RESUMO
Em 1968, numa era de ouro para os relógios de mergulho, a Jaeger-LeCoultre lançou uma obra-prima de engenharia que desafiou todas as convenções: o Memovox Polaris Ref. E859. Mais do que um simples relógio-ferramenta, o Polaris representou a fusão audaciosa de uma complicação de alta relojoaria, o alarme mecânico, com a robustez exigida para a exploração submarina profissional. O seu posicionamento no mercado era único; não competia diretamente com os seus contemporâneos puramente utilitários, mas visava o mergulhador sofisticado que valorizava a inovação técnica tanto quanto a fiabilidade. A filosofia de design era de uma complexidade funcional. A sua caixa de 42mm, imponente para a época, as três coroas e o bisel interno criaram uma estética inconfundível. No entanto, a sua verdadeira genialidade residia no que não se via: um sistema de fundo de caixa triplo patenteado, projetado para permitir que o som do alarme vibrasse de forma clara e audível debaixo de água, um problema que até então parecia insolúvel. Esta inovação não foi apenas um feito técnico; foi uma declaração de intenções, solidificando o Polaris como um dos relógios de mergulho mais importantes e colecionáveis da história, um verdadeiro ícone da 'Grande Maison'.
HISTÓRIA
A génese do Jaeger-LeCoultre Memovox Polaris de 1968 (Ref. E859) é uma história de evolução e ambição. A Manufatura já era mestre na complicação de alarme desde o lançamento do primeiro Memovox em 1950, um elegante relógio de pulso que se tornou um sucesso. A ideia de levar esta funcionalidade para o ambiente subaquático, onde um alerta sonoro e tátil poderia ser vital, materializou-se pela primeira vez em 1959 com o Memovox Deep Sea (Ref. E857), o primeiro relógio de mergulho com alarme do mundo. Embora pioneiro, o E857 tinha limitações, principalmente a atenuação do som do alarme pela água e pelo pulso do mergulhador. A JLC não se contentou e passou a década seguinte a desenvolver uma solução definitiva. O resultado, lançado em 1968, foi o Polaris. O seu nome, evocativo da era espacial e dos submarinos nucleares Polaris, sinalizava um salto tecnológico. A solução de engenharia foi o revolucionário fundo de caixa triplo. A camada mais externa, em aço, possuía 16 orifícios que permitiam a saída do som. A camada intermédia garantia a estanqueidade até 200 metros. A camada mais interna, em bronze, servia como uma câmara de ressonância, uma 'gong' que amplificava a vibração do martelo do alarme, garantindo que o som fosse nítido e a vibração percetível mesmo através de um fato de mergulho espesso. O design da caixa, embora reminiscente dos populares caixas Super-Compressor da EPSA, era uma construção patenteada e específica para a JLC, acomodando o complexo sistema. O relógio distinguia-se pelas suas três coroas: a superior (às 2h) para armar e ajustar o alarme através do disco central; a do meio (às 3h) para operar o bisel de mergulho interno; e a inferior (às 4h) para dar corda ao movimento e acertar as horas. Com uma produção extremamente limitada de apenas 1.714 unidades entre 1968 e 1969, o E859 tornou-se instantaneamente raro. Existem variações procuradas por colecionadores, como os modelos assinados 'LeCoultre' para o mercado americano, ao lado dos 'Jaeger-LeCoultre' para o resto do mundo. O seu design arrojado, inovação técnica sem paralelo e extrema raridade transformaram o Polaris de 1968 num 'grail watch', cujo legado influenciou não só a coleção Polaris moderna da JLC, mas também o próprio conceito de um relógio-ferramenta de luxo.
CURIOSIDADES
A produção total da Ref. E859 foi de apenas 1.714 peças, tornando-o um dos relógios de mergulho vintage mais raros e cobiçados do mundo.
O nome 'Polaris' não foi uma referência à estrela, mas sim aos mísseis balísticos Polaris da Marinha dos EUA, refletindo o fascínio da época pela tecnologia de ponta e pela exploração.
O sistema de fundo de caixa triplo patenteado foi a solução genial da JLC para um problema físico: a camada interna de bronze atuava como um gongo para amplificar o som, enquanto a caixa externa perfurada permitia que a vibração se propagasse na água.
Apesar de ser tecnologicamente avançado, o Polaris utilizava o Calibre 825, um movimento automático do tipo 'bumper', um design mais antigo que o rotor de 360 graus. Esta escolha foi deliberada, pois a arquitetura do 'bumper' era mais compatível com o módulo de alarme central do Memovox.
Existem duas versões principais do mostrador: a europeia assinada 'Jaeger-LeCoultre' e a americana assinada 'LeCoultre', resultado de um acordo de distribuição histórico com a empresa Longines-Wittnauer nos EUA.
A caixa foi produzida pelo famoso fabricante Ervin Piquerez S.A. (EPSA), conhecido pelas suas caixas Super-Compressor, mas foi feita segundo as especificações e patentes exclusivas da Jaeger-LeCoultre para acomodar o seu mecanismo único.
Membros da equipa do lendário explorador Jacques-Yves Cousteau foram vistos a usar o Polaris, o que conferiu ao relógio uma credibilidade inestimável como ferramenta de mergulho profissional.