RESUMO
Em meados da década de 1950, a indústria relojoeira suíça estava empenhada numa corrida pela sofisticação e pela proeza técnica. O relógio automático, embora conveniente, era inerentemente mais espesso devido à massa oscilante central que se sobrepunha ao movimento. Foi neste contexto que a Universal Genève apresentou uma das inovações mais significativas da relojoaria moderna: o Microtor. Patenteado em 27 de maio de 1955, o sistema, incorporado pela primeira vez no Calibre 215, era uma maravilha da micromecânica. Em vez de um rotor grande e central, a UG integrou uma massa oscilante miniaturizada diretamente no plano do movimento. Esta solução genial permitiu a criação de relógios automáticos com a finura e a elegância anteriormente reservadas aos modelos de corda manual. O posicionamento de mercado foi imediato e claro: a Universal Genève visava um cliente exigente que valorizava tanto a estética refinada como a superioridade técnica. Os relógios equipados com o Micro-rotor não eram ferramentas para mergulhadores ou pilotos no seu início, mas sim símbolos de status e bom gosto, perfeitos para o pulso de executivos, artistas e conhecedores. A filosofia de design era de uma elegância discreta, onde a verdadeira inovação estava oculta sob um mostrador sóbrio, mas perfeitamente executado. A sua significância reside no facto de ter resolvido um dos maiores desafios da sua era, estabelecendo um novo padrão para os relógios de luxo automáticos e solidificando a reputação da Universal Genève como uma verdadeira 'manufacture' de vanguarda.
HISTÓRIA
A história do Micro-rotor é a história de uma busca pela perfeição estética e funcional. No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, o mundo ansiava por luxo e inovação. Os relógios de pulso automáticos, introduzidos décadas antes, ganhavam popularidade, mas a sua espessura era um obstáculo à elegância suprema. A maioria dos fabricantes utilizava um grande rotor central que adicionava uma camada extra ao movimento, resultando em caixas mais bojudas. A Universal Genève, já uma 'manufacture' respeitada, conhecida pelos seus cronógrafos Compax, viu neste desafio uma oportunidade para se destacar.
A solução, que se tornaria uma assinatura da marca, foi patenteada em 27 de maio de 1955 sob o número CH329805. Denominado 'Microtor', o sistema era radicalmente diferente. Uma equipa de engenheiros brilhantes conseguiu miniaturizar a massa oscilante e integrá-la nivelada com as pontes do movimento, em vez de a colocar por cima. O primeiro movimento a incorporar esta tecnologia foi o Calibre 215, uma obra de arte mecânica com 28 rubis e um acabamento soberbo. Esta invenção não foi apenas um passo evolutivo; foi um salto quântico que permitiu à Universal Genève produzir os relógios automáticos mais finos do mundo na época.
A primeira e mais célebre aplicação do Calibre 215 foi no modelo 'Polarouter'. Desenhado por um jovem Gérald Genta, com apenas 23 anos, o relógio foi encomendado pela Scandinavian Airlines System (SAS) para comemorar os seus voos pioneiros sobre o Pólo Norte, uma rota que encurtava drasticamente as viagens entre a Europa e a América do Norte. Estes voos expunham os instrumentos a fortes campos magnéticos, e o Polarouter foi concebido para resistir a eles, mas a sua característica mais marcante era o seu perfil incrivelmente esguio, cortesia do Microtor. O sucesso foi imediato, e o nome foi rapidamente alterado para 'Polerouter', que se tornaria um ícone.
O sucesso do Calibre 215 levou a uma rápida evolução. Logo surgiu o Calibre 218, que adicionou uma complicação de data, e a família de movimentos Microtor continuou a evoluir com os calibres da série 60 (66, 67, 68, 69) nas décadas seguintes, tornando-se mais robustos e eficientes. Esta tecnologia tornou-se o coração de inúmeros modelos da Universal Genève, desde os elegantes relógios de gala Golden Shadow até aos desportivos Polerouter Sub. O impacto do Micro-rotor na indústria foi profundo. Embora a Buren (para a Hamilton-Buren) e a Piaget tenham desenvolvido os seus próprios sistemas de micro-rotor pouco tempo depois, a Universal Genève foi a pioneira que provou que a conveniência automática não precisava de comprometer a elegância. O Micro-rotor não foi apenas uma peça de tecnologia; foi a personificação da filosofia da Universal Genève: inovação técnica ao serviço da beleza intemporal, assegurando o seu lugar no panteão da alta relojoaria.
CURIOSIDADES
O designer do Polarouter original, que abrigou o primeiro Micro-rotor, foi Gérald Genta, o mesmo mestre que mais tarde criaria os icónicos Audemars Piguet Royal Oak e Patek Philippe Nautilus.
O nome 'Polarouter' (mais tarde 'Polerouter') foi uma homenagem aos pilotos da SAS (Scandinavian Airlines) que realizaram os primeiros voos comerciais sobre o Pólo Norte, e o relógio foi o seu equipamento oficial.
A Universal Genève não estava sozinha na corrida pelo relógio automático mais fino; travou uma competição técnica acirrada com as marcas Buren (que patenteou o seu sistema 'Intramatic' em 1957) e Piaget.
O termo 'Microtor' é o nome comercial patenteado pela Universal Genève. Hoje, 'micro-rotor' tornou-se o termo genérico da indústria para descrever esta tecnologia, mas a UG foi a sua criadora original.
Colecionadores frequentemente procuram as primeiras versões do Polerouter com o Calibre 215, identificáveis por não terem data e, por vezes, pela inscrição 'Patented Rights Pending' no fundo da caixa.
O Calibre 215 era notável pelo seu elevado número de rubis (28) para um movimento de três ponteiros, um sinal da sua construção de alta qualidade e do desejo da marca de minimizar o atrito em todos os pontos possíveis.
Embora famoso em relógios de três ponteiros e de data, a Universal Genève produziu um número extremamente limitado de cronógrafos com micro-rotor, como o raro Calibre 281, tornando-os um 'santo graal' para os colecionadores da marca.