RESUMO
O Longines Nonius Ref. 8225, lançado em 1968, representa um dos ápices da engenharia mecânica desportiva antes da Revolução de Quartzo. Este relógio não é apenas um instrumento de cronometragem; é uma afirmação técnica audaciosa que combina a função 'flyback' (retour-en-vol) com uma leitura de precisão decimal inédita para um movimento de 18.000 alternâncias. A sua característica mais marcante — o ponteiro de segundos do cronógrafo em amarelo ou laranja brilhante, equipado com uma escala vernier (nonius) móvel — permite ao utilizador medir intervalos de 1/10 de segundo com o olho nu, uma proeza ótica que compensa a frequência do balanço. Alojado numa caixa robusta de estilo 'almofada' (cushion case) típica da estética do final dos anos 60, o Ref. 8225 abriga o lendário Calibre 538. Este movimento é historicamente significativo por ser a evolução final e derradeira da linhagem do calibre 30CH, amplamente considerado pelos puristas como um dos melhores movimentos de cronógrafo de corda manual já fabricados in-house. O Nonius 8225 é, portanto, o 'canto do cisne' da era dourada da manufatura da Longines, unindo uma complicação esotérica a uma construção de nível de alta relojoaria.
HISTÓRIA
A história do Longines Nonius Ref. 8225 é indissociável da busca incessante da marca pela precisão na cronometragem desportiva e do contexto histórico da relojoaria no final da década de 1960. O nome 'Nonius' presta homenagem ao matemático, cosmógrafo e cartógrafo português Pedro Nunes (1502-1578), conhecido em latim como Petrus Nonius, que inventou o sistema de nónio para medições angulares precisas. A Longines adaptou este princípio secular para a relojoaria de pulso num momento crítico.
Na década de 1960, a Longines já era uma gigante estabelecida na cronometragem oficial de eventos olímpicos e desportivos. No entanto, a necessidade de medir frações de segundo num relógio de pulso mecânico apresentava desafios físicos; aumentar a frequência do balanço (para 36.000 vph, por exemplo) era uma solução, mas causava maior desgaste. A solução da Longines com o Ref. 8225 foi genial pela sua simplicidade ótica: manter um movimento robusto e fiável de frequência tradicional e aplicar a escala vernier no próprio ponteiro.
O coração deste modelo é o que o torna um 'Graal' para colecionadores modernos: o Calibre 538. Para compreender a importância do 538, deve-se olhar para o seu predecessor, o Calibre 30CH, lançado em 1947. O 30CH foi o sucessor do mítico 13ZN e é frequentemente citado como o último grande calibre de cronógrafo 'in-house' da era clássica industrial suíça. O Calibre 538 é, essencialmente, uma versão modificada do 30CH, adaptada especificamente para acomodar o torque e o equilíbrio necessários para mover o pesado ponteiro vernier. Ele manteve a arquitetura de roda de colunas e a função flyback — que permite reiniciar o cronógrafo instantaneamente sem ter de o parar primeiro, uma função vital para pilotos e cronometragem de voltas consecutivas.
Esteticamente, o Ref. 8225 rompeu com as caixas redondas e clássicas dos anos 50, abraçando a geometria ousada da era espacial e do design industrial do final dos anos 60. A caixa em formato de almofada era maciça e masculina, projetada para proteger o mecanismo sofisticado no seu interior. Infelizmente, o lançamento deste modelo coincidiu com a iminência da Crise do Quartzo. A produção foi curta e o custo de fabricar um movimento de roda de colunas tão refinado tornou-se proibitivo em comparação com os movimentos de came (como o Valjoux 7733) ou os novos cronógrafos automáticos (Calibre 11, El Primero). Assim, o Nonius Ref. 8225 permanece como um monumento final à supremacia mecânica da Longines antes da reestruturação da indústria nos anos 70.
CURIOSIDADES
1. O princípio do 'Nónio' baseia-se na diferença entre a escala fixa do mostrador e a escala móvel no ponteiro; a leitura de 1/10 de segundo é feita observando qual linha da escala móvel se alinha perfeitamente com uma marca de segundo no mostrador.
2. O Calibre 538 é considerado por muitos peritos como o último movimento cronógrafo de manufatura 'verdadeira' da Longines antes da sua integração no conglomerado que se tornaria o Swatch Group.
3. A forma peculiar do ponteiro de segundos do cronógrafo valeu-lhe várias alcunhas entre colecionadores, sendo a mais comum 'comb hand' (ponteiro de pente).
4. A função Flyback (Retour-en-vol) presente neste modelo era originalmente uma exigência para a aviação, permitindo aos pilotos reiniciarem a contagem de tempo em pontos de navegação sem perderem segundos preciosos com a sequência 'parar-zerar-iniciar'.
5. Existem variações raras do Nonius onde o mostrador não é preto, mas prateado ou 'panda', embora a versão de mostrador preto Ref. 8225 seja a mais icónica.
6. A Longines reeditou o conceito do Nonius em modelos modernos (como no Master Collection), mas utilizando movimentos baseados em ETA (Valgranges) modulares, o que faz com que o original Ref. 8225 com o calibre 538 seja tecnicamente superior e muito mais valioso.
7. O peso adicional do ponteiro Nonius exigia um ajuste finíssimo da tensão da mola do cronógrafo para evitar que o ponteiro 'saltasse' ou arrastasse excessivamente, demonstrando a mestria dos relojoeiros da época.