RESUMO
Lançado em 1979, o Longines Feuille d'Or (Ref. 4411) não foi apenas um relógio de pulso; foi uma declaração de sobrevivência e superioridade técnica da indústria relojoeira suíça durante o auge da 'Crise do Quartzo'. Com uma espessura total inconcebível de apenas 1,98mm, este modelo representou o ápice da miniaturização eletrônica e mecânica da época. Desenvolvido sob o guarda-chuva do projeto secreto 'Delirium' em colaboração com a Ebauches SA (precursora da ETA), o Feuille d'Or rompeu com séculos de construção tradicional de relógios. Para atingir tal esbeltez, a Longines eliminou a placa de base do movimento, usinando os componentes diretamente no fundo da caixa de ouro maciço. Este design radical transformou o relógio em uma estrutura monobloco integrada, onde a caixa e o movimento eram indissociáveis. Esteticamente, apresentava-se como uma 'folha de ouro' literal no pulso, combinando luxo extremo com tecnologia de ponta. Mais do que um acessório de moda, o Ref. 4411 foi a prova física de que a Suíça poderia não apenas competir com a precisão japonesa, mas superá-la na engenharia de ultra-finos, pavimentando o caminho para tecnologias futuras que salvariam o setor.
HISTÓRIA
A história do Longines Feuille d'Or (Ref. 4411) é inseparável de um dos momentos mais dramáticos da horologia: a Crise do Quartzo da década de 1970. Em 1978, a indústria suíça estava de joelhos. Marcas japonesas, lideradas pela Seiko, haviam inundado o mercado com relógios de quartzo precisos, baratos e robustos. A Seiko havia acabado de lançar um relógio de 2,5mm de espessura, desafiando diretamente a capacidade técnica suíça. A resposta veio através de uma aliança estratégica dentro do grupo ASUAG (que mais tarde se tornaria parte do Swatch Group).
Sob codinome 'Delirium', engenheiros da Ebauches SA (hoje ETA), liderados pelo visionário Maurice Grimm, iniciaram um projeto de emergência para criar o relógio mais fino do mundo e recuperar o prestígio suíço. O desafio físico era imenso: os componentes tradicionais empilhados (fundo, placa, pontes, mostrador, vidro) simplesmente não cabiam em menos de 2mm. A solução foi revolucionária: descartar a placa principal do movimento. Pela primeira vez na história, o mecanismo de quartzo foi montado diretamente na parte interna do fundo da caixa do relógio. O próprio relógio tornou-se o movimento.
A Longines, como uma das marcas mais prestigiadas e históricas do grupo, foi escolhida para comercializar esta tecnologia de ponta (juntamente com a Concord e a Eterna). Em 1979, a Longines revelou o Ref. 4411, batizando-o poeticamente de 'Feuille d'Or' (Folha de Ouro). Com 1,98mm, ele quebrou a barreira psicológica dos 2mm. O design era de uma elegância austera; não havia coroa para quebrar a simetria lateral – o ajuste das horas era feito por um botão embutido no fundo da caixa ou por uma ferramenta especial.
O lançamento foi um sucesso retumbante de relações públicas. Embora o relógio fosse caro e delicado (o ouro maciço tão fino poderia dobrar se o usuário apertasse a pulseira com muita força), ele cumpriu sua missão. O Feuille d'Or reafirmou a Longines como uma 'Manufatura' capaz de inovação extrema. A tecnologia desenvolvida para este modelo – especificamente a ideia de usar o fundo da caixa como placa base – não apenas garantiu o recorde mundial na época, mas foi a gênese técnica direta para o desenvolvimento do relógio 'Swatch' de plástico alguns anos depois. O Swatch utilizou a mesma arquitetura simplificada para reduzir custos e peças, salvando economicamente a indústria suíça. Portanto, o Longines Ref. 4411 não é apenas um relógio de ouro ultra-fino; é o 'pai' nobre e luxuoso da revolução que permitiu que a relojoaria suíça existisse no século XXI.
CURIOSIDADES
1. O nome do projeto 'Delirium' (que originou o Feuille d'Or) supostamente veio de 'Delirium Tremens', referindo-se ao quão trêmulos e nervosos os relojoeiros ficavam ao tentar montar componentes tão microscópicos.
2. O relógio era tão fino que torções no pulso poderiam parar o movimento ou até trincar o cristal de safira; a Longines recomendava não usá-lo muito apertado.
3. A bateria era, na época, o componente mais espesso de todo o conjunto, ditando a altura final do relógio.
4. Não possui coroa: o ajuste de horas exigia um objeto pontiagudo ou uma ferramenta específica para pressionar um corretor no fundo da caixa.
5. O Feuille d'Or custava, em 1979, o equivalente a um carro de médio porte, posicionando-se como um item de ultra-luxo.
6. A tecnologia de 'injeção' de componentes no fundo da caixa usada neste Longines é a base técnica direta do Swatch original lançado em 1983.
7. A Longines e seus parceiros (Ebauches SA) conseguiram reduzir a espessura ainda mais em modelos subsequentes não comerciais, chegando a incríveis 0,98mm (Delirium IV), mas estes eram praticamente inusáveis devido à fragilidade.