RESUMO
Lançado em 1994, o IWC Fliegerchronograph Keramik, referência 3705, representa um marco seminal na horologia moderna como o primeiro cronógrafo de piloto da International Watch Company fabricado com uma caixa de cerâmica de óxido de zircônio (ZrO2). Desenvolvido sob a égide visionária de Günter Blümlein, o Ref. 3705 foi lançado simultaneamente ao seu homólogo em aço inoxidável, o Ref. 3706, mas distinguiu-se por sua estética furtiva e material de vanguarda. Apesar de sua inovação técnica, o modelo foi inicialmente um fracasso comercial, prejudicado por um custo de varejo significativamente mais elevado (aproximadamente 50% superior ao modelo em aço) e pelo ceticismo do mercado quanto à durabilidade da cerâmica, resultando em uma produção extremamente limitada de menos de quatro anos. Equipado com o calibre IWC 7902 (base Valjoux 7750 altamente modificado), o relógio apresenta um mostrador preto fosco utilitário com índices de trítio que, ao longo das décadas, adquirem uma pátina desejável. Hoje, o 'Black Flieger' é reverenciado como um clássico 'neo-vintage', cuja raridade e importância histórica culminaram na reedição 'Tribute to 3705' em 2021, validando postumamente a sua ousadia original.
HISTÓRIA
A gênese do IWC Ref. 3705 remonta ao início da década de 1990, um período de renascimento para a relojoaria mecânica após a Crise do Quartzo. A IWC, sediada em Schaffhausen, já possuía experiência com cerâmica através do modelo Da Vinci de 1986, mas a aplicação deste material frágil e difícil de usinar em um cronógrafo de ferramenta robusto (Flieger) apresentava desafios de engenharia inéditos. O processo envolvia a sinterização de pó de óxido de zircônio a temperaturas extremamente elevadas e, em seguida, a usinagem dos brutos com ferramentas de diamante, um processo dispendioso que justificava o prêmio de preço do modelo.
Lançado na Feira de Basel de 1994, o 3705 não foi desenhado para ser um item de luxo ostensivo, mas sim uma ferramenta técnica superior, leve e resistente a riscos. No entanto, o mercado da época não estava preparado para a dicotomia de um relógio 'de plástico' (na percepção leiga, devido à leveza e temperatura da cerâmica) com um preço de alta relojoaria. Enquanto o modelo de aço (Ref. 3706) se tornou um best-seller imediato, definindo a estética dos relógios de piloto da IWC por décadas, o 3705 permaneceu nas vitrines.
A produção foi encerrada silenciosamente por volta de 1998. Estima-se que apenas cerca de 1.000 unidades (algumas fontes sugerem até 2.000, mas o consenso acadêmico para o mercado atual tende para o número mais baixo) foram fabricadas, tornando-o um dos cronógrafos de produção regular mais raros da era Blümlein. Durante quase duas décadas, o modelo permaneceu uma nota de rodapé obscura. Sua ressurreição como ícone cult ocorreu em meados da década de 2010, impulsionada pelo crescente interesse em relógios 'neo-vintage' e pela validação de casas de leilão e especialistas que reconheceram a precocidade do design. A combinação do tamanho contido de 39mm, a pátina quente do trítio envelhecido contra a caixa preta imaculada e a sua raridade transformaram o que era considerado uma falha comercial em um dos modelos mais cobiçados da história da IWC.
CURIOSIDADES
1. O Contraste dos Materiais: A IWC optou deliberadamente por não revestir a coroa, os botões e o fundo da caixa em preto, mantendo-os em aço inoxidável natural, criando um contraste visual distintivo que define a identidade do modelo.
2. Lume de Trítio: Diferente das reedições modernas que usam Super-LumiNova, o 3705 original utilizava Trítio. A degradação radioativa deste material faz com que os marcadores e ponteiros envelheçam para um tom creme ou 'abóbora', altamente valorizado por colecionadores.
3. Mito da Fragilidade: Embora a cerâmica de óxido de zircônio seja virtualmente à prova de riscos, ela possui baixa ductilidade. Existem relatos históricos de caixas que se estilhaçaram ou quebraram as garras (lugs) ao cair em superfícies duras, contribuindo para a redução dos exemplares sobreviventes em estado perfeito.
4. O Predecessor Esquecido: Embora o 3705 seja o primeiro Flieger cerâmico, a IWC foi pioneira no uso de cerâmica colorida anos antes, mas a aplicação em um relógio militar utilitário foi considerada um risco vanguardista para a época.
5. Validação em Leilão: Um exemplar pessoal do ex-diretor da IWC foi leiloado pela Phillips, atingindo valores que ultrapassaram em muitas vezes as estimativas iniciais, consolidando o status de 'Graal' do modelo.
6. Número de Produção Incerto: A IWC nunca publicou números oficiais exatos de produção para o 3705, alimentando debates contínuos em fóruns horológicos, com estimativas variando entre 999 e 2.000 peças totais.
7. Diferenças de Calibre: Durante o curto período de produção, o movimento base Valjoux 7750 evoluiu dentro da nomenclatura da IWC, passando de 7902 para 7912, com pequenas alterações nos acabamentos e na arquitetura do rotor.