RESUMO
Em 1968, no auge da Corrida Espacial e da febre cultural por ficção científica, a Hamilton capturou o zeitgeist com o Odyssee 2001. Mais do que um simples relógio, era uma declaração de design, uma peça de arte escultural para o pulso que personificava o otimismo futurista da época. Nascido da colaboração da marca com Stanley Kubrick para o seminal filme '2001: Uma Odisseia no Espaço', o Odyssee 2001 foi a adaptação comercial do protótipo cinematográfico, trazendo um design radicalmente vanguardista para o público. Com a sua caixa em forma de cunha (wedge case) e o seu mostrador assimétrico, o relógio abandonava todas as convenções da relojoaria tradicional. O seu mercado não eram os pilotos ou mergulhadores, mas sim o indivíduo arrojado, o aficionado por design e o homem moderno que via o futuro não como uma data distante, mas como um estilo de vida. A sua significância horológica reside precisamente nesta audácia: foi uma das primeiras vezes que uma marca estabelecida apostou num design tão extremo para um modelo de produção em série, provando que a forma podia ser tão importante quanto a função. O Odyssee 2001 permanece um ícone do design 'Space Age', um testemunho da era em que os relógios não se limitavam a marcar o tempo, mas ousavam sonhar com o futuro.
HISTÓRIA
A história do Hamilton Odyssee 2001 é indissociável da história do cinema e da exploração espacial. Em meados da década de 1960, o lendário realizador Stanley Kubrick abordou a Hamilton, uma marca já com forte reputação pela sua inovação (tendo lançado o primeiro relógio elétrico do mundo, o Ventura, em 1957), para criar relógios de pulso e de mesa futuristas para o seu próximo épico, '2001: Uma Odisseia no Espaço'. A Hamilton aceitou o desafio, desenvolvendo protótipos que pareciam saídos de um futuro distante, completamente desprovidos de elementos tradicionais. Estes adereços de cinema eram peças conceptuais e não funcionais no sentido tradicional.
Com o lançamento e o estrondoso sucesso cultural do filme em 1968, a Hamilton viu uma oportunidade única de capitalizar a sua associação com esta obra-prima cinematográfica. No entanto, em vez de replicar exatamente o adereço, a marca decidiu criar um relógio inspirado na sua estética, mas viável para produção e uso diário. Assim nasceu o Odyssee 2001. Por questões de direitos de autor com o estúdio de cinema, a Hamilton inteligentemente alterou a grafia para a versão francesa, 'Odyssee', contornando potenciais conflitos legais enquanto mantinha a alusão inequívoca.
O design foi a sua característica mais marcante e radical. A caixa de aço inoxidável, com o seu perfil em cunha, era diferente de tudo o que existia no mercado. Parecia esculpida a partir de um único bloco de metal, com a coroa embutida na lateral para não interromper a sua silhueta fluida e aerodinâmica. O mostrador, igualmente não convencional, era assimétrico, reforçando a sensação de se tratar de um instrumento de uma nave espacial. Para alimentar esta maravilha de design, a Hamilton fez uma escolha pragmática, utilizando o fiável calibre automático Hamilton 694, baseado no robusto e comprovado movimento suíço ETA 2452. Esta filosofia – um exterior vanguardista a proteger um interior fiável – era comum na época e permitiu que o relógio fosse simultaneamente ousado e funcional.
O Odyssee 2001 nunca foi um sucesso de vendas estrondoso; o seu design era demasiado polarizador para o consumidor médio da época. Consequentemente, a sua produção foi limitada, o que o tornou relativamente raro. Não houve 'gerações' ou evoluções significativas do modelo; ele foi um produto singular do seu tempo, um instantâneo do otimismo futurista de 1968. No entanto, o seu impacto no legado da Hamilton foi profundo. Solidificou a imagem da marca como uma força de vanguarda, disposta a correr riscos estéticos. Para os colecionadores de hoje, o Odyssee 2001 é um 'grail watch'. A sua história fascinante, a sua ligação a um dos maiores filmes de todos os tempos e a sua pura audácia de design garantem-lhe um lugar de destaque no panteão da relojoaria do século XX.
CURIOSIDADES
A ligação a Kubrick: Embora inspirado pelo filme, o Odyssee 2001 de produção não é o relógio exato visto no pulso dos atores. Os adereços do filme eram ainda mais conceptuais e não foram produzidos comercialmente.
O truque do nome: A utilização da grafia francesa 'Odyssee' foi uma manobra legal inteligente para evitar problemas de licenciamento com o título do filme '2001: A Space Odyssey', permitindo à Hamilton capitalizar a associação sem pagar royalties.
A Coroa Oculta: Para manter a pureza da forma em cunha, a coroa de ajuste foi embutida na lateral da caixa às 3 horas, tornando-a quase invisível de frente e reforçando a sua estética de 'objeto do futuro'.
O Sucessor Espiritual do Ventura: Embora a sua autoria direta seja debatida, o design do Odyssee 2001 é amplamente visto como um sucessor espiritual do trabalho de Richard Arbib, o designer do revolucionário Hamilton Ventura de 1957, partilhando a mesma filosofia de quebra de convenções simétricas.
Culto vs. Comércio: O relógio foi um fracasso comercial na sua época, considerado demasiado excêntrico. Esta falta de popularidade inicial levou a uma produção curta, o que ironicamente alimenta a sua raridade e o seu estatuto de culto entre os colecionadores de hoje.
A importância da Bracelete: Encontrar um Odyssee 2001 com a sua bracelete de aço original (frequentemente da marca JB Champion) é extremamente difícil e aumenta significativamente o valor do relógio, pois muitas foram substituídas ao longo dos anos devido ao desgaste.