RESUMO
O Universal Genève 'Pour Hermès' de 1938 representa um dos primeiros e mais significativos exemplos de 'co-branding' na alta relojoaria, uma fusão sublime entre a proeza técnica suíça e a elegância parisiense. Nascido numa era de ouro para o design de cronógrafos, este relógio não foi concebido para pilotos ou mergulhadores, mas sim para o cliente sofisticado da Hermès, um cavalheiro que apreciava tanto a funcionalidade mecânica como a estética refinada. A sua filosofia de design afastava-se das ferramentas utilitárias da época, favorecendo caixas elegantes em aço ou metais preciosos, mostradores artisticamente equilibrados e, mais notavelmente, os distintos botões de cronógrafo quadrados que lhe conferiam um toque Art Déco. A sua importância transcende a simples cronometragem; simboliza uma parceria estratégica que elevou ambas as marcas. Para a Universal Genève, foi um selo de aprovação da mais alta esfera do luxo. Para a Hermès, marcou um passo fundamental na sua jornada para se tornar uma força respeitada na horologia. Hoje, estas peças são consideradas 'grails' por colecionadores, testemunhas raras de uma colaboração que definiu o conceito de relógio de luxo desportivo muito antes de o termo se popularizar.
HISTÓRIA
No final da década de 1930, o mundo estava à beira da mudança, mas a relojoaria vivia uma era de extraordinária inovação e elegância. Foi neste contexto que floresceu uma das colaborações mais célebres da indústria: a parceria entre a Universal Genève, então uma mestre incontestável na fabricação de cronógrafos, e a Hermès, o bastião do luxo parisiense. Em 1938, esta aliança deu origem a uma série de cronógrafos produzidos exclusivamente para a boutique da Hermès na Rue du Faubourg Saint-Honoré. Estes relógios não eram simplesmente modelos de catálogo com um nome adicional; eram peças distintamente concebidas para personificar a estética Hermès.
Tecnicamente, estes modelos baseavam-se na robusta e fiável arquitetura dos célebres movimentos da Universal Genève, como o Calibre 285, cujas bases eram fornecidas pela especialista em cronógrafos Martel Watch Co. A mecânica de roda de colunas garantia uma operação suave e precisa, representando o auge da tecnologia da época. No entanto, a verdadeira magia residia no seu design exterior. A característica mais marcante e diferenciadora desta série eram os seus botões de cronógrafo de formato quadrado. Enquanto a maioria dos cronógrafos contemporâneos utilizava botões redondos de 'pistão', a escolha de um formato angular conferia ao relógio uma presença arquitetónica e um toque de vanguarda Art Déco, perfeitamente alinhado com o espírito de design parisiense.
A evolução destes modelos não seguiu uma linha geracional rígida, mas sim uma variedade de execuções produzidas durante um período focado. As variações mais cobiçadas pelos colecionadores residem nos detalhes do mostrador e da caixa. Existiam caixas em aço inoxidável, um material ainda relativamente novo e desportivo, bem como em sumptuoso ouro amarelo ou rosa de 18 quilates. Os mostradores eram telas de pura arte relojoeira: alguns apresentavam uma assinatura dupla, 'Universal Genève' e 'Hermès', enquanto os mais raros e desejados ostentavam apenas o nome 'Hermès', indicando uma total apropriação do design pela casa de luxo. As configurações variavam entre bi-compax (contador de 30 ou 45 minutos e pequenos segundos) e, mais raramente, tri-compax (adicionando um contador de 12 horas). As escalas, como taquímetros e telémetros, eram frequentemente integradas com uma perícia gráfica notável.
O impacto desta série foi profundo. Para a Universal Genève, solidificou a sua reputação como um fabricante versátil, capaz de produzir não só relógios-ferramenta, mas também peças de alta-costura horológica. Para a Hermès, foi a afirmação do seu papel como curadora e criadora de objetos de tempo excepcionais, um legado que continua até hoje com a sua própria manufatura. Estes cronógrafos 'Pour Hermès' de 1938 permanecem como artefactos de um momento único, onde a precisão suíça e o 'chic' parisiense se encontraram para criar um objeto de desejo intemporal, cuja raridade e beleza continuam a cativar os colecionadores mais exigentes do mundo.
CURIOSIDADES
A assinatura do mostrador é um fator chave de raridade; os exemplares assinados apenas 'Hermès' são exponencialmente mais raros e valiosos do que os de assinatura dupla.
Os botões quadrados são a característica visual mais icónica e um ponto de identificação imediato para esta série específica de 1938, distinguindo-os de outras colaborações posteriores.
A maioria dos movimentos era baseada em 'ébauches' da Martel Watch Co., a mesma empresa que mais tarde forneceria movimentos para a Zenith, incluindo o lendário El Primero.
Apesar da sua importância histórica, esta série não possui um apelido universalmente aceite na comunidade de colecionadores, sendo geralmente referida descritivamente como 'Universal Genève Hermès Square Pusher'.
As pulseiras originais, fabricadas em couro pela própria Hermès, são extremamente raras. Encontrar um relógio com a sua pulseira e fivela originais pode aumentar drasticamente o seu valor.
Estes relógios estabelecem consistentemente recordes em leilões, atingindo valores significativamente mais altos do que os cronógrafos 'standard' da Universal Genève do mesmo período, devido à sua proveniência e design únicos.
Esta colaboração foi uma das primeiras a tratar um cronógrafo não como um instrumento técnico, mas como um acessório de luxo e uma declaração de estilo, antecipando uma tendência que dominaria o mercado décadas mais tarde.