantes 'product placements' da história do cinema.
Andy Warhol, um ícone da Pop Art, era um famoso proprietário de um Tank e afirmou célebremente: 'Eu não uso um Tank para ver as horas. Na verdade, nunca lhe dou corda. Eu uso um Tank porque é o relógio que se deve usar.'
A produção inicial foi incrivelmente exclusiva. Em 1919, apenas seis relógios Tank foram produzidos e vendidos, aumentando exponencialmente o seu valor e mística entre os colecionadores.
Os primeiros modelos são hoje conhecidos pela alcunha 'Tank Normale' para os diferenciar das variações retangulares e curvas que se seguiram, como o Tank Cintrée.
A coroa de corda adornada com uma safira cabochão não é apenas um detalhe estético; é uma assinatura histórica da Cartier, ligando o relógio à sua herança como 'Joalheiro dos Reis e Rei dos Joalheiros'.
Nos mostradores dos primeiros Tanks, era comum encontrar a assinatura 'Cartier' e, por vezes, 'France' na posição das seis horas, em vez do 'Swiss Made' que se tornaria padrão décadas mais tarde.