RESUMO
O Longines LCD Ref. 4501, lançado em 1972, representa um marco sísmico na história da horologia suíça, simbolizando a resposta corajosa de uma manufatura tradicional à emergente 'Crise do Quartzo'. Distinguindo-se como o primeiro relógio de pulso totalmente digital da marca, esta peça foi o fruto de uma colaboração estratégica e tecnológica sem precedentes entre a Longines, a Ebauches SA e a gigante tecnológica norte-americana Texas Instruments. Enquanto o mundo assistia ao surgimento dos LEDs (Diodos Emissores de Luz), que exigiam o acionamento de um botão para visualizar as horas devido ao alto consumo de energia, a Longines apostou na tecnologia de Cristal Líquido (LCD) em Modo de Dispersão Dinâmica (DSM). Este relógio não era apenas um instrumento de medição do tempo, mas uma declaração de modernidade 'Space Age', encapsulada em um design retangular robusto e futurista. Embora a tecnologia DSM fosse efêmera e logo substituída, o Ref. 4501 permanece como um artefato raro de uma era de transição, onde a alta relojoaria mecânica e a microeletrônica de ponta colidiram, redefinindo para sempre o conceito de leitura do tempo no pulso.
HISTÓRIA
A história do Longines LCD Ref. 4501 é inseparável do contexto turbulento do início da década de 1970, um período conhecido como a Crise (ou Revolução) do Quartzo. Após o lançamento do Seiko Astron em 1969 e do consórcio suíço Beta 21, a corrida para miniaturizar a precisão eletrônica estava em seu auge. No entanto, havia uma bifurcação tecnológica clara: os relógios LED (como o Hamilton Pulsar), que brilhavam vermelho mas drenavam a bateria rapidamente, e a tecnologia nascente de LCD (Liquid Crystal Display), que prometia uma exibição constante do tempo.
A Longines, sediada em Saint-Imier e historicamente conhecida por seus cronógrafos e precisão no campo da aviação, não podia ignorar a mudança de paradigma. Em uma jogada ousada, a marca buscou parcerias fora do círculo tradicional da relojoaria. Uniu forças com a Ebauches SA (precursora da atual ETA) para a mecânica do movimento de quartzo e, crucialmente, com a Texas Instruments (TI), líder em semicondutores nos EUA, para desenvolver o circuito integrado e o painel de exibição.
O resultado, materializado em 1972 no Ref. 4501, utilizava a tecnologia DSM (Dynamic Scattering Mode). Diferente dos LCDs modernos (TN - Twisted Nematic) que mostram dígitos pretos sobre fundo claro, o DSM funcionava criando turbulência nos cristais líquidos quando uma voltagem era aplicada. Isso fazia com que os dígitos parecessem prateados, fantasmagóricos e reflexivos contra um fundo espelhado. Era uma tecnologia visualmente impressionante, mas tecnicamente temperamental; exigia voltagem mais alta que os LCDs modernos e tinha um ângulo de visão restrito, além de uma vida útil do display relativamente curta devido à instabilidade química dos cristais da época.
O lançamento do Ref. 4501 posicionou a Longines na vanguarda da 'Era Espacial'. O design da caixa refletia a estética brutalista e futurista dos anos 70, abandonando os ponteiros tradicionais por uma leitura puramente numérica. O relógio foi comercializado como um produto de luxo de alta tecnologia, com um preço que, na época, rivalizava ou superava muitos cronógrafos mecânicos de ouro. No entanto, a evolução digital foi impiedosa. Por volta de 1973/1974, a tecnologia TN-LCD (campo torcido) provou ser superior em contraste e eficiência energética, tornando o sistema DSM obsoleto quase instantaneamente. Consequentemente, a produção do Ref. 4501 foi limitada, fazendo com que os exemplares sobreviventes hoje — especialmente aqueles com o mostrador DSM funcional — sejam extremamente raros e cobiçados por colecionadores de 'early quartz'. Este modelo não é apenas um relógio; é um testemunho físico do momento exato em que a relojoaria suíça abraçou o silício.
CURIOSIDADES
1. O display DSM (Dynamic Scattering Mode) criava um efeito visual único onde os números pareciam flutuar como 'fumaça prateada' dentro do mostrador, um efeito impossível de replicar com LCDs modernos.
2. A Texas Instruments, parceira no projeto, abandonaria o mercado de relógios de luxo poucos anos depois para focar em calculadoras e relógios de plástico de baixo custo, tornando esta colaboração 'High-End' um evento singular.
3. Devido à instabilidade química dos primeiros cristais líquidos DSM, muitos mostradores originais degradaram-se completamente, tornando exemplares funcionais extremamente valiosos no mercado de leilões.
4. O Ref. 4501 foi um dos poucos relógios da época a ostentar o nome da marca 'Longines' juntamente com a designação 'Quartz' em destaque, algo que as marcas de luxo pararam de fazer quando o quartzo se tornou comum e barato.
5. O consumo de energia do módulo DSM era alto o suficiente para que a Ebauches SA recomendasse a troca de bateria anualmente, algo frequente para um LCD, mas muito melhor que os LEDs da época que duravam apenas meses.
6. Este modelo competiu diretamente com o lendário Gruen Teletime e os primeiros Seikos digitais, numa janela de tempo de apenas 18 meses onde esta tecnologia foi considerada o auge do luxo.