RESUMO
Mais do que um modelo específico, a Patente US2467062A representa um pilar tecnológico fundamental na história da Hamilton. Depositada em 1947 pelo engenheiro de caixas suíço Henri Vermot, esta invenção não era um relógio, mas sim o coração da sua durabilidade. Numa era pós-guerra onde a robustez se tornava um critério de compra essencial para o consumidor civil, a Hamilton procurava uma solução definitiva para os inimigos mais comuns da relojoaria: a poeira e a humidade. A patente de Vermot introduziu um design de caixa de três peças engenhosamente simples, mas imensamente eficaz, que garantia uma vedação hermética superior. Esta tecnologia foi implementada numa vasta gama de relógios Hamilton, desde elegantes modelos de cerimónia a robustos relógios de campo, tornando-se um dos principais argumentos de venda da marca. A sua significância reside não na sua estética, mas na sua função invisível; foi uma inovação democrática que elevou a fiabilidade de toda a linha de produção da Hamilton, solidificando a sua reputação de precisão e durabilidade e estabelecendo um novo padrão para a indústria relojoeira americana na sua competição com as inovações suíças, como a caixa Oyster da Rolex. A patente de Vermot não era para um nicho, mas para o homem comum que exigia que o seu investimento cronometrado resistisse aos rigores do dia a dia.
HISTÓRIA
A génese da Patente US2467062A encontra-se no vibrante, porém desafiador, cenário da relojoaria do pós-Segunda Guerra Mundial. Em 1947, a Hamilton Watch Company, uma gigante americana, estava a transitar da sua maciça produção de guerra, onde a precisão e a robustez eram questões de vida ou de morte, para um mercado de consumo cada vez mais sofisticado e exigente. Os soldados que regressavam estavam familiarizados com relógios de campo fiáveis e esperavam um nível semelhante de durabilidade nos seus relógios civis. O maior adversário de um movimento mecânico delicado era, e continua a ser, a infiltração de elementos externos. Poeira, sujidade e, acima de tudo, a humidade, podiam oxidar componentes, degradar lubrificantes e destruir a precisão de um relógio em pouco tempo. As caixas 'snap-back' (de fundo de pressão), comuns na época, ofereciam uma proteção mínima.
Neste contexto, a Hamilton procurou uma solução superior. Encontrou-a no trabalho de Henri Vermot, um talentoso e prolífico designer de caixas de relógio de La Chaux-de-Fonds, Suíça. Vermot depositou a sua invenção primeiramente na Suíça em janeiro de 1946 (CH252382A) e, posteriormente, a aplicação nos Estados Unidos foi feita em 28 de maio de 1947, sendo concedida em 12 de abril de 1949. A beleza da invenção residia na sua abordagem à vedação. O design consistia em três componentes principais: a luneta, que continha o cristal; o corpo central da caixa, que abrigava o movimento; e o fundo da caixa. Ao contrário dos sistemas mais simples, o design de Vermot utilizava a pressão mecânica exercida pelo fecho da luneta e do fundo para comprimir juntas de vedação de forma uniforme e eficaz, criando uma barreira hermética. Este sistema era superior aos fundos de pressão e uma alternativa mais económica e versátil para relógios de cerimónia e de uso diário em comparação com os complexos fundos de rosca, como o da caixa Oyster da Rolex.
A Hamilton rapidamente integrou esta tecnologia na sua linha de produtos, particularmente na célebre série 'CLD'. Lançada no final da década de 1940, a sigla CLD significava 'Sealed Against Damage' (Selado Contra Danos), um slogan de marketing poderoso que comunicava diretamente o principal benefício da inovação. Modelos como o Hamilton Boulton, o Norman e muitos outros foram progressivamente equipados com caixas baseadas neste princípio. Visualmente, a mudança era subtil, mas funcionalmente, era transformadora. Os relojoeiros reportavam que os movimentos dentro destas caixas chegavam para manutenção em condições significativamente melhores, exigindo menos reparações e substituições de peças. O impacto desta patente no legado da Hamilton foi profundo. Permitiu à marca competir eficazmente no campo da durabilidade, reforçando a sua imagem de qualidade intransigente. Embora a tecnologia de caixas de rosca se tenha tornado eventualmente o padrão para relógios de mergulho e de ferramenta, o sistema de vedação por compressão de Vermot tornou-se um pilar para a vasta maioria dos relógios de qualidade durante as décadas de 50 e 60, representando um passo evolutivo crucial na busca incessante da relojoaria por um invólucro perfeito e protetor para o seu coração mecânico.
CURIOSIDADES
O inventor, Henri Vermot, não era um funcionário interno da Hamilton, mas um especialista suíço independente, evidenciando a colaboração internacional na inovação relojoeira, mesmo para uma marca ferozmente americana.
A patente foi primeiro registada na Suíça sob o número CH252382A em 31 de janeiro de 1946, um ano antes da sua aplicação nos EUA, sublinhando a origem suíça do design.
A Hamilton promoveu agressivamente esta tecnologia através da sua linha 'CLD', um acrónimo para 'Sealed Against Damage' (Selado Contra Danos). Em alguns anúncios, a marca brincava que significava 'Corrosion, Lurking, Dirt' (Corrosão, Clandestina, Sujidade).
Embora não criasse um 'relógio de mergulho' nos padrões modernos, esta tecnologia foi revolucionária para o uso diário, protegendo os relógios da chuva, da humidade da transpiração e do pó do ambiente, os verdadeiros 'assassinos' de movimentos na época.
Os diagramas técnicos da patente são considerados exemplares pela sua clareza, detalhando a interação precisa entre o cristal, a luneta, o corpo e o fundo para criar uma vedação pressurizada.
Esta invenção foi uma resposta direta da Hamilton às inovações europeias, como a caixa Oyster da Rolex, mas focada no mercado de massa de relógios de vestir e de uso geral, em vez de se especializar em relógios-ferramenta.
Muitos colecionadores de Hamilton vintage procuram especificamente os modelos 'CLD' como exemplos da engenharia de topo da marca durante a sua 'Idade de Ouro' nas décadas de 1940 e 1950.