RESUMO
O ano de 1979 marcou um ponto de inflexão decisivo na história da Seiko e da horologia mundial, materializado no lançamento do calibre 9923 Twin Quartz. Enquanto a Revolução do Quartzo dizimava a indústria suíça, a Seiko buscava não apenas a dominância, mas a perfeição técnica absoluta. Este modelo, frequentemente assinado como 'King Quartz', representa o último suspiro de glória da linhagem King Seiko antes de sua longa hibernação. Diferenciando-se dos movimentos de quartzo padrão da época, o sistema Twin Quartz utilizava um segundo oscilador de cristal exclusivamente para monitorar a temperatura ambiente e corrigir as variações de frequência do cristal principal. O resultado foi uma precisão assombrosa de ±20 segundos por ano, um feito que redefiniu os padrões de cronometria pessoal. Esteticamente, o relógio mantinha a 'Gramática do Design' com linhas afiadas e polimento Zaratsu, mas exibia orgulhosamente o logotipo de duplo favo de mel (Twin Quartz) no mostrador, simbolizando a fusão de dois cristais. O 9923 não era apenas um relógio; era uma declaração de engenharia, provando que o quartzo podia ser, simultaneamente, um objeto de luxo e uma maravilha científica.
HISTÓRIA
A história do King Seiko/King Quartz 9923 é indissociável do clímax da 'Era de Ouro' do quartzo japonês. No final da década de 1970, a rivalidade interna entre a Suwa Seikosha e a Daini Seikosha — que havia impulsionado a inovação mecânica da Grand Seiko e da King Seiko — transformou-se em uma corrida pela precisão eletrônica. Em 1979, a Seiko já havia estabelecido o quartzo como o futuro, mas enfrentava um novo desafio: a variação térmica. Os cristais de quartzo, embora precisos, são suscetíveis a mudanças de temperatura, o que pode causar desvios de tempo. A solução da Suwa foi o revolucionário sistema 'Twin Quartz'.
O calibre 9923 foi introduzido como o cavalo de batalha da linha de alta precisão. Ao contrário dos movimentos anteriores, ele abrigava dois cristais de quartzo sintético envelhecidos artificialmente. Um cristal operava como o oscilador de tempo principal, enquanto o segundo detectava a temperatura. Um circuito integrado (IC) processava a informação térmica e ajustava a frequência do cristal principal para anular erros. Esta tecnologia elevou a precisão de ±15 segundos por mês (padrão da época) para impressionantes ±20 segundos por ano no caso do 9923 (e até ±5 segundos por ano nos modelos 9983 'Superior').
Este modelo carrega um peso histórico melancólico. Foi o auge tecnológico da submarca King Seiko (rebatizada como King Quartz para se adequar ao marketing da época) antes da Seiko reestruturar suas linhas na década de 1980, o que levou à descontinuação das designações King e Grand em favor de uma gama mais unificada. O 9923 representou, portanto, o pináculo da filosofia de que o quartzo deveria ser tratado com o mesmo nível de acabamento e prestígio que os melhores calibres mecânicos. As caixas eram acabadas com técnicas complexas, os índices eram lapidados como diamantes e o movimento era montado para ser reparável, não descartável. Para o colecionador moderno, o 9923 Twin Quartz é a ponte tangível entre a tradição mecânica clássica da Tanaka Design e o futurismo eletrônico que definiu o final do século XX.
CURIOSIDADES
1. O logotipo duplo no mostrador (parecido com dois triângulos ou favos de mel entrelaçados) é específico da linha Twin Quartz e simboliza fisicamente a presença dos dois cristais no circuito.
2. A precisão de ±20 segundos por ano do 9923 em 1979 superava em muito a precisão exigida para a certificação COSC de cronômetros mecânicos atuais.
3. Diferente de muitos quartzos baratos posteriores, o calibre 9923 possui um mecanismo de ajuste fino de marcha (trimmer) que permite a relojoeiros qualificados calibrarem o relógio, garantindo sua longevidade.
4. O custo de produção dos cristais era elevadíssimo, pois a Seiko selecionava e 'envelhecia' os cristais por 3 a 6 meses antes da montagem para garantir estabilidade molecular.
5. Em 1979, um King Quartz 9923 custava aproximadamente o mesmo que o salário inicial de um graduado universitário no Japão, posicionando-o firmemente no segmento de luxo.
6. O ponteiro dos segundos foi desenhado para alinhar perfeitamente com os marcadores, uma obsessão de qualidade da Suwa Seikosha que muitas vezes falta em relógios de quartzo modernos de alto valor.