RESUMO
Em 1994, num cenário onde a Alta Relojoaria ainda se recuperava dos tremores da Crise do Quartzo, a Blancpain, sob a visão incisiva de Jean-Claude Biver, lançou um modelo que redefiniria o conceito de 'relógio esportivo de luxo': a Referência 2100, a progenitora da icônica coleção Léman. Este lançamento não foi apenas estético, mas uma proeza técnica formidável, introduzindo o lendário Calibre 1150. Enquanto o padrão da indústria para reservas de marcha estagnava em torno de 40 horas, a Blancpain chocou o mundo horológico ao oferecer 100 horas de autonomia (mais de quatro dias) num movimento automático ultraplano, graças à inovadora tecnologia de duplo barril em série. A Referência 2100 foi concebida para ser o relógio definitivo para o século XXI — robusto o suficiente para o uso diário com 100 metros de resistência à água, mas refinado o suficiente para o uso formal com sua caixa de 'duplo degrau' (double pomme). Este modelo serviu como a ponte vital entre a clássica linha Villeret e a utilitária Fifty Fathoms, estabelecendo um novo arquétipo de versatilidade e excelência mecânica que perdura décadas após sua concepção.
HISTÓRIA
A história da Referência 2100, e consequentemente da coleção Léman, é intrínseca ao renascimento da Blancpain no final do século XX. Após a marca ter passado a década de 1980 provando que a relojoaria mecânica era uma arte superior através das suas 'Seis Obras-Primas', a década de 1990 exigia uma nova abordagem. O mercado começava a clamar por relógios que pudessem transitar entre a sala de reuniões e o clube de campo sem sacrificar a complexidade horológica. Jean-Claude Biver e a equipe técnica da Blancpain (então baseada em Le Brassus) identificaram uma lacuna: não havia um relógio 'sport-chic' que combinasse dimensões clássicas com uma autonomia de marcha verdadeiramente útil.
O nome do projeto, '2100', foi escolhido como uma declaração de longevidade, simbolizando um relógio projetado para durar e ser relevante até o século XXII. O coração deste projeto foi o desenvolvimento do Calibre 1150. Até 1994, criar um movimento automático fino com uma reserva de marcha longa era um paradoxo de engenharia; molas maiores exigiam mais espaço. A solução da Blancpain foi utilizar dois barris de mola principal montados em série. Isso não apenas estendeu a reserva para 100 horas — permitindo que o proprietário tirasse o relógio na sexta-feira e o colocasse na segunda-feira sem precisar ajustá-lo — mas também garantiu uma entrega de torque mais estável (isocronismo) ao longo da descarga da mola, melhorando a precisão cronométrica.
Esteticamente, a Referência 2100 rompeu com a austeridade da linha Villeret. Introduziu uma caixa mais robusta com laterais arredondadas e a distinta luneta 'double pomme' (duplo degrau), que captava a luz de maneira única, conferindo volume sem adicionar peso visual excessivo. Os ponteiros esqueletizados em forma de espada tornaram-se uma assinatura, permitindo a leitura clara dos mostradores subsidiários em versões complicadas que se seguiram.
Embora o nome 'Léman' (referência ao Lago Genebra, o maior lago da Suíça) tenha sido adotado oficialmente para a coleção anos mais tarde para evocar o espírito de viagem e horizontes abertos, o DNA da linha foi inteiramente forjado no lançamento de 1994. A Referência 2100 provou ser uma plataforma incrivelmente versátil, hospedando posteriormente complicações como Cronógrafos Flyback, Calendários Perpétuos, Alarmes (Réveil) e Turbilhões, consolidando a Blancpain como uma manufatura capaz de industrializar a alta relojoaria sem perder a alma artesanal.
CURIOSIDADES
O nome '2100' tinha um duplo significado: mirava o próximo século e celebrava as 100 horas de reserva de marcha, algo inédito para um relógio automático daquele tamanho em 1994.
O Calibre 1150 provou ser tão robusto e tecnicamente superior que foi adotado (e modificado) por outras marcas de prestígio do Grupo Swatch, incluindo a Breguet (usado na linha Marine e Type XX modernos).
A versão 'Aqualung' da linha Léman, baseada na caixa da Ref. 2100, tornou-se famosa mundialmente por ser o relógio de escolha de Vladimir Putin, frequentemente visto usando-o no braço direito.
A caixa de 38mm da Referência 2100 é hoje considerada pelos colecionadores como o 'ponto ideal' (sweet spot) de proporção, sendo muito mais valorizada atualmente do que as versões superdimensionadas lançadas nos anos 2000.
Ao contrário de muitos relógios esportivos que usam fundos sólidos, muitas versões do 2100/Léman exibiam o movimento, revelando um rotor de ouro maciço com acabamento manual requintado, enfatizando que a esportividade não excluía o luxo.
Os ponteiros esqueletizados não eram apenas estéticos; foram desenhados especificamente para que, nas versões com cronógrafo ou calendário, os submostradores nunca ficassem totalmente obstruídos pelos ponteiros principais.