RESUMO
Lançado no auge da 'Era Espacial', em 1970, o Longines Comet Ref. 8475 representa um dos desvios mais audaciosos e artísticos da manufatura de Saint-Imier em relação ao seu conservadorismo tradicional. Este relógio não é apenas um instrumento de medição de tempo; é uma cápsula do tempo do design 'Mod' e futurista que definia a cultura pop do início dos anos 70. Distinguindo-se pelo seu mostrador do tipo 'Mystery Dial', o Comet aboliu os ponteiros convencionais em favor de um sistema gráfico de setas flutuantes montadas em discos rotativos, criando a ilusão de que os indicadores orbitam o centro do mostrador sem suporte mecânico visível. Equipado com o robusto Calibre 702 de corda manual, o modelo foi projetado para cativar uma geração fascinada pela exploração lunar e pela estética sci-fi. A caixa em formato de almofada (cushion case) sem asas proeminentes e as combinações de cores vibrantes — variando entre azuis profundos, vermelhos e amarelos — conferem-lhe uma presença de pulso inconfundível. Para o colecionador moderno e o historiador de horologia, o Comet 8475 é um estudo de caso sobre como a alta relojoaria suíça tentou se reinventar visualmente pouco antes da Crise do Quartzo, mesclando engenharia mecânica confiável com uma abordagem lúdica e vanguardista.
HISTÓRIA
A história do Longines Comet Ref. 8475 é indissociável do contexto cultural e industrial de 1970. Neste período, a indústria relojoeira suíça encontrava-se num precipício existencial; a tecnologia do quartzo estava a emergir no horizonte e as marcas tradicionais sentiam a pressão para se modernizarem, não apenas tecnicamente, mas esteticamente. A Longines, historicamente reverenciada pelos seus cronógrafos de aviação e relógios de vestuário sóbrios, decidiu abraçar a exuberância da 'Space Age' (Era Espacial).
O desenvolvimento do Comet foi uma resposta direta à procura por relógios 'Funky' que quebravam as normas de legibilidade clássica. A designação 'Mystery Dial' (Mostrador Misterioso) remonta a relógios de mesa do século XIX, mas a Longines reinterpretou-a para o pulso com uma abordagem pop-art. Ao contrário dos verdadeiros mostradores misteriosos que utilizam discos de safira ou vidro transparentes para fazer os ponteiros parecerem flutuar no vácuo, o Comet utilizou discos opacos e coloridos. O design consistia numa seta larga ('Broad Arrow') num disco central para as horas e uma seta menor ou indicador num anel externo para os minutos. A rotação destes discos exigia um torque consistente, o que nos leva ao coração da máquina: o Calibre 702.
O Calibre 702 é, na realidade, um movimento derivado da Record Watch Co., uma empresa que a Longines adquiriu na década de 1960. A base é o Record 651, modificado e renomeado pela Longines. A escolha deste movimento de corda manual foi estratégica: era fino, robusto e capaz de lidar com a carga adicional dos discos, que eram mais pesados do que os ponteiros de metal finos tradicionais. A engenharia por trás do 8475 focou-se em garantir que o atrito dos discos não comprometesse a isocronia do balanço.
Visualmente, o relógio foi lançado em várias cores, sendo a versão azul-marinho com detalhes em azul-celeste a mais icónica, evocando o céu e o espaço. Existiram também variantes em vermelho/preto e amarelo/dourado, cada uma capturando a psicodelia dos anos 70. A caixa de aço inoxidável foi desenhada para ser ergonómica, eliminando as asas (lugs) tradicionais em favor de um formato de 'seixo' ou 'capacete', permitindo que a bracelete se integrasse diretamente por baixo da caixa, reforçando a silhueta futurista.
Durante décadas, o Comet permaneceu uma curiosidade esquecida, ofuscada pelos cronógrafos 13ZN ou 30CH da marca. No entanto, com o ressurgimento do interesse pelo design retro-futurista no século XXI, o Ref. 8475 ascendeu ao estatuto de relógio de culto. Ele representa um momento de coragem da Longines, provando que uma maison centenária poderia soltar o cabelo e produzir algo radicalmente divertido sem sacrificar a qualidade mecânica.
CURIOSIDADES
1. O nome 'Comet' foi escolhido deliberadamente para capitalizar sobre a obsessão global com a exploração espacial após a aterragem na Lua em 1969.
2. Embora marcado como Longines, o relógio partilha ADN com a marca Wittnauer (então importadora da Longines nos EUA), que lançou modelos similares como o 'Futurama', gerando frequente confusão entre colecionadores novatos.
3. O Calibre 702 é um dos poucos movimentos manuais da era 'Record' utilizado num modelo tão emblemático da Longines, tornando-o um ponto de interesse técnico específico.
4. A bracelete original era frequentemente feita de 'Corfam', um material sintético poroso criado pela DuPont, que foi comercializado como uma alternativa futurista e durável ao couro.
5. Devido ao peso dos discos rotativos, é comum encontrar exemplares vintage onde o atrito causou desgaste no pivô central se o relógio não tiver sido lubrificado regularmente nas últimas cinco décadas.
6. O design das 'setas' não é apenas estético; a largura desproporcional da seta das horas foi pensada para ser legível instantaneamente, imitando os instrumentos de painel de aeronaves ou naves espaciais.
7. O Longines Comet é considerado um dos 'Holy Grails' dos colecionadores de relógios 'Mystery Dial' acessíveis, valorizando-se exponencialmente quando encontrado com a caixa e papéis originais da época.