RESUMO
Em 1969, no auge de uma das corridas tecnológicas mais intensas da história da relojoaria, a Hamilton apresentou o Chrono-Matic, um relógio que não era apenas um cronógrafo, mas um manifesto de inovação e design audacioso. Nascido da colaboração secreta do consórcio 'Project 99' — que uniu a Hamilton-Buren, Heuer-Leonidas, Breitling e Dubois-Depraz — o Chrono-Matic foi um dos primeiros cronógrafos automáticos do mundo a chegar ao mercado. A sua importância reside não apenas na sua primazia, mas na sua abordagem engenhosa: uma arquitetura modular que combinava o fiável movimento de micro-rotor da Buren com um módulo de cronógrafo da Dubois-Depraz. Esta solução técnica ditou a sua característica mais icónica e disruptiva: a coroa de corda posicionada à esquerda da caixa. A Hamilton transformou esta necessidade de engenharia num poderoso argumento de marketing, sugerindo que um relógio automático não necessitava de corda manual frequente, libertando assim o lado direito para os botões do cronógrafo. Posicionado para um público moderno e vanguardista, que apreciava tanto a proeza técnica como o estilo arrojado da era espacial, o Chrono-Matic destacou-se com as suas caixas em formato de almofada ou elípticas e mostradores vibrantes. Ele não era apenas um instrumento, mas uma afirmação de futuro, cimentando o lugar da Hamilton no panteão dos grandes inovadores do século XX.
HISTÓRIA
A história do Hamilton Chrono-Matic é inseparável da lendária corrida para criar o primeiro calibre de cronógrafo automático do mundo, um 'Santo Graal' da relojoaria no final dos anos 60. Enquanto a Zenith trabalhava secretamente no seu calibre integrado 'El Primero' e a Seiko desenvolvia o seu '6139' no Japão, uma aliança estratégica formava-se na Suíça. Sob o nome de código 'Project 99', quatro potências uniram forças: a Heuer-Leonidas e a Breitling, rivais mas mestres do cronógrafo; a Dubois-Depraz, especialista em módulos de complicações; e a Hamilton-Buren, cuja aquisição da Buren em 1966 deu ao consórcio acesso exclusivo à patente do movimento automático ultrafino com micro-rotor. Esta colaboração foi uma jogada de mestre em pragmatismo industrial. Em vez de desenvolver um movimento totalmente novo e integrado a partir do zero — um processo demorado e dispendioso — o consórcio optou por uma solução modular. Pegaram no comprovado calibre Buren 1281 e acoplaram-lhe um módulo de cronógrafo Dubois-Depraz 8510. Esta arquitetura ditou a característica mais distintiva do Calibre 11: a coroa de corda à esquerda e os botões do cronógrafo à direita. A apresentação oficial ocorreu a 3 de março de 1969, em conferências de imprensa simultâneas em Genebra e Nova Iorque, gerando um enorme impacto na indústria. A Hamilton, com a sua forte herança americana mas agora com produção suíça, lançou uma série de modelos arrojados que encapsulavam o espírito da época. O mais icónico é, sem dúvida, o Chrono-Matic 'Fontainebleau' (Ref. 11001-3), com a sua colossal caixa elíptica que parecia saída de um filme de ficção científica. Outros modelos notáveis incluíram o Chrono-Matic A (Ref. 11002-3) e B (Ref. 11004-3) com caixas em formato de almofada, muitas vezes com mostradores de alto contraste 'panda' ou 'panda invertido'. O Calibre 11 original teve uma produção relativamente curta, pois a engenharia do consórcio trabalhou rapidamente para refinar o seu design. Foi sucedido pelo Calibre 11-I (com um pinhão oscilante melhorado) e, mais tarde, pelo Calibre 12, que aumentou a frequência para 21.600 vph para maior precisão. Surgiu também o Calibre 15, uma variante mais económica que substituiu o contador de 12 horas por um pequeno ponteiro de segundos contínuos. O legado do Chrono-Matic e do seu movimento transcende a própria Hamilton; o Calibre 11 e os seus descendentes equiparam alguns dos relógios mais famosos da história, incluindo o Heuer Monaco, o Autavia e o Carrera. Para a Hamilton, o Chrono-Matic representou o auge da sua transição para um inovador suíço, solidificando a sua reputação numa nova era e deixando uma marca indelével na cronometragem desportiva.
CURIOSIDADES
O nome 'Chrono-Matic' é uma contração de 'Chronograph' e 'Automatic', um nome simples e direto que o consórcio registou para sublinhar a sua inovação.
A famosa coroa à esquerda não foi apenas uma necessidade técnica, mas uma genialidade de marketing. A mensagem era clara: 'Este relógio é tão avançado que já não precisa de lhe dar corda'.
O Calibre 11 equipou relógios de três marcas distintas (Hamilton, Heuer, Breitling) no seu lançamento, cada uma com os seus próprios designs de caixa e mostrador, criando uma diversidade fascinante para os colecionadores.
O modelo Hamilton Pan Europ de 1971, um dos designs mais duradouros da marca, foi um dos últimos e mais famosos relógios a ser equipado com o Calibre 11, tornando-se um ícone de estilo dos anos 70.
Apesar da rivalidade, Jack Heuer (da Heuer) e Willy Breitling (da Breitling) concordaram em partilhar os custos de desenvolvimento, reconhecendo que a tarefa era demasiado grande para uma única empresa enfrentar sozinha.
O micro-rotor, a tecnologia-chave da Buren, permitiu que o movimento base fosse excecionalmente fino, compensando a espessura adicional do módulo do cronógrafo e mantendo o relógio com uma espessura usável.
Devido à sua importância histórica e design arrojado, os modelos Hamilton Chrono-Matic originais de 1969-1971 são altamente procurados por colecionadores, representando um capítulo crucial na evolução do relógio de pulso.