RESUMO
O Raketa Amphibia de 2014 representa um marco monumental na história da relojoaria russa moderna. Mais do que um simples relógio de mergulho, é a declaração de renascimento de uma das mais antigas e veneráveis fábricas da Rússia, a Petrodvorets Watch Factory. Lançado numa era em que a marca procurava reafirmar a sua identidade como uma verdadeira 'manufacture', este Amphibia foi o veículo escolhido para apresentar ao mundo o seu primeiro calibre automático inteiramente novo da era pós-soviética: o Raketa-Avtomat. O seu posicionamento no mercado foi audacioso, visando não apenas os entusiastas da horologia soviética, mas também colecionadores internacionais que procuravam uma alternativa robusta e autêntica aos mergulhadores suíços e japoneses. O seu público-alvo são os conhecedores, aqueles que valorizam a história, a engenharia mecânica interna e um design com propósito. A filosofia do relógio é uma fusão do utilitarismo brutalista do seu antecessor dos anos 70 com a precisão e os materiais do século XXI. A sua importância transcende a mera funcionalidade; simboliza a resiliência e a capacidade técnica da relojoaria russa, provando que a tradição de inovação mecânica não se perdeu, mas foi reimaginada para uma nova geração.
HISTÓRIA
A história do Raketa Amphibia de 2014 é, na sua essência, a história da própria ressurreição da Raketa. Após o colapso da União Soviética, a histórica fábrica de Petrodvorets, como muitas outras indústrias russas, enfrentou um período de declínio acentuado. No entanto, no início dos anos 2010, sob nova gestão e com um influxo de investimento liderado por entusiastas como Jacques von Polier, a marca iniciou um ambicioso projeto de revitalização. O objetivo não era apenas montar relógios, mas recuperar o seu estatuto de 'manufacture' de pleno direito, controlando a produção de cada componente, especialmente o coração do relógio: o movimento. O culminar deste esforço hercúleo foi o desenvolvimento do calibre Raketa-Avtomat, o primeiro movimento automático inteiramente novo projetado e produzido na Rússia desde a queda do comunismo. Para apresentar esta proeza técnica ao mundo, a Raketa precisava de uma plataforma que fosse simultaneamente um aceno ao seu passado glorioso e uma demonstração de capacidade moderna. A escolha recaiu sobre o Amphibia, um nome lendário mas raro no seu portefólio.
O antecessor espiritual, o Raketa Amphibia original dos anos 1970, era uma criatura muito diferente do seu homónimo mais famoso da Vostok. Produzido em quantidades muito limitadas, era um relógio de mergulho profissional, uma ferramenta sem concessões, caracterizado por uma caixa de aço maciça e muitas vezes assimétrica, projetada para suportar pressões extremas. Movido pelo fiável calibre de corda manual 2609.HA, o Amphibia soviético era um testemunho da engenharia funcional da época, um relógio que privilegiava a robustez acima de tudo. O modelo de 2014 não é uma reedição, mas sim uma reinterpretação filosófica. Ele canaliza o espírito 'tool watch' do original, mas executa-o com uma sofisticação contemporânea. A caixa, embora grande e imponente com os seus 43mm, é mais refinada e ergonomicamente concebida. Onde o original usava um vidro acrílico espesso, a versão moderna ostenta um cristal de safira quase impenetrável. A resistência à água foi aumentada para uns impressionantes 400 metros, um valor que o coloca firmemente na categoria de relógios de mergulho de saturação.
O design do mostrador homenageia a legibilidade essencial do seu antepassado, com grandes marcadores luminosos e ponteiros largos que garantem uma leitura imediata em condições de pouca luz. No entanto, a execução é superior, com índices aplicados e o uso de Super-LumiNova. O lançamento inicial em 2014 foi uma série limitada e numerada, um movimento estratégico que o posicionou imediatamente como um item de colecionador. O impacto deste relógio foi profundo. Ele não apenas restabeleceu a credibilidade técnica da Raketa, mas também enviou uma mensagem clara à indústria relojoeira global: a Rússia estava de volta ao jogo. O Amphibia de 2014 foi o arauto de uma nova era para a marca, abrindo caminho para uma série de modelos inovadores que continuariam a utilizar o calibre Raketa-Avtomat e a solidificar o legado da Raketa como a mais antiga e resiliente fábrica de relógios da Rússia.
CURIOSIDADES
O nome 'Amphibia' da Raketa foi uma resposta direta e uma alternativa historicamente mais exclusiva ao onipresente e muito mais comum Vostok Amphibia, criando uma rivalidade horológica dentro da própria União Soviética.
O calibre Raketa-Avtomat (2615) foi o primeiro movimento automático completamente novo desenvolvido e produzido na Rússia pós-soviética, um projeto complexo que simbolizou a soberania industrial da marca.
Para provar a sua robustez, o relógio foi submetido a testes rigorosos por unidades de mergulhadores profissionais russos, validando a sua classificação de profundidade de 400 metros em condições reais.
Embora a caixa tenha um fundo sólido, o rotor do movimento Raketa-Avtomat no seu interior é frequentemente decorado com um padrão de 'Ondas de Neva', uma gravação que presta homenagem ao rio que atravessa São Petersburgo, a cidade natal da Raketa.
Muitos colecionadores iniciantes confundem o Raketa Amphibia com o seu primo da Vostok. São relógios de linhagens, fabricantes e filosofias de engenharia completamente distintas, sendo o Raketa historicamente o mais raro e tecnicamente avançado dos dois.
O lançamento de 2014 foi produzido como uma edição limitada e numerada, tornando cada exemplar uma peça única e um marco colecionável do renascimento da marca.
A Raketa, famosa por equipar cosmonautas e exploradores polares, usou o Amphibia para demonstrar a sua competência num novo ambiente extremo: as profundezas do oceano, completando assim o seu domínio sobre terra, espaço e mar.