RESUMO
Numa era em que a sofisticação era sinónimo de discrição, o Universal Genève Extra-flat Ref. 104601 de 1957 emergiu como um arquétipo da elegância relojoeira. Posicionado firmemente no segmento de 'dress watches' de luxo, este modelo não foi concebido para as profundezas do oceano ou para os cockpits de aviões, mas sim para os salões de reuniões e os eventos de gala. A sua filosofia de design era de um minimalismo absoluto, uma celebração da forma pura onde cada elemento desnecessário era eliminado. O objetivo era um: alcançar a espessura mínima possível sem comprometer a fiabilidade ou a beleza. Este relógio é de uma importância crucial na cronologia da Universal Genève, pois representa o auge da sua mestria em movimentos manuais ultrafinos, estabelecendo a base estética e técnica para a subsequente e mais famosa linha 'Golden Shadow' com movimento automático Microtor. Mais do que um simples relógio, o Ref. 104601 era uma declaração de bom gosto, destinado a um cavalheiro que valorizava a engenharia sublime e o design intemporal acima da ostentação. É o verdadeiro precursor da obsessão da marca pela magreza, um capítulo essencial que solidificou a reputação da UG como mestre da elegância subestimada.
HISTÓRIA
A história do Universal Genève Extra-flat Ref. 104601 é um reflexo direto do zeitgeist da década de 1950. Com o mundo a emergir da austeridade do pós-guerra, uma nova onda de prosperidade trouxe consigo um apetite por luxo refinado e elegância clássica. No universo da relojoaria, isto traduziu-se numa acirrada competição entre as mais prestigiadas 'maisons' suíças para criar o relógio mecânico mais fino do mundo. Enquanto marcas como Piaget e Vacheron Constantin se tornavam famosas pelos seus feitos nesta área, a Universal Genève, já celebrada pelos seus complexos cronógrafos da série Compax, demonstrou a sua imensa versatilidade ao mergulhar de cabeça nesta corrida pela magreza. O Ref. 104601 não surgiu do vácuo; foi a culminação de décadas de aperfeiçoamento em movimentos compactos. O coração desta peça, o Calibre 42, era uma obra-prima de engenharia minimalista. Desenvolvido internamente, este movimento de corda manual foi concebido com um único propósito: ser excecionalmente fino sem sacrificar a robustez e a precisão. A sua arquitetura permitiu à Universal Genève criar caixas de uma delgadez notável, que pareciam flutuar no pulso. O design do 104601 é um estudo em contenção. A caixa, esculpida em ouro maciço, serve como uma moldura discreta para o verdadeiro protagonista: o mostrador. Com uma clareza quase Bauhaus, o mostrador apresenta apenas os elementos essenciais. Índices de ouro aplicados, ponteiros finos e a assinatura 'Universal Genève' são, muitas vezes, as únicas marcações presentes. Esta pureza de design não era apenas uma escolha estética, mas uma declaração de confiança na qualidade do objeto. Ao longo da sua produção, existiram subtis variações, principalmente no material da caixa (ouro amarelo vs. rosa) e nos estilos dos índices, que são hoje avidamente procuradas por colecionadores. Contudo, o modelo manteve-se fiel à sua filosofia central. A sua importância histórica é imensa, pois serve de ponte entre duas grandes eras da Universal Genève. Representa o apogeu dos seus 'dress watches' de corda manual, ao mesmo tempo que estabelece o ADN de design que seria herdado pela revolucionária linha 'Shadow', lançada em 1966 e equipada com o famoso calibre automático com Microtor. O Extra-flat manual, como o 104601, foi o precursor silencioso, o patriarca que ensinou à sua descendência automática o significado de verdadeira elegância e perfil esguio. Hoje, este modelo é um testemunho de uma época em que a Universal Genève ombreava com os gigantes da indústria, um lembrete do seu legado como mestre incontestável da forma e da função.
CURIOSIDADES
O Calibre 42, apesar da sua espessura de apenas 2.5mm, era conhecido pela sua fiabilidade, um feito de engenharia que desmentia a sua aparência delicada.
Colecionadores frequentemente referem-se a estes modelos manuais como 'Proto-Shadows', reconhecendo-os como os antepassados diretos da famosa linha automática ultrafina 'Golden Shadow'.
A pureza do design era tal que muitos mostradores apresentavam apenas a assinatura da marca, omitindo textos como 'Swiss Made' ou 'Extra-flat' para uma estética ainda mais limpa.
Ao contrário dos cronógrafos da marca, favorecidos por pilotos e celebridades, o Extra-flat era a escolha do cavalheiro discreto, raramente fotografado ou documentado, tornando-o um segredo bem guardado entre conhecedores.
Numa avaliação, o estado de conservação é tudo. Uma caixa não polida com as suas arestas originais e um mostrador imaculado são considerados o 'santo graal' e podem valorizar o relógio exponencialmente.
A produção destes relógios exigia relojoeiros altamente qualificados, pois a montagem de componentes tão finos era um processo artesanal e meticuloso.
Apesar de ser um relógio de tempo apenas, a sua simplicidade é a sua maior complicação; criar um objeto tão perfeitamente equilibrado e fino é, em si, um feito técnico complexo.