RESUMO
Tipo de Calibre: Mecânico de Corda Manual
Frequência: 3 Hz (21.600 vibrações por hora)
Reserva de Marcha: 78 Horas (energia regulada)
Número de Rubis: 25
Número de Componentes: 156
Sistema de Energia: Duplo barrilete em série com limitação de torque
Complicações: Horas, Minutos, Segundos Mortos (via Remontoir d'Égalité), Força Constante
Dimensões do Movimento: 32.0mm x 5.9mm
Escapamento: Âncora suíça tradicional isolada pelo remontoir
Acabamento: Côtes de Genève circulares, Anglage manual (chanfragem), polimento espelhado em componentes de aço, arestas estiradas
HISTÓRIA
No panteão da alta relojoaria independente contemporânea, poucos nomes ressoam com a autoridade técnica de Andreas Strehler, frequentemente aclamado como o 'Relojoeiro dos Relojoeiros'. Em 2013, Strehler consolidou sua reputação de engenheiro mestre com o lançamento do Calibre Sauterelle. Este movimento não foi apenas uma evolução estética de seus trabalhos anteriores, como a linha Papillon, mas uma redefinição fundamental da gestão de energia em um relógio de pulso mecânico de corda manual. A gênese do Calibre Sauterelle reside na eterna luta da horologia contra a Lei de Hooke: à medida que a mola principal desenrola, o torque diminui, afetando a amplitude do balanço e, consequentemente, o isocronismo.
A solução de Strehler foi a implementação de um 'Remontoir d'Égalité' patenteado, uma complicação de força constante raramente vista e ainda menos frequentemente executada com tal grau de integração. Diferente dos sistemas tradicionais que recarregam a cada minuto ou em intervalos irregulares, o Remontoir do Sauterelle está montado diretamente na roda de segundos. Arquitetonicamente, isso é uma proeza: o trem de engrenagens principal não impulsiona o escapamento diretamente. Em vez disso, ele tensiona uma pequena mola espiral intermediária a cada segundo. É essa mola secundária que entrega energia ao escapamento. O resultado é que o balanço recebe um pulso de energia idêntico a cada oscilação, independentemente de os barriletes estarem totalmente carregados ou quase vazios, garantindo uma amplitude perfeitamente estável durante quase toda a reserva de marcha de 78 horas.
Visualmente, esta solução técnica cria um efeito hipnótico conhecido como 'segundos mortos' (seconde morte). O ponteiro dos segundos salta precisamente de um marcador para o outro, parando e avançando em passos discretos de 1 Hz. Contudo, ao contrário de complicações projetadas especificamente para a estética dos segundos mortos, no Sauterelle isso é um subproduto funcional da busca pela precisão cronométrica absoluta. O design do movimento reflete a filosofia de Strehler de que a forma segue a função, mas sem sacrificar a beleza. As pontes, frequentemente esqueletizadas em formas orgânicas que lembram as asas de uma borboleta (uma assinatura da marca), permitem uma visão desobstruída do mecanismo de remontoir pulsante e do escapamento.
Para alimentar este sistema, o calibre utiliza um sistema de duplo barrilete conectado em série. Strehler incorporou um sistema de limitação de torque engenhoso, baseado em engrenagens diferenciais planetárias, que impede o enrolamento excessivo das molas (evitando o 'rebatimento' do balanço) e corta o fornecimento de energia antes que o torque caia abaixo do limite necessário para recarregar o remontoir, garantindo que o relógio pare enquanto ainda mantém precisão máxima. Com 156 componentes meticulosamente acabados à mão e 25 rubis, o Calibre Sauterelle de 2013 permanece um marco didático na história da micromecânica, demonstrando como soluções seculares podem ser reinventadas para o século XXI com eficiência e elegância incomparáveis.
CURIOSIDADES
O nome 'Sauterelle' significa 'Gafanhoto' em francês, uma alusão direta ao movimento saltitante do ponteiro de segundos gerado pelo Remontoir.
O Remontoir d'Égalité de Andreas Strehler recarrega e libera energia exatamente 86.400 vezes por dia.
A complexidade do mecanismo permite que o escapamento opere com uma variação de energia praticamente nula, algo que nem mesmo turbilhões conseguem garantir sozinhos.
Andreas Strehler projeta suas próprias máquinas-ferramenta e desenha perfis de engrenagens cônicas personalizados para maximizar a eficiência de transmissão, visíveis no sistema de corda.
O movimento foi projetado de forma modular, permitindo que a base do Sauterelle servisse posteriormente para a inclusão da 'Lune Perpétuelle', a fase da lua mais precisa do mundo (com desvio de 1 dia a cada 2 milhões de anos).