RESUMO
Em 1980, num cenário em que a revolução do quartzo já tinha redefinido a paisagem da relojoaria, a Casio lançou o C-80, um instrumento que transcendia a mera medição do tempo. Este não foi o primeiro relógio com calculadora, mas foi, de forma crucial, o primeiro a libertar o utilizador da necessidade de uma caneta stylus para operar as suas funções matemáticas. Ao desenhar um teclado cujos botões podiam ser pressionados com a ponta dos dedos, a Casio democratizou a tecnologia de computação vestível, transformando-a de uma novidade de nicho para uma ferramenta prática e acessível. O C-80 não se destinava à elite da alta relojoaria, mas sim ao consumidor moderno: estudantes, engenheiros, técnicos e qualquer pessoa fascinada pela convergência da eletrónica e da funcionalidade quotidiana. A sua filosofia de design era de um utilitarismo intransigente, onde a forma seguia a função de maneira explícita. A caixa de resina, o mostrador LCD e o teclado proeminente não procuravam a elegância tradicional, mas sim uma estética futurista e cibernética que capturava perfeitamente o espírito da época. O Casio C-80 é, portanto, um marco horológico, não pela sua complexidade mecânica, mas pelo seu impacto cultural e tecnológico, solidificando o relógio digital como um 'gadget' indispensável e estabelecendo um paradigma de design que influenciaria a Casio e toda a indústria durante décadas.
HISTÓRIA
A génese do Casio C-80 remonta ao final da década de 1970, um período de efervescência tecnológica em que a microeletrónica estava a transformar radicalmente os bens de consumo. Os relógios digitais deixaram de ser uma curiosidade cara para se tornarem omnipresentes, e fabricantes como a Casio estavam na vanguarda da inovação, competindo para integrar cada vez mais funcionalidades nos seus produtos. Relógios com calculadora já existiam, notavelmente os modelos da Pulsar e da Hewlett-Packard, mas partilhavam uma limitação fundamental: os seus teclados minúsculos exigiam o uso de uma caneta stylus, muitas vezes integrada na bracelete. Esta barreira ergonómica relegava-os a um estatuto de gadget impraticável para o uso diário. A Casio identificou esta lacuna como uma oportunidade decisiva. O desafio era desenvolver um teclado suficientemente pequeno para caber num relógio, mas com botões grandes e responsivos o suficiente para serem operados com precisão pela ponta de um dedo adulto. A solução encontrada foi um feito de engenharia de miniaturização para a época, utilizando contactos de borracha condutiva sob cada botão de plástico. Quando o C-80 foi lançado em 1980, o seu impacto foi imediato. Pela primeira vez, um relógio-calculadora era verdadeiramente funcional e intuitivo. Não era mais necessário procurar uma stylus; os cálculos podiam ser feitos de forma rápida e espontânea, diretamente no pulso. O modelo foi lançado em duas variantes principais que os colecionadores distinguem: a referência C-80, com uma caixa de resina preta, leve e desportiva, e a C-801, com uma caixa de metal cromado e bracelete de aço, oferecendo uma aparência mais premium. O layout estabelecido pelo C-80 – ecrã LCD na metade superior, teclado numérico e de funções na metade inferior – tornou-se o padrão de ouro para todos os relógios-calculadora subsequentes, incluindo o seu descendente espiritual e ícone da cultura pop, o CA-53W. O C-80 não teve múltiplas 'gerações' no sentido tradicional, pois a sua produção foi relativamente curta antes de ser sucedido por modelos mais avançados. No entanto, o seu legado é imenso. Ele provou que a tecnologia vestível podia ser acessível, útil e integrada de forma transparente na vida quotidiana. Para a Casio, o C-80 foi uma afirmação da sua identidade de marca: inovadora, focada na funcionalidade e democraticamente orientada. Mais do que um simples relógio, o C-80 foi um emblema do otimismo tecnológico do início dos anos 80, um precursor dos smartwatches modernos que colocou o poder da computação pessoal, literalmente, nas mãos – e nos pulsos – de uma geração inteira.
CURIOSIDADES
O layout de design do C-80, com o ecrã na parte superior e o teclado na parte inferior, tornou-se tão icónico que definiu o padrão para praticamente todos os relógios-calculadora que se seguiram, incluindo os modelos atuais da Casio.
A inovação chave do C-80 foi o seu teclado de borracha condutiva, que permitiu que os botões fossem suficientemente grandes para os dedos, eliminando a necessidade da caneta stylus que limitava os modelos concorrentes.
Embora o seu sucessor mais famoso, o CA-53W, seja conhecido por ter sido usado por Marty McFly em 'Regresso ao Futuro', o C-80 estabeleceu as bases estéticas e funcionais que tornaram esses relógios ícones da cultura pop dos anos 80.
O C-80 era frequentemente visto como um símbolo de estatuto entre estudantes e profissionais de áreas técnicas na década de 80, uma peça de 'geek chic' que sinalizava uma afinidade com a tecnologia e o futuro.
Existem duas versões principais procuradas pelos colecionadores: o C-80 padrão com caixa de resina preta e o mais raro C-801, que apresentava uma caixa de metal e bracelete de aço inoxidável.
O músico Sting foi fotografado a usar um relógio-calculadora Casio muito semelhante durante o auge da sua fama com The Police, ajudando a cimentar o estatuto de acessório 'cool' do relógio.
Para além das quatro operações matemáticas básicas, o C-80 também podia realizar cálculos com constantes, uma funcionalidade avançada para um dispositivo de pulso na altura.