RESUMO
Lançado em 1989, o Longines Ephemerides Solaires representa um dos ápices da renascença mecânica da manufatura de Saint-Imier, concebido especificamente para comemorar o centenário do registro oficial da marca e do seu icônico logotipo da ampulheta alada (registrados originalmente em 1889). Esta peça não é apenas um instrumento de cronometragem, mas um astrolábio de pulso que reconecta a horologia às suas raízes celestiais. Numa época em que a indústria suíça emergia da Crise do Quartzo, a Longines ousou produzir uma complicação esotérica e intelectualmente desafiadora: a Equação do Tempo, combinada com dados de efemérides solares. O relógio distingue-se pelo seu design erudito, apresentando um mostrador de esmalte branco imaculado com algarismos romanos e um complexo sistema de luneta rotativa. Diferente de calendários perpétuos ou cronógrafos comuns, o Ephemerides Solaires exige a interação do usuário para revelar a mecânica do cosmos, permitindo a leitura da declinação solar, e os horários do nascer e pôr do sol baseados na latitude, além da diferença entre o tempo civil e o tempo solar verdadeiro. É, em essência, uma obra-prima de nicho que encapsula a elegância técnica e a profundidade histórica da Longines, servindo como um monumento à longevidade da marca registrada mais antiga do mundo ainda em atividade na OMPI.
HISTÓRIA
A história do Longines Ephemerides Solaires é intrínseca à celebração da identidade corporativa mais duradoura da horologia suíça. Em 1889, Ernest Francillon, o visionário à frente da Longines, registrou a marca e o logotipo da ampulheta alada no Escritório Federal de Propriedade Intelectual da Suíça, tornando-a a marca mais antiga ainda em uso, sem modificações, na Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). Um século depois, em 1989, a empresa decidiu não apenas lançar um relógio comemorativo, mas criar uma peça que demonstrasse domínio técnico absoluto sobre o tempo astronômico.
O contexto histórico de 1989 é crucial. A relojoaria mecânica estava começando a recuperar seu prestígio após a devastação da crise do quartzo nos anos 70 e início dos 80. As marcas precisavam provar que a mecânica tradicional oferecia algo que o quartzo não podia: alma e conexão com o cosmos. A Longines respondeu com o Calibre L640. Construído sobre a base robusta do ETA 2892-A2, o movimento foi equipado com um módulo astronômico sofisticado. Ao contrário de relógios que mostram apenas as fases da lua, o Ephemerides Solaires focou na relação da Terra com o Sol.
A complicação central é a 'Equação do Tempo'. Devido à órbita elíptica da Terra e à inclinação do seu eixo, o dia solar verdadeiro (o tempo que o sol leva para retornar à mesma posição no céu) raramente tem exatamente 24 horas. Ele varia ao longo do ano, oscilando entre cerca de -16 a +14 minutos em relação ao tempo médio (civil) que usamos em nossos relógios. O Ephemerides Solaires exibe essa discrepância, permitindo ao usuário saber o 'tempo solar verdadeiro'.
Além disso, o design do relógio incorporou uma luneta giratória complexa com os meses do ano e a declinação solar. Ao alinhar a data atual na luneta, o usuário podia, através de um cálculo visual elegante envolvendo o horizonte e a latitude local, determinar os horários exatos do nascer e do pôr do sol. O modelo foi lançado numa época de grande criatividade para a Longines, muitas vezes agrupado com as reedições históricas como o Lindbergh Hour Angle, mas o Ephemerides era tecnicamente mais denso e visualmente mais clássico, evocando os relógios de bolso do século XIX.
A produção foi limitada, não necessariamente por numeração fixa em todos os lotes, mas pela complexidade de montagem e pela natureza esotérica da complicação, que exigia um usuário conhecedor. Hoje, o Ephemerides Solaires de 1989 permanece um testemunho da capacidade da Longines de fundir a história legal da marca com a alta ciência horológica, criando um objeto de desejo para colecionadores que valorizam a astronomia tanto quanto a cronometria.
CURIOSIDADES
O logotipo da Longines (a ampulheta alada) comemorado por este relógio é o registro de marca mais antigo da OMPI ainda em vigor e inalterado.
A luneta do relógio exibe a Declinação Solar (a latitude onde o sol está diretamente acima ao meio-dia), variando de +23,5° a -23,5°.
Uma edição muito rara deste modelo foi produzida especificamente para a companhia aérea Swissair, vendida exclusivamente em voos de primeira classe ou lojas duty-free selecionadas nos anos 90.
O mostrador possui uma abertura discreta acima do eixo central que indica o mês, trabalhando em sincronia com a Equação do Tempo.
Apesar de sua complexidade, a base do movimento (ETA 2892) garante uma facilidade de serviço que muitas grandes complicações de outras marcas não possuem.
O manual de instruções original do Ephemerides Solaires é considerado um item de colecionador por si só, contendo lições detalhadas de mecânica celeste necessárias para operar o relógio.
No fundo da caixa, muitos modelos apresentam um medalhão dourado comemorativo com a inscrição '1889-1989' e o logotipo clássico da marca.