RESUMO
O Raketa Polar de 1970 não é apenas um relógio; é um instrumento de sobrevivência forjado no auge da exploração da Guerra Fria pela União Soviética. Desenvolvido especificamente para a 16ª Expedição Antártica Soviética, este modelo transcendeu a relojoaria convencional para se tornar uma ferramenta essencial para cientistas e exploradores que enfrentavam a desorientação da noite polar perpétua ou do dia sem fim. A sua filosofia de design é de um pragmatismo absoluto: a função dita a forma em todos os aspetos. O seu coração, o calibre 2623.H de 24 horas, permitia aos utilizadores distinguir inequivocamente o dia da noite, enquanto a sua caixa antimagnética especializada protegia o movimento dos campos magnéticos gerados por equipamentos científicos. Posicionado não como um bem de luxo, mas como equipamento emitido pelo Estado, o Polar representa o auge da engenharia soviética orientada para um propósito. A sua importância horológica reside na sua pureza de intenção e na sua história única, tornando-o um artefacto fascinante que conta uma história de ambição humana, engenho técnico e aventura nos confins mais inóspitos da Terra. Para os colecionadores, é um símbolo de uma era em que os relógios eram ferramentas indispensáveis, muito antes de se tornarem declarações de estilo.
HISTÓRIA
A génese do Raketa Polar está intrinsecamente ligada à ambição geopolítica e científica da União Soviética no final da década de 1960. Enquanto a corrida espacial dominava as manchetes, outra fronteira igualmente desafiadora capturava a atenção do Kremlin: a Antártida. As Expedições Antárticas Soviéticas eram empreendimentos de grande prestígio nacional, exigindo equipamentos da mais alta robustez e fiabilidade. Para a 16ª expedição, programada para 1970, foi identificado um desafio único: a desorientação temporal causada pelos períodos de seis meses de luz solar contínua ou escuridão total. Um relógio padrão de 12 horas tornava-se um instrumento confuso, incapaz de informar um explorador se o '10' no mostrador significava manhã ou noite, perturbando os ritmos circadianos e a coordenação das equipas. A solução veio da Fábrica de Relógios de Petrodvorets, mais conhecida como Raketa. A fábrica já possuía uma reputação de produzir movimentos robustos e fiáveis para as massas, mas esta tarefa exigia uma especialização única. Os engenheiros da Raketa não se limitaram a modificar um calibre existente; eles desenvolveram o 2623.H, uma evolução do seu cavalo de batalha, o calibre 2609.H. Este novo movimento foi re-projetado desde a base com uma engrenagem diferente para que o ponteiro das horas completasse uma única rotação em 24 horas, uma complicação 'verdadeira' de 24 horas. O modelo de 1970, criado para a expedição, era mais do que apenas um relógio de 24 horas. Era uma ferramenta de precisão projetada para o ambiente antártico. A sua característica mais distintiva, além do mostrador, era a caixa antimagnética. Os equipamentos científicos e de navegação da época geravam campos magnéticos fortes que podiam paralisar um relógio mecânico ao magnetizar a sua delicada espiral de balanço. O Polar contornava este problema com um escudo interno de ferro macio, que envolvia o movimento e desviava os campos magnéticos, preservando a sua precisão. O design do mostrador era um exercício de legibilidade, com numerais arábicos claros e um anel de capítulo em dois tons para uma referência visual imediata do dia e da noite. As versões posteriores e civis dos relógios de 24 horas da Raketa tornaram-se populares, muitas vezes com temas náuticos ou de aviação, mas o modelo original 'Polar' de 1970, com a sua caixa antimagnética específica e a sua proveniência documentada, permanece o 'Santo Graal' para os colecionadores. O seu impacto transcende a própria Raketa; ele representa um capítulo fascinante na história dos relógios-ferramenta, demonstrando que a grande relojoaria não era exclusividade da Suíça, mas florescia também por trás da Cortina de Ferro, impulsionada não pelo luxo, mas pela necessidade e pela exploração.
CURIOSIDADES
O nome 'Polar' (???????? - Polyarnye) não foi um artifício de marketing, mas uma designação funcional que refletia diretamente o seu propósito para uso por exploradores polares soviéticos.
Os exemplares originais emitidos para a 16ª Expedição Antártica são extremamente raros. A maioria dos modelos encontrados hoje são versões civis posteriores ou 'Frankenwatches', tornando a autenticação de um original uma tarefa para especialistas.
A proteção antimagnética era crucial e consistia numa gaiola de Faraday em miniatura: um invólucro interno e um mostrador de ferro macio que redirecionavam os campos magnéticos ao redor do movimento, protegendo-o.
O Calibre 2623.H não era uma modificação simples, mas uma reengenharia significativa do trem de engrenagens do movimento base, demonstrando a capacidade técnica dos relojoeiros da Petrodvorets.
Ao contrário dos relógios ocidentais associados a celebridades, os 'heróis' que usaram o Raketa Polar eram cientistas e engenheiros soviéticos, cujas identidades permanecem em grande parte anónimas no Ocidente, adicionando um ar de mistério e autenticidade ao relógio.
A disposição do mostrador, com o '24' no topo (meio-dia solar) e o '12' na base (meia-noite), foi projetada para ser usada como uma espécie de bússola solar no hemisfério norte, embora a sua função principal na Antártida fosse puramente a de indicar a hora do dia.
A Raketa reviveu o legado do Polar com reedições modernas, capitalizando a crescente apreciação por relógios-ferramenta com histórias autênticas e um design utilitário comprovado.