RESUMO
O Blancpain Fifty Fathoms MIL-SPEC 1, consolidado por volta de 1957, representa um dos momentos mais transcendentais na história da relojoaria de mergulho. Embora o Fifty Fathoms original tenha sido lançado em 1953 como o primeiro relógio de mergulho moderno, o modelo MIL-SPEC 1 (Military Specification) elevou o arquétipo a um novo patamar de rigor técnico e segurança operacional. Desenvolvido sob a égide do CEO Jean-Jacques Fiechter e influenciado diretamente pelas exigências draconianas da Marinha dos Estados Unidos (US Navy), este modelo distingue-se visual e funcionalmente pela introdução de um indicador de umidade circular na posição das 6 horas. Esta inovação não era meramente estética, mas um requisito de segurança vital para os mergulhadores de combate: uma pastilha quimicamente tratada que mudava de cor ao detectar a intrusão de água, alertando o operador antes que a integridade do movimento fosse catastroficamente comprometida. O MIL-SPEC 1 serviu como o elo de transição crucial entre os primeiros modelos civis/militares franceses e os relógios estritamente emitidos para as forças armadas americanas (como o futuro Tornek-Rayville), solidificando a reputação da Blancpain como a fornecedora suprema de instrumentos de sobrevivência subaquática em meados do século XX.
HISTÓRIA
A história do Blancpain Fifty Fathoms MIL-SPEC 1 é intrinsecamente ligada à geopolítica da Guerra Fria e à evolução do mergulho autônomo de combate. Após o lançamento bem-sucedido do Fifty Fathoms original em 1953, encomendado pelos capitães franceses Robert 'Bob' Maloubier e Claude Riffaud para a unidade de Nageurs de Combat, a Blancpain buscou expandir sua supremacia técnica para a maior força naval do mundo: a Marinha dos Estados Unidos.
Em meados da década de 1950, a Marinha dos EUA estava em busca de um relógio de mergulho que pudesse suportar as punições das missões da UDT (Underwater Demolition Team) e dos precursores dos Navy SEALs. Os testes americanos eram notoriamente brutais, rejeitando inúmeros relógios domésticos e suíços que falhavam sob pressão, magnetismo ou impacto. Uma exigência específica emergiu dos relatórios de campo: a necessidade de saber se a vedação do relógio havia sido comprometida antes de iniciar uma missão ou durante o armazenamento. Um relógio com infiltração imperceptível poderia parar durante um mergulho cronometrado, o que seria fatal para mergulhadores operando com oxigênio puro e tempos de fundo estritos.
Jean-Jacques Fiechter, CEO da Blancpain e mergulhador apaixonado, respondeu a esse desafio em 1957/58 com a introdução do sistema de detecção de umidade. A solução foi engenhosamente simples, mas vital: um pequeno disco de papel tratado com cloreto de cobalto ou composto similar foi inserido no mostrador. Se a umidade relativa dentro da caixa ultrapassasse um nível crítico, o disco mudava de cor (geralmente de branco/azul para um rosa/vermelho vívido), sinalizando que o relógio precisava de manutenção imediata.
Para comercializar esses relógios nos EUA e contornar a legislação protecionista 'Buy American Act', a Blancpain trabalhou com Allen Tornek, um importador de diamantes de Nova York. O modelo resultante, estampado com 'MIL-SPEC 1' no mostrador, tornou-se o padrão ouro. Ele não apenas atendeu às especificações MIL-W-22176A, mas as definiu. Este modelo de 1957 é considerado o 'pai' do lendário Tornek-Rayville TR-900 (uma versão posterior com acabamento fosco e mudanças nos rubis para reduzir taxas de importação). O MIL-SPEC 1 de 1957 é, portanto, o artefato histórico que prova a superioridade técnica da Blancpain sobre todos os concorrentes da época, sendo o único relógio a passar em todos os testes da Marinha dos EUA com distinção, solidificando o Fifty Fathoms não como uma joia, mas como uma ferramenta de guerra indispensável.
CURIOSIDADES
O indicador de umidade (pastilha) era uma exigência tão específica da Marinha dos EUA que a Blancpain foi a única fabricante a implementá-la em série na época, tornando-se uma assinatura visual exclusiva da marca.
O nome 'Fifty Fathoms' refere-se à profundidade considerada o limite de segurança para mergulhadores com ar comprimido na década de 1950 (50 braças = 91,45 metros).
Para evitar a violação da patente da Rolex sobre a coroa rosqueada, a Blancpain desenvolveu um sistema de vedação com anéis duplos (O-ring) na coroa que garantia a estanqueidade mesmo se a coroa fosse puxada acidentalmente debaixo d'água.
Este modelo foi amplamente utilizado não apenas pelos militares americanos, mas também por mergulhadores civis de elite e exploradores oceanográficos, incluindo membros da equipe de Jacques Cousteau.
Devido aos materiais radioativos usados na luminescência original (Rádio e posteriormente Promécio-147), muitos mostradores originais do MIL-SPEC 1 apresentam hoje uma pátina intensa e requerem manuseio cuidadoso por restauradores.
Allen Tornek, o importador americano, convenceu a Blancpain a estampar 'Rayville' (um anagrama fonético de Villeret, cidade sede da marca) nos movimentos para facilitar a importação.
Estima-se que a sobrevivência de modelos MIL-SPEC 1 originais em bom estado seja extremamente baixa, pois a maioria foi usada como ferramenta até a destruição total em operações militares.