RESUMO
O King Seiko 44KS, especificamente a referência 4420-9990 lançada em 1964, representa um divisor de águas na história da horologia japonesa. Conhecido carinhosamente pelos colecionadores como "KSK" — uma abreviação derivada de "Kisei-Tsuki", que significa "com parada de segundos" (hacking) —, este modelo foi a resposta contundente da Daini Seikosha à sua rival interna, a Suwa Seikosha, criadora do Grand Seiko. Situado no contexto da Segunda Geração da linha King Seiko, o 44KS não foi apenas uma evolução mecânica, mas uma revolução estética. Ele é amplamente celebrado por ser o veículo que introduziu e consolidou a famosa "Gramática do Design" de Taro Tanaka. Diferente das caixas arredondadas e conservadoras da época, o 44KS apresentava superfícies planas, ângulos agudos facetados e um polimento espelhado sem distorções (o precursor do Zaratsu), criando um jogo de luz e sombra inigualável. Equipado com o calibre manual 4420 de 27 joias, o relógio operava em baixa frequência (18.000 bph), priorizando a estabilidade e a longevidade, mas com uma precisão que rivalizava com os cronômetros suíços. O 44KS é, portanto, mais do que um relógio vintage; é o manifesto físico da filosofia de que a beleza funcional e a precisão mecânica poderiam elevar a relojoaria japonesa ao patamar de arte mundial.
HISTÓRIA
A história do King Seiko 44KS (4420-9990) é indissociável da feroz, porém produtiva, rivalidade interna da Seiko Corporation durante a década de 1960. A empresa operava com duas subsidiárias de manufatura principais: a Suwa Seikosha e a Daini Seikosha. Enquanto a Suwa era a responsável pela criação do Grand Seiko em 1960, posicionando-se como o pináculo da marca, a Daini Seikosha não aceitou a posição de coadjuvante. Em resposta, a Daini focou em elevar a linha King Seiko, que havia estreado em 1961, para um novo patamar de excelência que pudesse desafiar diretamente a soberania da Suwa.
O ano de 1964 foi crucial para o Japão, marcado pelos Jogos Olímpicos de Tóquio e um impulso nacional para a modernização. Nesse cenário, a Daini lançou a segunda geração do King Seiko, o 44KS. O sufixo "Kisei-Tsuki" (KSK) referia-se à nova funcionalidade do calibre 4420: uma alavanca de parada de segundos. Isso permitia que o usuário parasse o balanço ao puxar a coroa, facilitando a sincronização exata do relógio com um sinal horário de referência, um recurso essencial para a certificação de precisão e uso profissional.
Contudo, a verdadeira revolução do 44KS não estava apenas em sua mecânica robusta de baixa frequência, mas em sua estética. Foi com este modelo que Taro Tanaka, o lendário designer da Seiko, começou a aplicar rigorosamente sua "Gramática do Design". Tanaka observou que os relógios suíços brilhavam mais nas vitrines devido às suas superfícies planas e polimento. Ele estabeleceu regras estritas para a Seiko: todas as superfícies e ângulos da caixa, ponteiros e índices deveriam ser planos e geometricamente perfeitos para refletir a luz; não deveria haver distorção visual; e as caixas não deveriam ser meramente redondas, mas facetadas.
O 4420-9990 personificou essas regras. Suas alças (lugs) eram grossas, angulares e polidas com uma técnica que viria a ser conhecida como Zaratsu (baseada nas máquinas Sallaz importadas), garantindo um acabamento espelhado sem distorções. O mostrador dispensou a janela de data para manter a simetria perfeita e a limpeza visual, focando puramente na leitura do tempo com índices multifacetados que brilhavam mesmo sob pouca luz.
O 44KS provou que a Daini Seikosha era capaz de produzir relógios que não apenas igualavam, mas em certos aspectos superavam, a qualidade de acabamento da Suwa e dos concorrentes suíços. O modelo permaneceu em produção até o final da década de 60, quando a corrida pelos movimentos "Hi-Beat" (36.000 bph) tomou conta da indústria, levando ao sucessor 45KS. No entanto, o 44KS permanece como o modelo "puro-sangue" da Daini: o último grande cronômetro manual de baixa frequência e o verdadeiro pai da identidade visual que define a Grand Seiko e a King Seiko até os dias de hoje.
CURIOSIDADES
1. O Significado de KSK: A sigla não é apenas um código de modelo, mas uma abreviação funcional de 'King Seiko Kisei-Tsuki', onde 'Kisei-Tsuki' traduz-se literalmente como 'com parada de segundos' (stop-seconds).
2. O Medalhão de Ouro: O fundo da caixa ostenta um medalhão de ouro maciço com o escudo da King Seiko. Diferente do leão da Grand Seiko, o escudo representava a defesa da qualidade e a robustez da Daini Seikosha.
3. O 'Pai' do Design Moderno: Este foi o primeiro relógio a implementar de forma completa as regras da 'Gramática do Design' de Taro Tanaka, eliminando distorções visuais nas caixas.
4. Rivalidade Fraterna: O 44KS foi criado especificamente pela fábrica Daini para superar o Grand Seiko da fábrica Suwa em competições internas de precisão e design.
5. Reedição de 140 Anos: Devido ao seu status icônico, a Seiko escolheu exatamente o design do 44KS (o KSK de 1965) para relançar a marca King Seiko moderna em 2021/2022 (SJE083).
6. Variação de Fivela: As fivelas originais deste modelo são extremamente raras e possuem um design específico com a tipografia 'Seiko' em relevo, sendo altamente valorizadas por colecionadores.
7. Precisão vs. Frequência: Apesar de ser um movimento de 18.000 bph (considerado lento para os padrões posteriores de 36.000 bph), o calibre 4420 era ajustado tão meticulosamente que frequentemente atingia padrões de cronômetro.