RESUMO
Em 1998, num cenário relojoeiro que procurava redefinir o valor para além da dicotomia entre o quartzo descartável e a mecânica de luxo, a Seiko apresentou uma inovação que era simultaneamente pragmática e poética: a tecnologia Kinetic Auto Relay. Este não era apenas mais um relógio; era a solução engenhosa para o calcanhar de Aquiles dos primeiros movimentos Kinetic – a sua reserva de marcha limitada. O Kinetic Auto Relay foi posicionado como o auge da inteligência relojoeira, destinado a um público tecnologicamente astuto que valorizava a inovação funcional tanto quanto a estética. A sua filosofia de design combinava a robustez de um relógio desportivo com uma elegância contida, tornando-o um companheiro versátil para o escritório e para o lazer. A sua importância horológica reside na forma como redefiniu a relação entre o utilizador e o relógio. Ele exigia a energia do movimento humano, como um automático, mas oferecia uma autonomia que superava qualquer relógio mecânico, entrando num estado de hibernação que podia durar até quatro anos. Ao 'acordar' com um simples abanar e ajustar-se automaticamente à hora correta, o Auto Relay demonstrou que a tecnologia de quartzo podia ser duradoura, interativa e profundamente inteligente, solidificando o legado da Seiko como uma força motriz de inovação incansável.
HISTÓRIA
A história do Seiko Kinetic Auto Relay é um capítulo crucial na saga da inovação contínua da Seiko e na evolução da tecnologia de quartzo. Para compreender o seu lançamento em 1998, é preciso regressar a 1986, quando a Seiko apresentou na Feira de Basileia um protótipo revolucionário chamado 'AGS' (Automatic Generating System). Lançado comercialmente em 1988 e mais tarde rebatizado para 'Kinetic', este sistema convertia a energia cinética do movimento do pulso do utilizador em energia elétrica para alimentar um movimento de quartzo, eliminando a necessidade de trocas de bateria. Era o melhor de dois mundos: a precisão do quartzo com a alma de um relógio automático. No entanto, os primeiros movimentos Kinetic tinham uma limitação significativa: uma reserva de marcha que, embora impressionante para a época, durava de alguns dias a algumas semanas. Se o relógio não fosse usado regularmente, parava, exigindo um tedioso processo de recarga e ajuste. Foi para resolver este problema fundamental que os engenheiros da Seiko desenvolveram a tecnologia Auto Relay. Lançada com o calibre 5J22 em 1998, a função era de uma genialidade discreta. O relógio continha um circuito integrado que detetava a inatividade. Se permanecesse imóvel por um período pré-determinado (tipicamente 72 horas), o mecanismo entrava em modo de 'sono': os ponteiros paravam de se mover para conservar a energia máxima, mas o cérebro de quartzo do relógio continuava a contar o tempo internamente. Esta hibernação inteligente permitia que o acumulador de energia mantivesse a sua carga por um período extraordinário de até quatro anos. A magia acontecia quando o utilizador pegava no relógio novamente. Um leve abanar era suficiente para 'despertar' o sistema. O rotor girava, o circuito detetava o movimento e os ponteiros ganhavam vida, girando rapidamente – por vezes várias voltas completas – até alcançarem e exibirem a hora e a data corretas, tudo de forma autónoma. Esta funcionalidade transformou o Kinetic de um relógio inovador para um verdadeiramente prático e de baixa manutenção. Os primeiros modelos, como os da série SMA (por exemplo, SMA001, SMA003, SMA005), apresentavam um design robusto e elegante, característico do final dos anos 90, que equilibrava perfeitamente a função e a forma. O impacto do Auto Relay foi profundo. Ele não só solidificou a liderança da Seiko em tecnologia de quartzo avançada, como também ofereceu uma alternativa viável e fascinante tanto aos relógios de quartzo movidos a bateria como aos relógios mecânicos. Demonstrou que a conveniência não precisava de ser sinónimo de simplicidade desinteressante, criando um relógio que era, na sua essência, uma peça de microengenharia inteligente e interativa.
CURIOSIDADES
A 'dança dos ponteiros' ao despertar o relógio tornou-se uma característica icónica e uma demonstração fascinante da tecnologia para amigos e entusiastas.
A tecnologia foi um marco na filosofia 'ecológica' da Seiko, promovendo relógios que não necessitavam de trocas de bateria, um argumento de venda forte muito antes de a sustentabilidade se tornar uma tendência global.
O salto na autonomia foi monumental: os calibres Kinetic anteriores tinham uma reserva de marcha de cerca de 6 meses no máximo. O Auto Relay estendeu esse período para 4 anos, um aumento de 8 vezes no modo de hibernação.
Os primeiros modelos Kinetic Auto Relay são hoje procurados por colecionadores que apreciam marcos tecnológicos na história da relojoaria, representando um momento em que os relógios de quartzo se tornaram 'inteligentes'.
O botão às 2 horas tinha uma dupla função: um toque rápido fazia o ponteiro dos segundos avançar para indicar a reserva de marcha (5, 10, 20 ou 30 segundos), mas também podia ser usado para colocar o relógio manualmente em hibernação.
Apesar de ter quase um quarto de século, a funcionalidade Auto Relay é tão eficiente que a Seiko continua a usar versões evoluídas desta tecnologia em alguns dos seus modelos Kinetic contemporâneos.
O calibre 5J22 foi o primeiro a integrar a função Auto Relay, tornando os relógios que o albergam peças historicamente significativas na linhagem Kinetic da Seiko.