RESUMO
O Blancpain Léman Flyback Chronograph, referência 2185F, lançado em meados da década de 1990 (cerca de 1996), representa um ponto de inflexão crucial na história da relojoaria moderna. Sob a liderança visionária de Jean-Claude Biver, a Blancpain já havia ressuscitado a arte da relojoaria mecânica tradicional, mas o 2185F marcou a transição da marca para o território do 'sport-chic' de luxo. Este modelo não foi apenas um exercício estético, mas uma proeza técnica: foi um dos primeiros relógios civis a trazer a complicação 'Flyback' (ou Retour-en-vol) — historicamente reservada a pilotos militares — para um cronógrafo automático de produção regular e acabamento de alta relojoaria.
No coração desta peça bate o lendário Calibre F185, derivado do Frédéric Piguet 1185, aclamado por ser o cronógrafo automático mais fino do mundo na época e por sua construção superior com roda de colunas e embreagem vertical. Com sua caixa de 38mm de duplo degrau (double-stepped bezel), mostrador de inspiração militar e a icônica pulseira X-71 (em versões de metal), o Léman Flyback equilibrou perfeitamente a robustez necessária para o uso diário com a elegância exigida pelo traje formal. Ele definiu o arquétipo do cronógrafo de luxo contemporâneo, provando que um relógio esportivo poderia possuir a mesma complexidade e refinamento que um calendário perpétuo clássico.
HISTÓRIA
A história do Blancpain Léman Flyback Chronograph, Ref. 2185F, está intrinsecamente ligada ao renascimento da relojoaria suíça pós-crise do quartzo e à consolidação da Blancpain como uma manufatura de elite. Em 1996, a indústria ainda estava tateando o conceito de 'luxo esportivo'. A maioria dos cronógrafos no mercado utilizava movimentos modulares (como a base ETA com módulo Dubois Dépraz) ou o robusto, porém utilitário, Valjoux 7750. A Blancpain, tendo declarado que 'nunca faria um relógio de quartzo', precisava de uma declaração de força no segmento esportivo que mantivesse o DNA da alta relojoaria.
A resposta foi a introdução da linha Léman (inicialmente conhecida como Série 2100), projetada para ser mais robusta que a linha clássica Villeret, mas mais versátil que a linha de mergulho Fifty Fathoms. O modelo 2185F foi a joia da coroa desta nova direção. A escolha da complicação Flyback foi estratégica. Historicamente, a função 'Retour-en-vol' era uma exigência militar para pilotos que precisavam reiniciar cronometragens de navegação instantaneamente sem perder segundos preciosos parando, zerando e reiniciando o mecanismo. Ao implementar isso em um relógio de luxo, a Blancpain elevou a funcionalidade técnica a uma forma de arte.
O grande trunfo do 2185F foi, sem dúvida, o seu motor: o Calibre F185. Produzido pela Frédéric Piguet (que na época operava quase como uma manufatura interna para a Blancpain antes de ser totalmente absorvida), este movimento é amplamente considerado um dos melhores calibres de cronógrafo automático já feitos. Sua arquitetura de embreagem vertical garantia que o ponteiro dos segundos do cronógrafo partisse suavemente, sem o 'salto' característico dos cronógrafos de acoplamento lateral. Além disso, com apenas 5,5mm de espessura, o movimento permitiu que o relógio mantivesse um perfil elegante de menos de 12mm, algo inaudito para cronógrafos esportivos da época, que tendiam a ser volumosos.
Esteticamente, o relógio era inconfundível. A caixa apresentava um bisel de degrau duplo e flancos arredondados, gravados com a assinatura 'Blancpain' na lateral. Os botões do cronógrafo eram rosqueados para garantir a resistência à água de 100 metros, mas desenhados de forma a parecerem botões de pistão clássicos. O mostrador, com seus numerais árabes em fonte militar e ponteiros em forma de espada esqueletizados (sword hands), oferecia legibilidade suprema.
Durante o final dos anos 90 e início dos anos 2000, o 2185F tornou-se um símbolo de status de 'conhecedor'. Enquanto o Rolex Daytona da época ainda lutava com longas listas de espera e transição de movimentos, o Blancpain oferecia uma complicação superior e um acabamento manual de nível de alta relojoaria. O modelo solidificou a reputação da Blancpain não apenas como uma guardiã da tradição, mas como uma inovadora técnica capaz de produzir relógios ferramentas com alma nobre.
CURIOSIDADES
• O 'Relógio do Putin': O Blancpain Léman Flyback ganhou notoriedade acidental na cultura pop e política por ser o relógio de uso diário favorito do presidente russo Vladimir Putin por muitos anos, aparecendo em inúmeras fotos oficiais.
• O Primeiro Flyback Feminino: Graças à compactação excepcional do Calibre F185, a Blancpain conseguiu lançar o primeiro cronógrafo Flyback do mundo especificamente direcionado para o público feminino em 1998.
• A Conexão F. Piguet: O movimento F185 é tão respeitado que, além da Blancpain, ele foi a base para cronógrafos de outras gigantes da Alta Relojoaria, incluindo a Vacheron Constantin (no Overseas) e a Audemars Piguet (no Royal Oak Chronograph), embora a versão da Blancpain seja a única a popularizar o módulo Flyback.
• A Pulseira X-71: Muitos colecionadores consideram a pulseira de aço 'X-71' que equipava este modelo como uma das mais confortáveis e bem construídas da história, possuindo um sistema de molas internas nos links para expansão térmica.
• O Nome no Mostrador: Diferente da maioria dos cronógrafos que apenas exibem a marca, o 2185F ostenta orgulhosamente a inscrição 'FLYBACK' em letras vermelhas (em muitas variantes) no mostrador, educando o público sobre sua complicação rara.
• Dimensões Neo-Vintage: Com 38mm de diâmetro, o relógio é hoje considerado o 'sweet spot' (tamanho ideal) para colecionadores de peças neo-vintage, contrastando com os relógios de 42-45mm que dominaram a década seguinte.
• O Detalhe do Calendário: A janela de data situada às 6 horas foi desenhada para não cortar nenhum numeral ou sub-mostrador, uma atenção à simetria que é frequentemente negligenciada em cronógrafos modulares.