RESUMO
O Breguet 'Chronomètre à doubles secondes' No. 3975, concluído em 1820, não é um relógio de pulso no sentido contemporâneo, mas sim um instrumento científico de precisão transcendental, encapsulado na forma de um relógio de bolso. A sua conceção não visava o mercado de luxo generalista, mas sim a elite científica, militar e desportiva da época – astrónomos, oficiais de artilharia e cronometristas de corridas de cavalos que necessitavam de uma ferramenta capaz de medir intervalos de tempo com uma precisão e funcionalidade sem precedentes. A sua filosofia de design é um testemunho do génio de Abraham-Louis Breguet: a forma segue a função de maneira sublime, onde cada componente é otimizado para a performance cronométrica. A importância do No. 3975 reside na sua inovação seminal: a capacidade de medir tempos intermédios (split-seconds). Este mecanismo, com os seus dois ponteiros de segundos centrais sobrepostos, permitia parar um ponteiro para registar uma volta ou um evento, enquanto o outro continuava a sua marcha. Com um segundo toque, o ponteiro parado alcançava instantaneamente o primeiro. Esta invenção foi o precursor direto do cronógrafo 'rattrapante', uma das mais nobres e complexas complicações da alta relojoaria, solidificando o legado de Breguet como o arquiteto da cronometragem moderna.
HISTÓRIA
No alvorecer do século XIX, a medição precisa do tempo era uma demanda crucial para o avanço da ciência, da navegação e da arte militar. Foi neste cadinho de inovação que Abraham-Louis Breguet, já uma lenda viva da relojoaria, se debruçou sobre um dos maiores desafios técnicos da sua era: a medição de intervalos de tempo decorridos. Embora mecanismos de 'stop-seconds' já existissem, a capacidade de cronometrar eventos intermédios sem interromper a contagem principal permanecia um sonho. O 'Chronomètre à doubles secondes', exemplificado magistralmente pelo No. 3975 de 1820, foi a resposta visionária de Breguet. Este não era um modelo de produção em série, mas uma criação sob medida, o auge da tecnologia relojoeira da sua época. O seu desenvolvimento partiu dos cronómetros de marinha e de observação que Breguet já produzia, mas adicionou uma camada de complexidade extraordinária. O mecanismo engenhoso consistia em dois ponteiros de segundos centrais. Um acionador na caixa permitia que um dos ponteiros parasse para registar um tempo, enquanto o segundo continuava a medir o tempo total. Um segundo acionamento fazia com que o ponteiro parado, através de uma came em forma de coração, saltasse instantaneamente para se realinhar com o ponteiro em movimento. Esta funcionalidade, que hoje conhecemos como 'rattrapante', foi uma invenção de Breguet, embora ele a tenha designado como 'chronomètre à doubles secondes ou d'observation'. O No. 3975 não teve 'gerações' ou 'variações' como os relógios modernos; cada peça era um protótipo evolutivo, um testemunho da sua mestria. A sua influência na indústria é imensurável. Ao criar a base mecânica para o cronógrafo de tempos intermédios, Breguet estabeleceu um novo patamar de complicação e funcionalidade que desafiaria os melhores relojoeiros durante os dois séculos seguintes. O 'doubles secondes' não era apenas uma ferramenta; era uma afirmação do potencial ilimitado da micro-mecânica, um legado que define não só a marca Breguet, mas toda a alta relojoaria, que até hoje considera o cronógrafo rattrapante como um dos seus testes de proficiência mais exigentes.
CURIOSIDADES
O mecanismo, batizado por Breguet de 'doubles secondes', é o antepassado direto e o princípio fundador do que mais tarde seria conhecido como cronógrafo 'rattrapante'.
Embora não haja registo de um utilizador famoso específico para o No. 3975, a clientela de Breguet para peças de complexidade semelhante incluía figuras como o Rei George IV da Inglaterra, o Czar Alexandre I da Rússia e Napoleão Bonaparte.
Ao contrário dos cronógrafos modernos, estes primeiros instrumentos de observação frequentemente não possuíam uma função de retorno a zero (reset). A sua finalidade era puramente a medição de intervalos, não a cronometragem de eventos repetitivos a partir do zero.
De acordo com os arquivos da Casa Breguet, o relógio No. 3975 foi vendido a 31 de dezembro de 1823 a um cavalheiro chamado 'Mr. Thomas Hawley' pela soma considerável de 4.000 Francos.
A came em forma de coração, o componente central que permite ao ponteiro 'recuperar' o tempo, foi uma invenção tão perfeita no seu design que o seu princípio fundamental continua a ser utilizado nos cronógrafos split-seconds contemporâneos.
Peças como esta são de uma raridade extrema, representando o pináculo da relojoaria do início do século XIX e atingindo valores astronómicos em leilões, quando raramente surgem no mercado.